Novidades paralelas

Novidades paralelas

ANDRÉ GUSTAVO STUMPF Jornalista
postado em 20/08/2018 00:00

A campanha eleitoral começou. Cheia de dúvidas, malandragens, chicanas jurídicas, tem o mérito de escamotear algumas novidades paralelas. A principal delas, na semana, foi a visita do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Jim Mattis, que iniciou, pelo Brasil, sua primeira viagem à América do Sul. Em seguida, visitou Argentina, Chile e Colômbia, com objetivo de fortalecer as relações militares entre a região e Washington. Na realidade, os norte-americanos se assustaram com a crescente influência da China no continente. E partiram para o contra-ataque.

O Brasil não figurou de maneira ostensiva na política externa norte-americana em tempos recentes. Nos dois mandatos do então presidente Lula, o chanceler Celso Amorim esteve mais preocupado com as relações, chamadas de sul-sul, com países da África, com China e Rússia. No continente, privilegiou os bolivarianos. Os chineses trabalham desde o governo Geisel. Eles ultrapassaram os norte-americanos no capítulo das relações bilaterais. São os principais negociantes com os brasileiros, tanto em termos de exportação quanto de importação.

O secretário Jim Mattis conversou com os ministros Joaquim Silva e Luna, da Defesa, e Aloysio Nunes Ferreira, das Relações Exteriores, em Brasília. Na pauta do encontro estiveram alternativas para avançar na cooperação nas áreas técnica, científica, político-militar e indústria de defesa. O secretário de Defesa americano tratou de três temas que são discutidos há dois anos entre os dois países: o aproveitamento do centro de lançamento de satélites de Alcântara, a cooperação na área de defesa cibernética e a ajuda humanitária à Venezuela.

Em relação à Venezuela não há muito que fazer. Desde o governo Bush Junior, os militares norte-americanos sonham com uma ação forte capaz de derrubar Maduro. O Brasil não deve embarcar numa aventura capaz de desestabilizar o continente inteiro. Maduro vai continuar fingindo que comanda uma democracia, cercado por seguranças cubanos e militares venezuelanos de alta patente. Alguns deles acusados de envolvimento pesado com tráfico de drogas. O governo de Caracas é uma lucrativa ação entre amigos. Cedo ou tarde, vai cair como ocorreu com todos os tiranetes latino-americanos.

O que trouxe Jim Mattis ao Brasil foi a percepção de que os chineses desembarcaram com apetite no país e investiram fortemente em setores importantes da infraestrutura nacional. Na Argentina, construíram uma base de monitoramento de satélites no sul do país. Washington não gostou da novidade. E abriu aqui a perspectiva de utilizar a base de Alcântara no Maranhão para fazer lançamentos comerciais de foguetes.

Isso é novidade. A base de Alcântara no Maranhão passou por várias fases. Na primeira delas, técnicos brasileiros tentaram desenvolver seus próprios métodos e equipamentos. Quando o primeiro foguete nacional estava pronto para subir, as instalações, súbita e misteriosamente, explodiram. Muita gente morreu. Tempos depois foi assinado um acordo com a Ucrânia, para produzir e fazer lançamentos daquela área. O negócio não foi em frente, entre outras razões, por consequência da oposição do governo russo. Tecnologia espacial não é para principiantes, nem amadores. Jogo duro. Ninguém transfere tecnologia nem gosta de ver o adversário com vantagem estratégica.

A novidade é que agora o governo de Washington decidiu privatizar as atividades nesse setor. Lançamentos comerciais poderão ser realizados do Maranhão, onde, por causa da localização próxima a linha do Equador, têm custo menor, e não envolvem tecnologia sensível. Ou seja, é possível colocar os brasileiros na roda, evitar estrangeiros bisbilhoteiros, e ainda ganhar algum dinheiro com o negócio. É bom avançar o assunto antes da eleição, assim talvez, o próximo presidente já encontre o assunto deliberado, discutido e até resolvido.

Eleições ; O tempo é o juiz da razão. O Tribunal Superior Eleitoral dispõe de 15 dias para resolver o dilema petista. Lula vai ou não vai participar da eleição? A legislação diz que ele está inelegível. Até o final do mês, a situação estará decidida. Mas no Brasil até o passado é incerto. Algum dia, neste ano ou no próximo, Lula poderá ser libertado e se constituir num fantasma para o governo oficialmente estabelecido. Este é caminho da crise. O confronto se aproxima e os ânimos estão cada vez mais exaltados. Em Minas Gerais, estado de pessoas que gostam de conversar, Bolsonaro está em primeiro lugar. Agradece ao PT.

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