"O Brasil é um país atraente"

"O Brasil é um país atraente"

Multinacional alemã quer comprar operação local para voltar a vender itens de limpeza

Paula Pacheco
postado em 20/08/2018 00:00
 (foto: Henkel/Divulgação)
(foto: Henkel/Divulgação)
São Paulo ; O português Manuel Macedo chegou ao Brasil em 2012 depois de quase 10 anos no México. Apesar de todas as mudanças econômicas do país nesse período, o presidente da Henkel para o Brasil e América Latina é um otimista. O executivo acredita que a situação vai melhorar e que a Henkel, multinacional alemã conhecida por aqui por produtos como as colas Pritt e Super Bonder, finalmente vai poder aproveitar todo o potencial do mercado local.

Uma das estratégias para expandir a atuação da Henkel no Brasil será por meio de aquisições, assim como tem ocorrido em outros grandes mercados. Houve algumas conversas, confirma Macedo, mas elas não avançaram. Para entrar no radar da multinacional, a empresa precisa ter atuação nacional, além de afinidades operacionais.

Globalmente, a Henkel atua em três segmentos principais, mas no Brasil suas atividades se concentram exclusivamente nas áreas de adesivos (em indústria como a de automóveis, embalagens para alimentos, bens de consumo, metal e eletrônicos, além de produtos como o Loctite e Cascola) e de produtos para beleza (entre as marcas no portfólio estão a Schwarzkopf Professional e a Bonacure.

Fica de fora dos negócios da Henkel o setor de limpeza, que já teve uma operação por aqui no passado. Para trazer a divisão de negócios de volta ao país, só mesmo por meio de uma aquisição. Isso porque, segundo Macedo, esse é um mercado muito consolidado e andar com as próprias pernas, começando do zero, não seria viável. A seguir, trechos da entrevista com Manuel Macedo.







Como a Henkel vem enfrentando a baixa taxa de crescimento no Brasil?
Atendemos todo tipo de consumidor, do industrial ao mercado profissional. Globalmente, a divisão de adesivos responde por 47% da operação, a divisão Laundry responde por 34% e a de beleza, 19%, segundo o balanço de 2017. Sabemos que nem tudo corre bem, nem tudo corre mal ao mesmo tempo, e isso tem ajudado. Essa diversificação nos deu resiliência para o período mais difícil. Foi assim, por exemplo, com o setor de automóveis, que caiu muito e agora é um dos que mais crescem para a Henkel. Da mesma forma, vemos que as empresas exportadoras têm aumentado a demanda por nossos produtos, porque o dólar está mais forte.

Quando a recuperação da economia deve ocorrer de fato?
Tecnicamente, a crise já passou, mas ao contrário do que vimos em outros períodos, o crescimento acelerado que viria depois da crise, ainda não aconteceu. O Brasil vinha crescendo de 7% a 8% e, desta vez, não foi o que vimos, já que devemos ficar na casa do 1%. É um ano difícil, com eleição e uma certa instabilidade que vem a reboque. Mas existe uma perspectiva de crescimento da economia real. No consumo, ainda não vemos uma recuperação tão forte como em alguns segmentos da indústria. O melhor desempenho ainda está por vir.

Como essa instabilidade se refletiu na vida dos consumidores?
Houve uma alteração de consumo com a busca por produtos de menor preço, como a Nielsen mostra nas mais variadas categorias. Agora esperamos uma retomada. Por ora, o consumidor vem adotando um comportamento defensivo, porque ninguém sabe o que virá por aí. Por parte da Henkel sempre houve crescimento na operação brasileira. Em momentos como o que temos visto nos últimos anos, também se torna mais importante do que nunca oferecer alternativas mais eficientes, que aumentem os ganhos de escala para os clientes na área industrial. Por isso, da nossa parte, temos investido em mudanças em nossas plantas e melhorando a linha de produção, com soluções mais automatizadas, melhor uso de materiais e maior controle de resíduos.

O que houve de errado na economia brasileira? É basicamente um problema econômico ou há um componente político também?
O Brasil mantém seu potencial, com um mercado de 200 milhões de pessoas, a infraestrutura toda por fazer, o que dá uma capacidade de potencial enorme. Além disso, tem fundamentos democráticos sólidos, como vimos durante a Operação Lava-Jato, e não sofre com problemas religiosos como vemos em outros países. Portanto, como uma das 10 maiores economias do mundo, considero o Brasil um oásis para mim. O que vemos agora, com muitos políticos, de diferentes perfis, disputando as eleições, não deve ser encarado como problema, porque isso também faz parte do amadurecimento democrático e mostra o interesse da sociedade civil no futuro do país.

Não saber qual será a direção que o país tomará depois das eleições não é um problema para uma empresa como a Henkel?
O problema acontece quando vemos estradas fechadas, como na greve dos caminhoneiros, que causou um prejuízo ainda incalculável para a economia. Mas a diversidade de opiniões, como temos visto na campanha eleitoral, não nos causa problema.

Como vocês se comportaram durante a paralisação dos caminhoneiros?
Nosso comitê de crise se reuniu diariamente para tomar decisões sobre a operação de nossas fábricas e colocamos em prática o home-office por três ou quatro dias, o que ajudou a minimizar os problemas causados na mobilidade. Mas foi preciso avaliar tudo, desde o fornecimento das refeições nas fábricas ao recebimento e entrega de pedidos dos nossos fornecedores e clientes. Conseguimos trabalhar, mas também nos vimos privados de alguns insumos.

Foi uma situação assustadora ou você já tinha vivido algo semelhante fora do Brasil?
Essa foi uma situação extrema, porque denota a dependência que o Brasil tem do transporte terrestre e a ausência de uma malha ferroviária ou outros modelos alternativos de transporte. Mas vivi um momento pior em 2008, quando estava no México e surgiu o alarme sobre a gripe aviária. A situação foi mais dramática. A Organização Mundial de Saúde calculava que seriam milhões de mortos por causa da doença. A sensação era de que todos morreríamos de gripe aviária. Felizmente, acabou não sendo nada.

Como funciona o home-office, política que faz parte da Henkel no Brasil. Já é efeito da reforma trabalhista?
A nova legislação organizou melhor alguns tipos de trabalho externo, mas nós já tínhamos o home-office antes. Temos no nosso escritório central (no Bairro da Lapa, em São Paulo) cerca de 300 funcionários que podem acordar com suas chefias o trabalho em casa. Não optamos até o momento pela rotatividade de postos de trabalho por conta disso, apesar da ociosidade permanente. Hoje, a ocupação de lugares no escritório é, em média, de 60%. Por isso, talvez o próximo passo seja promover esses postos de trabalho a rotativos. As pessoas chegam e se conectam onde houver mesa livre.

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