O escândalo da pobreza extrema

O escândalo da pobreza extrema

» DOM JOSÉ FREIRE FALCÃO Cardeal
postado em 04/08/2018 00:00
Cada dia no mundo 4 mil crianças morrem de fome ou de doenças por causa da extrema pobreza. Um bilhão e setecentos milhões buscam alimento nas lixeiras. Cem milhões de crianças vivem nas ruas, sem lar, abandonadas por seus pais, que não dispõem de recursos para mantê-las. Por que acontece isto? Porque os recursos financeiros estão na mão de poucos. É o ;imperialismo internacional do dinheiro;, a que se referia Pio XI na encíclica Quadragésimo Anno, de 15 de maio de 1931.

É dever dos cristãos optar pelos pobres. O que não significa ;colocar o céu na terra, a redenção do homem no mundo; (Ratzinger), como pretendem os marxistas. Não podemos nos esquecer que ;ao lado da presença real de Jesus na Igreja e nos sacramentos, existe outra presença real de Jesus nos mais humildes, nos espezinhados deste mundo, nos últimos, nos quais ele quer ser encontrado por nós; (Ratzinger).

Santo Agostinho notava em um dos seus sermões (14) que Cristo ;nasce num apertado cubículo. Envolvido em faldras de uma criança, colocado num estábulo, torna-se como alimento de animais. Este Senhor do céu e da terra; este criador dos anjos; este autor do visível e do invisível, se amamenta, cresce, carrega as fraquezas de sua idade, oculta sua majestade;.

Mas a pobreza não é a miséria que não deveria existir. Santo Ambrósio de Milão notava: ;A natureza não conhece ricos, nos gera todos pobres. De fato, não nascemos com vestes; não somos concebidos com ouro ou prata. A terra nos gerou nus, privados de nutrição, de roupa, de bebida. A terra recebe nus aqueles que gerou, não sabe fechar num túmulo os limites da propriedade;.

Sempre haverá pobres. Mas não deveria haver a pobreza extrema, a miséria. Moradores de rua, sem casa, sem vestes, sem alimento. Por que isto acontece? Paulo VI, na Carta Apostólica Octogésima Adveniens, de 14 de maio de 971, referia-se ;à nova forma abusiva de predomínio econômico no domínio social, que reina, em lugar da política de servir, a qual tiraniza e terroriza a humanidade;. E notava da Exortação Apostólica a alegria do Evangelho: ;Enquanto não forem resolvidos radicalmente os problemas dos pobres com a renúncia e a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira e enfrentadas as causas estruturais da desigualdade social, os problemas do mundo não serão resolvidos, nem definitivamente qualquer problema;.

Em nossos dias, o papa Francisco, em carta dirigida à cúpula dos países do G8, em junho de 2013, escrevia: ;Toda teoria ou ação econômica e política deve começar por fornecer a cada habitante do planeta os recursos mínimos para viver na dignidade e liberdade, bem como a possibilidade de satisfazer as necessidades de uma família e à educação das crianças, de louvarem a Deus e desenvolverem seu potencial humano. É o principal. Na ausência de uma tal visão, a atividade econômica não tem sentido;.

João Paulo II, na encíclica Redemptor hominis, de 4 de março de 1979, falava de ;indispensáveis transformações das estruturas econômicas... da miséria diante da abundância que ameaça as estruturas financeiras... o homem não pode tornar-se escravo dos sistemas econômicos...; Certamente, não é missão da Igreja sugerir concretamente uma transformação da sociedade, mas é missão dos leigos, dos cristãos e de todas as pessoas de boa-vontade.

Se ela não oferece um projeto concreto de sociedade, contudo, opõe-se ao comunismo e ao capitalismo liberal. Afirmava João Paulo II na encíclica Sollicitudo rei socialis: ;A Igreja adota uma atitude crítica quer em relação ao capitalismo liberal, quer em relação ao coletivismo marxista;. Duas concepções do desenvolvimento imperfeitas e necessitadas de serem radicalmente corrigidas.

O que não significa, em relação ao capitalismo, que seja contrária à propriedade privada e à livre empresa. Ao contrário, defende a difusão da propriedade, na medida do possível, para todos. Como propunha João XXIII, na encíclica Mater et Magistra (114-115). Condena, no entanto, um sistema financeiro dominador, em vez de servidor. O imperialismo do dinheiro, que se opõe a uma economia ao serviço da pessoa humana. Escrevia recentemente o papa Francisco: ;Basta com os lucros de poucos à custa da pele de muitos; (Bari, 7 de julho de 2018).

Mas a Igreja não oferece um projeto concreto de sociedade. Sua posição crítica em relação ao capitalismo não significa que seja contrária à propriedade privada e à livre empresa. Ao contrário, defende a difusão da propriedade para todos. O destino para todos dos bens terrenos, sem privilegiar ninguém, segundo as normas da Justiça, inseparável da caridade.

Entre as causas da pobreza, da pobreza extrema, há a avidez do lucro e a sede de poder. Esquecem os governantes de que o fim da economia é a satisfação das necessidades humanas de todos os cidadãos, como já notava Pio XII na encíclica Quadragesimo Anno. ;A única autoridade crível, diz o papa Francisco, é a que se coloca aos pés dos outros para servir a Cristo;. Aos pés dos miseráveis dos bens desta terra.

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