Vento de mudança

Vento de mudança

ANDRÉ GUSTAVO STUMPF Jornalista
postado em 08/08/2018 00:00




Previsões servem para desmentir profetas. O desenrolar da campanha eleitoral no Brasil está cheia de surpresas. Não há favoritos. O candidato do PT, que deverá ser indicado por Lula, tem alguma chance de chegar ao segundo turno. Bolsonaro vai bem nas pesquisas, mas terá apenas alguns segundos na propaganda eleitoral gratuita. Ele terá uma pedreira pela frente para chegar ao segundo turno. Nenhum dos postulantes dispõe de chance efetiva, neste momento, na corrida.

A proximidade das datas fatais e definidoras aumentou a velocidade e obrigou os partidos a dar maior visibilidade a seus conchavos. O mais interessante deles foi a manobra da direção do Partido dos Trabalhadores no sentido de engolir o PSB em todo o país e, por consequência, isolar Ciro Gomes e seu PDT. O grupo, chamado de esquerda, que tendia a orbitar em torno do paulista-cearense recuou. A esquerda no Brasil tem dono. Pertence ao PT.

Lula e sua turma não admite competição no seu campo. Os que circulam em torno da estrela maior são pequenos e submissos ao controle do metalúrgico trancafiado numa cela da Polícia Federal em Curitiba. Manoela D;Ávila, candidata do PCdoB, não esconde sua intenção de ser candidata à vice-presidente da República na chapa do PT. Seria a consagração do pequeno partido cuja intenção de votos é muito baixa. A negociação foi simples: o PT se aliou a candidaturas socialistas em Pernambuco, Amapá, Amazonas, Paraíba em troca do apoio socialista ao candidato Fernando Pimentel em Minas Gerais. Na eleição presidencial, o PSB vai se declarar neutro.

O acordo foi péssimo para Ciro Gomes. Ele terá que digerir o batráquio para continuar na disputa. Mas estará sozinho, sem os apoios necessários para frequentar palanques significativos nos estados e usufruir mais tempo no horário eleitoral gratuito. É previsível a forte pressão para que o Judiciário solte Lula e permita sua presença na eleição. A mobilização contra o STJ e o STF será muito pesada nos próximos dias. Até 15 de agosto as chapas de todos os partidos deverão ser registradas. Dia seguinte começa a campanha. Sem Lula, o PT terá que escolher entre Fernando Haddad e Jaques Wagner, um carioca que fez carreira política nos sindicatos petroleiros na Bahia.

Do outro lado do cenário, Álvaro Dias fechou acordo com Paulo Rabello de Castro, que será o candidato a vice-presidente na chapa do paranaense. Ele, aliás, é o maior problema para Geraldo Alckmin, que deverá ter a companhia da gaúcha Ana Amélia Lemos, senadora, jornalista há muitos anos radicada em Brasília, ligada ao agronegócio. É uma chapa importante para arrecadar votos no centro-sul do país. O confronto direto com o ex-governador do Paraná deve favorecer Marina Silva, que, junto com Eduardo Jorge, do PV, anda pelo seu caminho sem evidenciar pressa, nem precipitação. Tudo nela é negociação, conversa e tranquilidade.

Há uma incógnita chamada Henrique Meirelles. Ele é o candidato do MDB, partido que não gosta de disputar à Presidência da República, mas de participar de todos os governos, qualquer governo. Funciona assim desde a Constituinte. O nome do ex-ministro da Fazenda foi aprovado com 419 votos dos delegados na Convenção Nacional realizada nesta semana. O partido ainda não fechou alianças e deverá ir sozinho para a disputa presidencial. Um dos nomes cotados para vice na chapa é o da senadora Marta Suplicy, ex-prefeita de São Paulo pelo PT.

O MDB quer fazer uma grande bancada na Câmara e no Senado. As verbas do financiamento público de campanha foram direcionadas para este objetivo. Meirelles vai bancar sua campanha do próprio bolso. É a primeira vez que isso ocorre numa eleição presidencial no país nos últimos tempos. Meirelles conhece o mercado norte-americano. Poderá trazer gente qualificada para organizar e dar um roteiro à sua campanha. Caso contrário, será, apenas, a brincadeira de um milionário para satisfazer seu ego. Os políticos estão com medo. Há um forte vento de mudança passando pelo país, o que impede qualquer previsão.

Saudade ; Abro um espaço para homenagear o jornalista Ari Cunha que nos deixou nesta semana. Comecei a trabalhar como repórter no Correio Braziliense. Meu primeiro chefe foi Alfredo Obliziner, que também já nos deixou. Ari Cunha era uma figura sempre presente na redação com observações pertinentes e acuradas. Tive boas conversas com ele. Aprendi muito. Meus sentimentos à família. Fará muita falta ao jornal e aos jornalistas.




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