Ameaça como defesa

Ameaça como defesa

Presidente avisa que, em caso de impeachment, a economia "entrará em colapso" e critica o secretáriode Justiça. Jeff Sessions rebate e promete não ceder à pressão política. Republicanos temem novos escândalos ligados à Casa Branca

Rodrigo Craveiro
postado em 24/08/2018 00:00
 (foto: Mandel Ngan/AFP)
(foto: Mandel Ngan/AFP)

Cada vez mais enredado na investigação do procurador especial, Robert S. Mueller, sobre a suposta interferência da Rússia nas eleições de 2016 (veja a arte), Donald Trump tentou usar a economia como escudo e centrou fogo no secretário de Justiça, Jeff Sessions. Em entrevista à Fox News, o presidente dos Estados Unidos fez uma advertência catastrófica.;Se algum dia eu for afastado, acho que o mercado entraria em colapso. Eu acho que todo mundo ficaria muito pobre;, afirmou. ;Você veria números nos quais você não acreditaria. Você sabe... Eu acho que isso diz algo, como altos crimes e tudo... Eu não sei como você pode afastar alguém que tem feito um grande trabalho.; Consultado pelo Correio, Eric Maskin, professor da Universidade de Harvard e laureado com o Prêmio Nobel de Economia em 2007, rebateu Trump e disse que a economia tem se mantido imune aos escândalos políticos nos EUA (leia o Duas perguntas para). No último trimestre, o crescimento dos Estados Unidos saltou de 2% para 4%. No entanto, Maskin sustenta que a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) provavelmente surtirá efeitos negativos.

Apesar de o tema impeachment ainda não estar na agenda do Congresso, o Partido Republicano recomendou aos legisladores que defenderão o próprio mandato, durante as eleições de 6 de novembro, para que abordem as transgressões envolvendo Trump. ;Onde há fumaça, e há muita fumaça, também pode bem haver fogo;, alertou o deputado Tom Cole, ex-chefe de campanha do Partido Republicano, ao jornal The New York Times. No meio parlamentar, existe o temor de que novos escândalos ligados ao nome do presidente agravem a sua situação. ;Qualquer um que disser que isso não é perturbador não estará sendo honesto;, afirmou Cole, ao aconselhar os candidatos pelo partido governista a ;não se apressar em atacar ou defender ninguém;. ;Você simplesmente não sabe o suficiente para ter uma reação que poderá ainda defender daqui a três meses;, acrescentou.

Em meio à pressão intensificada pela admissão de culpa do ex-advogado Michael Cohen e pela condenação de Paul Manafort, ex-chefe de campanha, Trump afirmou que nomeou ;um procurador-geral que nunca assumiu o controle do Departamento de Justiça;. ;Jeff Sessions nunca tomou o controle do Departamento de Justiça e isso é uma coisa incrível;, reiterou o líder republicano. ;Continuarei sem me envolver, e talvez esta seja a melhor coisa.; Sessions reagiu, em rara manifestação pública, e avisou à Casa Branca que não cederá à pressão política. ;Enquanto eu for procurador-geral, as ações do Departamento de Justiça não serão indevidamente influenciadas por considerações políticas. Exijo os mais altos padrões, e, quando eles não são cumpridos, eu ajo.;

Sucessão
Mitchell Epner, advogado da firma Rottenberg Lipman Rich P.C. (em Nova York) e ex-procurador federal assistente, explicou ao Correio que o secretário de Justiça atua segundo diretrizes do presidente. ;Trump poderia demitir Sessions a qualquer momento. Se ele o fizesse, Rod Rosenstein (o subprocurador-geral) o substituiria. Se Rosenstein fosse afastado por Trump, Jesse Panuccio assumiria. Se o presidente continuasse a demitir gente, há uma linha de sucessão que inclui vários procuradores de alguns distritos;, observou. De acordo com ele, o único modo com que o republicano teria um nome de confiança para servir como secretário de Justiça seria conseguir que tal pessoa fosse confirmada pelo Senado. ;Eu estou confiante de que seria muito difícil que o processo avançasse e talvez jamais fosse concluído.;

Na entrevista à Fox News, Trump assegurou que os pagamentos feitos por Cohen à ex-atriz pornô Stormy Daniels e à ex-coelhinha da Playboy Karen McDougal ; para silenciá-las sobre um caso extraconjugal ; foram com dinheiro do próprio bolso e não com fundos de campanha. No entanto, mostrou-se evasivo ao ser indagado pela repórter se ordenou a Cohen que repassasse os US$ 280 mil às duas mulheres. Ele admitiu que o ex-advogado ;fez os tratos; e que suas ações ;não eram um delito;. ;As violações de campanha não são consideradas um grande problema, francamente;, desabafou. A expectativa, agora, é saber se Trump concederá o perdão presidencial a Cohen. Para especialistas, a medida representaria obstrução da Justiça. Ontem, o governo federal beneficiou com o indulto o empresário David Pecker, proprietário do tabloide National Enquirer (leia nesta página). Ao citar Cohen, o republicano foi enigmático e disse que ele ;deveria ser proscrito;. No caso de Manafort, condenado por oito das 18 acusações às quais respondia, Trump pareceu sugerir o perdão. ;Tenho um grande respeito pelo que (Manafort) fez, em termos do que passou. Uma das razões pelas quais respeito tanto Paul Manafort é ele ter passado por esse julgamento.;


Mal-estar com a África do Sul

Como se não bastasse a crise interna agravada anteontem, um tuíte de Trump provocou mal-estar com o governo da África do Sul e foi visto como racista. ;Eu pedi ao secretário de Estado, Mike Pompeo, para acompanhar de perto as apreensões de terra e de fazendas da África do Sul, as expropriações e os assassinatos em larga escala de fazendeiros;, escreveu. ;O governo da África do Sul está agora apreendendo terras de fazendeiros brancos;, acrescentou. Na primeira vez em que se pronunciou usando a palavra ;África;, Trump o fez em defesa dos brancos sul-africanos. Por meio do Twitter, o governo da África do Sul divulgou que ;rejeita essa percepção limitada, que busca apenas dividir a nossa nação e nos lembrar de nosso passado colonial;.



;Se algum dia eu for afastado, acho que o mercado entraria em colapso. Eu acho
que todo mundo ficaria muito pobre;


;Eu nomeei um procurador geral que nunca assumiu o controle do Departamento de Justiça. Jeff
Sessions nunca tomou o controle do Departamento de Justiça e isso é uma coisa incrível.;

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos

;Enquanto eu for procurador-geral, as ações do Departamento de Justiça não serão indevidamente influenciadas por considerações políticas;


Jeff Sessions, secretário de Justiça dos Estados Unidos


Duas perguntas para


Eric Maskin, professor da Universidade de Harvard e Prêmio Nobel de Economia em 2007

Como o senhor vê a declaração de Trump de que um impeachment faria a economia norte-americana entrar em colapso?
A economia norte-americana tem sido historicamente imune aos efeitos dos choques políticos, sejam

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