A busca do ideal

A busca do ideal

Se os eleitores deixarem de acreditar em promessas irrealizáveis, será possível, com o tempo, reconciliar a política com a sociedade

Roberto Brant
postado em 20/08/2018 00:00
As eleições estão finalmente se aproximando e, salvo por uma interrogação, já sabemos com certeza quais serão os candidatos à Presidência da República. Nos países normais há em geral dois ou, no máximo, três ou quatro candidatos, cada um deles expressando tendências políticas existentes no corpo social. Os brasileiros, com sua mania por excessos, terão 13 candidatos para escolher. O fato de a maioria deles não refletir qualquer corrente nítida de opinião é sinal claro de que nosso sistema político está enfermo, perdeu a conexão com a vida real e tornou-se um veículo para aventuras pessoais.

Apesar de tantas opções, as pesquisas de opinião indicam que metade dos eleitores ainda não escolheu nenhum dos 13. Será que seriam necessários mais 13, para satisfazer a todos os gostos? Ou o que está acontecendo é que as pessoas estão construindo modelos tão ideais de governante que nenhum personagem de carne e osso seja capaz de satisfazê-las?

Se for este o caso, temos razão para nos preocupar. Na minha formação, um texto do filósofo político inglês, nascido na Letônia, Isaiah Berlin, intitulado exatamente A busca do ideal, teve um papel definitivo. Nele, o grande pensador liberal nos fala de seu próprio percurso intelectual e de como acabou se convencendo de que a busca de um ideal imaginário foi sempre a causa das grandes tragédias, de que está repleta a história dos homens.

As utopias dão certamente um certo colorido aos nossos sonhos, mas, sempre que nos entregamos inteiramente a elas, o resultado foi a perda da liberdade e da vida para milhões de seres humanos, em troca de muito pouca coisa. A grande sabedoria dos homens e dos povos, a única que conduz ao progresso humano, consiste em reconhecer os limites da realidade e cuidar com o mesmo cuidado dos meios como dos fins. Quando desejamos ou nos propomos fins para os quais nossos meios são inadequados, ou sequer existem, perdemos em vão nossas melhores energias e terminamos sempre com o gosto amargo do desencanto e do ressentimento.

A maioria dos conflitos políticos desenvolve-se em torno de objetivos inalcançáveis e de promessas impossíveis, cujo único e desditoso efeito é separar os homens e as sociedades por nada. Muito do atual desencanto com a democracia moderna tem sua origem na falta de realidade e de limites nos discursos políticos.

As velhas promessas do chamado Estado do Bem-Estar tornaram-se irrealizáveis, não apenas no Brasil, mas também na maioria dos países do mundo. A capacidade de aumentar impostos e de endividar-se está esgotada por toda a parte e estamos próximos do dia do acerto de contas. Se qualquer um de nossos candidatos se esquivar de encarar a questão da impotência do Estado diante da imensidão dos nossos problemas, estará mentindo para a população e isso é um pecado irremissível. O Estado pode fazer melhor, mas não pode fazer mais, como todos lhe pedem.

Não tenho a pretensão de ter conhecimento especial sobre a alma das pessoas, mas espero que, em algum momento, a verdade possa tornar-se finalmente uma virtude apreciada em nossa vida pública. Se os eleitores deixarem de acreditar em promessas irrealizáveis, será possível, com o tempo, reconciliar a política com a sociedade. Reduziremos assim as decepções e fortaleceremos os laços de confiança, sem os quais as sociedades não podem prosperar.

Numa paisagem política pobre e esquisita como a nossa de hoje, o mais importante é reconhecer, não o candidato ideal, a figura fictícia formada em nossos melhores sonhos, mas quem seja capaz de fazer mais do que dizer belas e grandes palavras, alguém que leva mais a sério a realidade e que seja capaz de lidar com os problemas reais do dia a dia de um governo. Em suma, alguém que seja não um bom candidato, mas um bom governante.

Os problemas e dificuldades do país são imensos. Mas imensos são também nossos recursos e nossas riquezas. Se olharmos para a frente, para além da conjuntura e do imediato, veremos que nos faltam principalmente duas coisas : um acordo com a realidade e certa distância das ilusões!




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