Otimista, mas sem fé

Otimista, mas sem fé

Autor do premiado O filho eterno, Cristóvão Tezza participa hoje de encontro com o público da exposição Eu leitor. O escritor vai falar sobre o livro da vida dele e sobre o novo romance, A tirania do amor

» Nahima Maciel df.divirtasemais.com.br cultura.df@dabr.com.br
postado em 04/08/2018 00:00
 (foto: Rosano Mauro Jr./Divulgação)
(foto: Rosano Mauro Jr./Divulgação)
Cristóvão Tezza não tem fé. Como alguém um dia lhe disse, é como ter olho verde: ou você tem, ou você não tem. E ele não tem. Mas o escritor catarinense é otimista. Apesar de escrever livros pessimistas, cultiva essa disposição quase filosófica para ficar sempre com o lado bom da vida. ;O otimismo é uma espécie de fé. Por exemplo; não há base empírica nenhuma para dizer que o Brasil vai melhorar, tudo indica que não, mas eu prossigo otimista. Acho que a eleição vai acalmar as coisas e estabilizar minimamente o país para que recuperemos o tempo perdido. Isso é fé;, garante.

É, pelo menos, uma pitada a mais de otimismo do que o cultivado por Otávio Espinhosa, protagonista de seu novo romance, A tirania do amor. Desta vez, não é a elite intelectual o alvo de Tezza, e sim a elite financeira. Espinhosa é um economista brilhante, com diploma de Harvard e endereço profissional na Paulista. Vive o drama de uma carreira acadêmica fracassada, um livro de autoajuda publicado com pseudônimo e um casamento à deriva. Do filho, costuma ouvir críticas ao seu estilo de vida. O menino frequenta as manifestações de esquerda. Logo no início do livro, Espinhosa anuncia a renúncia à vida sexual. Segue, no entanto, povoando existência e cabeça com as amantes e ex-namoradas. A mulher, Rachel, vai pelo mesmo caminho. Como pano de fundo, a ameaça de um escândalo político e financeiro que pode colocá-lo atrás das grades e um mundo de gente endinheirada dona de um discurso nem sempre simpático.

Espinhosa é um sujeito sensível, letrado e irônico. Brinca ao dizer-se descendente do filósofo Baruch Spinoza, ideia que ocorreu a Tezza depois de ver a lombada de Ética em uma estante. Achou engraçado estabelecer as ilações entre o holandês e o brasileiro. ;O livro de autoajuda do personagem, chamado A matemática da vida, e a ideia de que, de algum modo, Spinoza se propunha a explicar o mundo e as paixões humanas exclusivamente pela razão, o que, em seu tempo, era revolucionário;, explica o autor, ao pensar sobre a motivação de trazer o filósofo para a narrativa. Tezza está em Brasília hoje para participar de encontro com o público na exposição Eu leitor. Ele vai falar sobre o ;livro da sua vida;, ou Lord Jim, de Joseph Conrad.

Lord Jim causou duplo impacto na vida do escritor. O primeiro, foi profissional. Por conta do livro, Tezza decidiu ser piloto da Marinha e foi estudar na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, no Rio de Janeiro. ;Imaginava que ser piloto da Marinha seria o ideal para o meu projeto de escritor: viajaria pelo mundo e escreveria meus livros... Mas não deu certo ; antes mesmo de completar o primeiro ano, abandonei a escola por incompatibilidade com o regime militar, que pesava na época, 1971;, conta.

O segundo impacto foi literário: ;ao ler Lord Jim, que é basicamente a história de um fracasso moral, pressenti que a literatura pode fazer o que nenhuma outra linguagem alcança. Foi uma narrativa marcante para mim. E acho que, inconscientemente, aquela história lida na juventude me influenciou quando escrevi O filho eterno;. O filho eterno virou filme em 2016, com Paulo Machline na direção. Publicado em 2007, o romance sobre a relação entre um pai e o filho com síndrome de Down ganhou, no ano seguinte, os quatro prêmios literários mais importantes do país (APCA, Jabuti, Portugal Telecom e São Paulo de Literatura). Outro romance, Juliano Pavollini, teve os direitos comprados por Caio Blat, e o filme está em fase de produção. Já O professor, de 2014, foi comprado por Marcello Airoldi e deve virar peça de teatro. Em entrevista ao Correio, o autor conta como criou Espinhosa e o que o personagem diz sobre o Brasil.

; Sou uma pessoa completamente desprovida de fé, este sentimento tão importante para a condição humana. Às vezes especulo se não seria uma condição genética, pessoas predispostas à fé ou à descrença por azares do DNA, como se Deus jogasse dados;

A tirania do amor
De Cristóvão Tezza. Todavia, 176 páginas. R$ 49,90. Eu, Leitor. Encontro com Cristóvão Tezza. Museu da República, às 17h. Entrada franca.

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