Entrevista / Cristóvão Tezza

Entrevista / Cristóvão Tezza

postado em 04/08/2018 00:00

Qual o impacto de uma elite iletrada no Brasil contemporâneo? O que isso significa, em termos de sociedade?
Uma sociedade nunca é iletrada apenas na base; quando os índices civilizatórios são teimosamente baixos ao longo das décadas (considerem-se, por exemplo, a taxa de homicídios e a evasão do ensino médio, para ficar em apenas dois pontos desgraçados do Brasil), a ignorância e a barbárie são faces sistemáticas e operantes do poder. Por exemplo, quando uma faixa da elite brasileira (ainda que, imagino, minoritária) considera o ideário político de Bolsonaro, que é grotesco, algo que se deva levar intelectualmente a sério, tem-se o tamanho da encrenca civilizatória e a extensão do nosso atraso.

Qual o lugar de literatura nesse Brasil iletrado? A literatura e a ficção podemter alguma repercussão?
Sobre a relevância da ficção no Brasil de hoje, ela é muito pequena; a literatura tornou-se quase que um animal em extinção na vida contemporânea. Entretanto, desde sempre ela é uma face imprescindível das nações e das culturas. Imagine um Brasil sem Machado de Assis, sem Lima Barreto, sem Raquel de Queiroz, sem Graciliano, sem Drummond, sem Rosa, sem Jorge Amado, sem Clarice, sem Erico Verissimo, sem Bandeira. O que restaria no nosso espelho para conversar e tentar entender?

Rachel, uma das personagens
do livro, resume romances em três linhas. Somos uma sociedade que resume as coisas em três linhas e, por isso, seguimos na superfície?
São resumos irônicos que ela faz ; mas lembre-se de que são reportados pela memória interessada do marido. Quanto ao olhar da sociedade, a capacidade de resumir é importante, mas depende da qualidade da síntese. Podemos simplesmente nos jogar nas cordas do preconceito fácil, ou, quem sabe, acertar algum nervo oculto.

Há, no livro, uma crítica à vida acadêmica?
Sim, sob os olhos de Otávio Espinhosa. Uma obra de ficção não é um ensaio; quem faz a crítica é o personagem, numa situação bastante específica, em função de seu fracasso acadêmico. Um romance é uma hipótese de existência, e assim mexe com os sistemas de valor consistentes com seus personagens.

;Só o amor intelectual é eterno;: senão, ele é tirano?
Não tinha pensado objetivamente nisso, mas acho que sim. Os afetos costumam ser inseguros, bipolares, irracionais, ameaçadores e passageiros ; enfim, tiranos. Já o amor pelos diálogos de Platão, um romance de Stendhal, um poema do Drummond ou um conto de Machado de Assis dura bem mais. Mesmo quando, anos depois, passamos a desgostar de um autor que nos encantava, restará sempre uma relação afetiva, uma boa memória. Já o amor pessoal que se esvai rarissimamente deixa boa memória.

;Considerar o mundo dos fatos antes de enfrentar as hipóteses. Só que você lida com massas humanas,
não com elementos químicos estáveis;: qual a dor e a delícia dessa constatação?
Bem, a dor é que a vida não tem controle, porque o acaso exerce sempre um poder inesperado e desestabilizador ; o futebol, para mim, é o melhor exemplo. Num jogo, há fórmulas para tudo, exceto para o acaso. A delícia é que isso, às vezes, é muito bom. Mas só às vezes.

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