Fechando o cerco contra a doença de Chagas

Fechando o cerco contra a doença de Chagas

Remédio usado para tratar a malária também impede que o barbeiro transmita o Trypanosoma cruzi. Descoberta feita por cientistas brasileiros pode ajudar na criação de melhores medicamentos e medidas preventivas

Vilhena Soares
postado em 08/08/2018 00:00

A doença de Chagas é uma das enfermidades que mais castigam países tropicais, incluindo o Brasil. E as poucas opções de tratamento deixam o combate a essa enfermidade ainda mais difícil. Tentando mudar esse cenário, cientistas brasileiros decidiram intervir no ciclo de transmissão da doença utilizando um medicamento hoje prescrito para tratar a malária. Em testes, o remédio impediu que o barbeiro repassasse o Trypanosoma cruzi. Os resultados do trabalho foram publicados na revista PLoS Neglected Tropical Diseases e, segundo os autores, podem contribuir para a criação de medicamentos e medidas preventivas mais eficazes.

O estudo é um desdobramento de pesquisas conduzidas há mais de 20 anos pela equipe. ;O mote principal surgiu durante uma especialização que fiz. Depois, foi aprofundado por Caroline Ferreira, uma aluna que resolveu dar continuidade ao projeto;, conta ao Correio Marcus Oliveira, um dos autores do artigo, coordenador do estudo e professor-associado do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os trabalhos anteriores mostram que o barbeiro, um animal hematófago ; que precisa chupar sangue para sobreviver ; tem um mecanismo para usar o sangue para garantir a sua sobrevivência. ;Consegui mostrar que o barbeiro consegue eliminar grande parte do ferro, componente da hemoglobina, e o transforma em um cristal dentro do intestino, chamado hemozoína. Essa descoberta foi apresentada em um artigo publicado em 1999, na revista Nature;, detalha Oliveira. Segundo ele, a hemozoína é essencial para a sobrevivência do inseto e também para a transmissão da doença de Chagas.

Na pesquisa atual, a equipe usou a quinidina, prescrita na abordagem padrão contra a malária, para eliminar os cristais criados pelo barbeiro. ;Tínhamos feito estudos semelhantes com outras drogas usadas para tratar a malária. Usamos a quinidina porque ela é um dos medicamentos com maior capacidade antimalárica;, explica Oliveira. Aplicada em barbeiros, a substância provocou o resultado esperado pelos cientistas. ;Ao bloquear a produção de hemozoína, a reprodução do inseto e a capacidade de transmitir o Trypanosoma cruzi ficaram comprometidas. Por isso, esse processo é tao importante e os resultados foram tão positivos.;

Para a equipe, com os resultados promissores nas análises laboratoriais, é possível cogitar o uso da quinidina e de outras drogas semelhantes no combate à doença de Chagas. ;Queremos, agora, realizar mais testes e analisar a eficácia de outros compostos. Quem sabe poderemos, com isso, aumentar o arsenal de combate a essa doença? Existem poucas opções terapêuticas, seria um outro ganho, além da possibilidade de controlar o seu vetor;, destaca Oliveira.

Urgência clínica
Para Werciley Júnior, infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o trabalho brasileiro é interessante e bem-vindo. ;Apenas uma droga, o benzonidazol, é voltada para essa enfermidade. É urgente a necessidade de criar estratégias de tratamento e de combate ao inseto para que os pacientes tenham opções também mais eficazes;, diz.

O médico acredita que os estudos futuros com humanos poderão render resultados mais consistentes. ;Aplicar na população e em regiões em que os casos de Chagas são mais altos pode ajudar bastante nos desdobramentos da pesquisa;, explica. ;Temos uma outra vantagem que é em relação ao remédio usado. Ele já é prescrito na área médica, e isso facilita bastante uma futura aprovação;, complementa.

Werciley Júnior destaca outro ponto positivo da pesquisa: a autoria brasileira. ;É muito bom termos pesquisadores daqui se destacando. Sabemos que o Chagas castiga mais países tropicais, faz parte das doenças negligenciadas. Esses avanços são importantes para os brasileiros e é ainda mais interessante que eles sejam conduzidos por quem é daqui;, frisa.


Aumento de casos

Segundo o Ministério da Saúde, a maioria dos casos de malária se concentra na região amazônica, nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Pará, de Mato Grosso, Rondônia, Roraima e do Tocantins. Dados do próprio órgão indicam que, em 2017, o número de registros da doença subiu 50%, depois de seis anos de queda. O mesmo fenômeno se repete em outros países. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2016, foram contabilizados cerca de 216 milhões de casos em 91 países ; um aumento de 5 milhões em relação ao ano anterior.



;Queremos, agora, realizar mais testes e analisar a eficácia de outros compostos. Quem sabe poderemos, com isso, aumentar o arsenal de combate a essa doença?;
Marcus Oliveira, coordenador do estudo e professor-associado do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, na Universidade Federal do Rio de Janeiro

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