Casos de feminicídio em 2018 igualam a todo 2017

Casos de feminicídio em 2018 igualam a todo 2017

Com três mortes nos últimos três dias, chega a 19 o número de crimes de ódio contra mulheres no DF, o mesmo número do registrado nos 12 meses do ano passado. No caso mais recente, ontem, PM executou a ex-companheira e se matou em seguida

» Pedro Grigori » Walder Galvão Especiais para o Correio » Isa Stacciarini
postado em 08/08/2018 00:00
 (foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)


Os casos de feminicídio crescem de forma assustadora no Distrito Federal. A capital registrou 19 ocorrências até ontem, a mesma quantidade do anotado nos 12 meses do ano passado. Houve três crimes nos últimos três dias. No mais recente, ontem de manhã, um policial militar matou a ex-companheira a tiros e tirou a vida em seguida. Na segunda-feira, uma mulher morreu ao despencar da janela do terceiro andar do apartamento onde morava com o marido, preso sob suspeita de tê-la jogado ou a empurrado. No domingo, um taxista também matou a mulher a tiro e fugiu. Policiais o prenderam ontem.

Os registros de agressões contra mulheres que não culminaram em morte também aumentaram este ano no DF. No primeiro semestre, houve 7.169 ocorrências desse tipo de crime, contra 7.029 de janeiro a junho do ano passado. Nesses casos, as três principais formas de ataque são a psicológica (69,3% dos registros), seguida de agressões físicas (52,1%) e violência patrimonial (11,24%).



Na frente dos filhos

O PM Epaminondas Silva Santos, 51 anos, assassinou a tiros a ex-mulher, Adriana Castro Rosa Santos, 40, por volta das 10h de ontem, dia em que a Lei Maria da Penha completou 12 anos. Ele parou de moto na calçada da casa de Adriana e chamou por ela. Quando a vítima saiu, o militar deu três tiros, sendo dois na cabeça da vítima. O terceiro foi contra a própria boca. Ambos morreram na hora. No momento do crime, os três filhos do casal, um menino de 11 anos, uma menina de 8 e o caçula, de 5, brincavam na garagem.

Epaminondas era sargento do 8; Batalhão (Ceilândia) e, segundo uma vizinha que não quis se identificar, não aceitava a separação de Adriana. Por isso, ela morava com a mãe. Em nota, a PMDF afirmou lamentar imensamente o caso. ;O trabalho diário dos policiais militares nas ruas do DF visa, entre outras coisas, evitar esse tipo de crime. A PMDF se solidariza com os familiares e está à disposição para auxiliar no que for necessário;, diz o texto.



Rotina de brigas

Brigas, discussões e agressões marcaram o relacionamento entre Jonas Zandoná, 44 anos, e Carla Graziele Rodrigues Zandoná, 37. Na noite de segunda-feira, a mulher caiu da janela do terceiro andar de um prédio na 415 Sul e morreu ao dar entrada no hospital. A suspeita é de que o marido tenha a arremessado do edifício. O casal estava junto havia ao menos 18 anos e dividia a residência com Salmon Lustosa Evas, 75 anos. Aos investigadores da 1; Delegacia de Polícia (Asa Sul), testemunhas informaram que as brigas no imóvel eram frequentes e que o homem agrediu a mulher dois dias antes de ela morrer.

Salmon estava no apartamento no momento do crime, mas contou aos agentes que dormia, por isso não viu nem escutou nada. Em depoimento, o idoso disse que, no sábado, Jonas tentou estrangular a vítima e que as brigas eram constantes. Ele morava com o casal havia 18 anos. Carla denunciou Jonas duas vezes por violência doméstica. Os agentes aguardam perícia necroscópica para identificar se a vítima tinha sinais de agressões. Ela estava com algumas escoriações no braço direito, mas os investigadores não souberam precisar em que momento ocorreram.

Jonas também tinha pequenos ferimentos nas mãos e nos braços, mas afirmou não se lembrar do que tinha ocorrido. Ele estava aparentemente embriagado no momento da prisão. Policiais militares arrombaram a porta do apartamento, pois ele se trancou no imóvel após a morte de Carla. Jonas foi indiciado por homicídio triplamente qualificado ; motivo torpe, não apresentar possibilidade de defesa e feminicídio. Se condenado, pode pegar até 30 anos de cadeia. Na tarde de ontem, o Tribunal de Justiça (TJDFT) converteu a prisão dele em preventiva. Até então, estava preso em flagrante. Carla será velada no Cemitério Campo da Esperança de Taguatinga, hoje. O enterro terá início às 12h e o sepultamento está previsto para ocorrer às 14h30.

Taxista se entrega

O taxista Edilson Januário de Souto, 61 anos, se entregou na 27; Delegacia de Polícia (Recanto das Emas), ontem. Ele é acusado de matar a mulher, Marília Jane de Sousa, 58, no domingo. Edilson teria passado o dia em um bar, a menos de 500m de onde morava com Marília. Quando chegou à residência, discutiu com Marília e atirou quatro vezes. A mulher tentou correr, mas um dos disparos a acertou no tórax, enquanto tentava sair pelo portão. Depois de matá-la, o taxista arrasou o corpo para dentro da garagem e fugiu de carro.

Acompanhado de um advogado, Edilson afirmou que só se manifestará em juízo. ;Ele deve responder por feminicídio. Ainda não localizamos a arma do crime, por isso, não temos como indiciá-lo por porte ilegal de arma;, explicou a delegada Simone Alencar, da 27;DP. O acusado está preso na Papuda.



Termo criado em 1976

O termo feminicídio é usado desde a década de 1976, quando o Primeiro Tribunal Internacional de Crimes contra as Mulheres, em Bruxelas, na Bélgica, tratou das mortes de mulheres nos Estados Unidos e no Líbano. Além do Brasil, outros 16 países da América Latina utilizam o termo no código criminal como uma forma de agravante penal de homicídios.


Análise da notícia

Basta!

; Adriana Bernardes

O feminicídio é um ato covarde que se perpetua graças a omissão anacrônica da sociedade com as violências diárias praticada por maridos, namorados e companheiros contras as mulheres. São agressões físicas, psicológicas e econômicas. Aquelas que não podem contar com a uma rede de proteção formada por familiares, amigos e vizinhos, quase sempre estão condenadas à morte independentemente da classe social. Mas, quanto mais pobre, mais vulnerável a vítima está.

Quando a mulher quebra o ciclo de violências e denuncia o agressor, ainda assim, continua prisioneira do medo e das incertezas sobre o futuro. O criminoso quase nunca fica preso. E as medidas protetivas decretadas pela Justiça são rotineiramente burladas. Elas, mais uma vez, ficam à mercê da sorte. Há casos, em que o Estado as retiram de casa e as levam para abrigos, onde passam a viver no anonimato, uma ;subvida;. O agressor? Este continua levando a vida normalmente.

O feminicídio, crime inafiançável com pena de 12 a 30 anos de cadeia, não parece intimidar quem os pratica. Até porque é raro condenados cumprirem integralmente a pena. Cabe à sociedade, a cada um de nós, quebrar essa cultura de dominação masculina e parar de responsabilizar a mulher pela violência sofrida. Discuta, reflita, ensine, aprenda a re

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação