Trégua com os talibãs

Trégua com os talibãs

Presidente Ashraf Ghani propõe cessar-fogo de três meses em meio a uma escalada de violência que, segundo a ONU, matou ao menos 110 civis. Insurgentes seguem ganhando território

postado em 20/08/2018 00:00
 (foto: Noorullah Shirzada/AFP
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(foto: Noorullah Shirzada/AFP )

Diante da recente escalada de violência no Afeganistão, o presidente Ashraf Ghani declarou uma trégua de três meses com os talibãs, impondo a contrapartida do grupo insurgente. ;Anuncio um novo cessar-fogo a partir de amanhã (hoje) até o aniversário do profeta (em 21 de novembro), sob a condição de que os talibãs façam o mesmo;, afirmou o chefe de Estado, em um pronunciamento transmitido pela televisão.

Segundo o ministro da Defesa, Tariq Shah Bahrami, nos últimos 10 dias, pelo menos 100 soldados e até 30 civis morreram durante ofensiva do Exército afegão ; apoiado por dezenas de bombardeios aéreos americanos ; para expulsar os talibãs de Ghazni, cidade atacada pelos extremistas e considerada estratégica por estar a apenas duas horas da capital, Cabul. Representante especial da Organização das Nações Unidas (ONU) no Afeganistão, Tadamichi Yamamoto citou estimativas indicando a morte de 110 a 150 civis em Ghazni.

Além da cidade-chave, os talibãs conquistaram uma base do Exército afegão no noroeste do país e, na semana passada, um atentado do grupo extremista Estado Islâmico contra uma escola em Cabul provocou a morte de pelo menos 37 pessoas, sendo a maioria adolescentes. ;Não há dúvida de que há desespero do lado do governo em conseguir um acordo de paz com os talibãs. É a única maneira de sair desse conflito violento e é um pedido legítimo dos afegãos;, diz o analista Haroon Mir, que não acredita em uma contrapartida. ;Duvido que os talibãs (parem de lutar), levando em conta suas posições passadas e suas vitórias;, justifica.

Os talibãs não haviam respondido o chamado do presidente até o fechamento desta edição, mas, em muitas ocasiões, se recursaram a negociar com as autoridades afegãs, consideradas por eles ;marionetes; nas mãos dos Estados Unidos. No último fim de semana, um dos líderes rebeldes refez o pedido de conversar com o governo americano. Funcionários da Casa Branca se reuniram, no mês passado, com representantes dos insurgentes no Catar, mas nada foi divulgado do encontro.

Apoio

O anúncio do cessar-fogo foi imediatamente celebrado pelo Paquistão, país vizinho acusado pelas autoridades afegãs de apoiar os insurgentes, dando especialmente abrigo na fronteira. ;O Paquistão apoia totalmente todos os esforços desse tipo que contribuam para facilitar a estabilidade e a paz duradoura no Afeganistão;, indicou o Ministério das Relações Exteriores, em um comunicado que convoca ;todas as partes (...) a respeitar um cessar-fogo;.

A nova onda de violência e de derramamento de sangue ocorre um ano depois de o presidente americano, Donald Trump, revelar a nova estratégia para o Afeganistão. Divergindo da ideia de seu antecessor, Barack Obama, de que os Estados Unidos poderiam sair do país sem deixar um vazio de segurança, Trump decidiu mobilizar milhares de soldados adicionais e cancelar a promessa de uma retirada programada.

Para analistas, cada ofensiva bem-sucedida dos extremistas representa um duro golpe não apenas para o governo do Afeganistão, como também para o Pentágono, que insiste em dizer que a situação está melhorando. Pelo Twitter, o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg, saudou a decisão do presidente afegão. ;Estimulo os talibãs a mostrar que se preocupam com o destino dos afegãos, respeitando o cessar-fogo;, afirmou.

No Ramadã
Uma primeira trégua de três dias foi aplicada em meados de junho para o fim do Ramadã (o mês de jejum sagrado muçulmano), algo nunca visto desde que a coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos tirou os talibãs do poder em outubro de 2001, após os atentados do 11 de setembro. Uma nova pausa nos ataques era esperada em função do feriado de Aid el Kebir, uma das principais datas festivas para os muçulmanos.

EUA: no Iraque até o ;necessário;
As 5.200 tropas dos Estados Unidos no Iraque ficarão no país pelo tempo ;necessário; para ajudar a estabilizar regiões antes controladas pelo Estado Islâmico, disse, ontem, o coronel Sean Ryan, porta-voz da coalizão liderada pelos EUA para o combate a militantes. ;A principal razão, após o ISIS (Estados Islâmico) ser derrotado militarmente, são os esforços de estabilização, e nós precisamos estar lá para isso. Assim, são razões pela qual manteremos presença;, justificou o oficial, em uma coletiva em Abu Dhabi.


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