Do outro lado da linha

Do outro lado da linha

Mariana Niederauer
postado em 20/08/2018 00:00
Receber uma ligação costumava ser motivo de alegria. Antes mesmo de existirem os modelos de telefone sem-fio, com os quais se caminha de um lado a outro da casa jogando conversa fora, a espera pelo chamado do parente que mora em outra cidade ou país jogava a ansiedade lá em cima.

A expectativa não diminuía necessariamente se o caminho era inverso. Houve uma época em que as chamadas eram mais caras quando feitas em horário de pico. Os valores variavam do extremamente barato na madrugada até o ;tarja vermelha; do fim da tarde.

No escritório, meu avô deixava sob o vidro da escrivaninha uma tabela de valores que lembrava aquela indicativa do quanto de energia consome um eletrodoméstico. Ao lado da máquina de fax, aguardávamos o momento ideal para receber ou fazer a tão sonhada ligação.

Chamadas pela web só depois de aguardar a discagem do provedor pelo telefone. Ouvia-se o barulho inconfundível da linha buscando a conexão pelo fio ligado ao computador, ainda com tela em tubo.

Hoje, é tudo mais simples (não exatamente fácil, como vovô pode comprovar). O wi-fi com uma velocidade razoável permite encurtar a saudade de quem mora do outro lado do mundo em uma chamada de vídeo. Longa ou breve, com interrupções e falhas no serviço, não importa, a sensação é semelhante.

A invenção de Graham Bell, no entanto, ganhou contornos aterrorizantes diante de outras não tão bem intencionadas da vida contemporânea. Quando o telefone toca com DDD ou número sem identificação, o nervosismo já começa. O sangue ferve diante da possibilidade de ser incomodado, mais uma vez, por voz desconhecida. E são tantas...

Empresas das mais variadas oferecem os mais diversos serviços. Não importa se você acabou de contratar um pacote de tevê por assinatura, eles têm outro para oferecer. Móveis, filtros, cobrança de dívida de terceiros, até propaganda eleitoral tem espaço. Em vez de um bem material ou de uma perturbação indevida, oferecem um candidato em quem votar nas próximas eleições.

Do outro lado linha, trabalhadores que também não aguentam mais ser destratados pelos potenciais consumidores. Algumas organizações já até arranjaram solução: mensagens eletrônicas gravadas. Mas até os robôs se cansaram de nós. Agora, ameaçam ao menor sinal de que o telefone voltará ao gancho: ;Se você desligar, as ligações não vão parar;.

Não há como fugir. É como o aviso nos elevadores monitorados por sistema de segurança. ;Sorria, você está sendo filmado.; Mas, dessa vez, se esqueceram até do senso de humor. Tempos difíceis.

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