Acordo de paz sob ameaça

Acordo de paz sob ameaça

Em discurso de posse, Iván Duque anuncia revisão de pacto com as Farc, ataca a participação política de rebeldes e promete ser implacável com a corrupção. Ex-guerrilheira eleita senadora adverte sobre volta ao passado e denuncia retórica polarizadora

Rodrigo Craveiro
postado em 08/08/2018 00:00
 (foto: Raul Arboleda/AFP )
(foto: Raul Arboleda/AFP )


Meia hora depois de receber a faixa presidencial das mãos de Ernesto Macías, líder do Senado, Iván Duque, 42 anos, iniciou o primeiro discurso como chefe de Estado da Colômbia, às 16h de ontem (18h em Brasília). ;Quero governar a Colômbia com valores e princípios inquebrantáveis, superando as divisões entre a esquerda e a direita. Quero governar a Colômbia com o espírito de construir, nunca de destruir;, declarou. Após a promessa de reconciliação, Duque confirmou que fará mudanças no acordo de paz firmado entre o antecessor, Juan Manuel Santos, e a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). ;Por respeito à paz, faremos correções para garantir às vítimas a justiça e a verdade. (;) Corrigiremos falhas estruturais evidentes nas implementações;, afirmou, ao sublinhar que as vítimas devem contar com a ;verdadeira reparação moral e econômica; por parte de seus algozes. Ele criticou o fato de insurgentes acusados de ;crimes atrozes; ocuparem 10 assentos no Congresso reservados pelo acordo.

A retórica de Duque repercutiu mal entre antigas lideranças das Farc, muitas das quais estavam sentadas na primeira fileira. A senadora e ex-guerrilheira Victoria Sandino ; uma das artífices do acordo de paz ; se retirou da cerimônia de posse, na Plaza de Bolívar, no centro de Bogotá, sem esconder a revolta. Minutos depois, Sandino falou ao Correio por telefone, enquanto Duque ainda discursava. ;Tanto os pronunciamentos de Macías quanto o de Duque foram absolutamente negativistas e representaram um retorno ao passado, por desconhecerem que a Colômbia avançou em matéria da paz. Também lançaram uma ameaça sobre essa esperança, a qual temos construído ao longo dos últimos seis anos;, lamentou.

Segundo Sandino, o novo presidente faz um chamado à unidade e, ao mesmo tempo, não descarta eliminar o acesso que tivemos à participação política. ;Esse discurso belicista e polarizador adotado por Duque é muito preocupante e conduz a uma ameaça não apenas ao acordo de paz, mas a todo o processo de implementação em desenvolvimento. Além de ser uma afronta à comunidade internacional, que tem apostado na paz;, acrescentou a senadora, da Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc), o partido criado pela antiga guerrilha. O também senador Carlos Lozada, da mesma legenda, foi impedido de entrar na Plaza de Bolívar.

Corrupção
Sob forte aparato de segurança ; com 15 mil militares ;, Duque anunciou a construção de um grande pacto nacional e avisou que será implacável com a corrupção. ;Nos doem muito os escândalos de corrupção na merenda escolar e na infraestrutura;, comentou, antes de anunciar uma iniciativa para que responsáveis pelos delitos de corrupção ;não gozem de prisão domiciliar nem de redução de penas;. ;Vamos sancionar severamente empresas, executivos e gestores que corrompam funcionários, proibindo sua contratação pelo Estado;, disse o afilhado político do ex-presidente Álvaro Uribe. Duque pretende impulsionar uma reforma constitucional, a fim de que o narcotráfico e o sequestro deixem de ser considerados delitos políticos.

Entre os dez chefes de Estado convidados para a posse de Duque, estavam em Bogotá os presidentes Mauricio Macri (Argentina), Enrique Peña Nieto (México), Sebastián Piñera (Chile), Lenín Moreno (Equador), Evo Morales (Bolívia), Carlos Alvorado (Costa Rica) e Danilo Medina (República Dominicana). Delegações de 17 países marcaram presença ; os Estados Unidos foram representados pela embaixadora norte-americana na ONU, Nikki Haley; o Brasil, pelo ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira.





O último dia de um Nobel no poder
Fóruns, assinaturas de decretos e um jantar (foto) oferecido às delegações presentes em Bogotá para a posse de Iván Duque. Assim foi o último dia de governo de Juan Manuel Santos, na segunda-feira. Às 21h23 (23h23 em Brasília), ele usou o Twitter para anunciar a aposentadoria da vida pública. ;Eu me retiro da política, mas seguirei trabalhando em outros âmbitos pelas vítimas e pela paz. Vou sem inimizades. Para brigar se necessita de duas pessoas. E eu, graças a Deus, não levo ódio nem ressentimento no coração;, escreveu. Santos enviou um recado a Duque. ;A meu sucessor, lhe desejo o melhor: todos os êxitos possíveis, pelo bem de nossa pátria.;





Eu acho...

;Nós estamos em trânsito para a vida civil e apostamos na reconciliação e na paz. O fato de existir uma ameaça ao acordo de paz é preocupante. Eu não quero ser alarmista, mas é tremendamente preocupante o discurso de Duque, dentro do contexto do que ocorre no país, com o assassinato de líderes sociais. Isso é um alerta que devemos levar em consideração, tanto a comunidade internacional quanto os movimentos sociais colombianos.;

Victoria Sandino, senadora pelo partido Farc, ex-guerrilheira e uma das artífices do acordo de paz




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