Platão e o compliance

Platão e o compliance

AURÉLIO MADURO » Mestre pela Universidade George Washington, professor no MBA em compliance e governança da CPGIS/Face/UnB GUILHERME AUGUSTO » Pós-graduando em compliance e governança pelo CPGIS/Face/UnB
postado em 24/08/2018 00:00
Uma das histórias mais clássicas e conhecidas da filosofia, o Mito da Caverna de Platão discorre sobre o confronto entre realidades. Pode-se facilmente entender que toda a reflexão da alegoria se resume ao embate sobre quem tem razão, considerando as pessoas que vivem na caverna e aquelas fora dela. A realidade atual do compliance assemelha-se a essa clássica alegoria. A ;revolução; ética em que vivemos, devido aos constantes escândalos de corrupção, resultou na criação de um paradigma de integridade, no qual diversos setores exercem pressão para que as empresas se adequem ao combate à corrupção e incentivem as boas práticas corporativas. O programa de integridade começa a ser visto pela sociedade em geral como um dever cívico. Entretanto, existe uma resistência para entender como encaixar o compliance em sua realidade.

Porém, como visto no texto de Platão, a realidade, muitas vezes, é fruto de uma capacidade analítica de perspectiva. O compliance é uma ferramenta que ajuda na concretização de uma governança efetiva. Enquanto instrumento que traz mais segurança e solidez, o objetivo da governança é gerar maior valor às organizações e direcionar suas ações com base em princípios éticos, paralelamente à gestão e ao serviço público. Em última instância, a governança se torna a base de todos os movimentos catalisadores do desenvolvimento de uma sociedade e fomenta uma cultura de prevenção.

A partir disso, é possível aferir que o programa de integridade não é uma realidade tão diferente da existente. Assim como na alegoria, o personagem que se liberta tenta provar isso àqueles ainda na caverna. Retorna para tentar convencê-los, mas acaba morrendo pela ação de seus pares. Embora alguns queiram sair do escuro, outros preferem afrontar quem tenta tirá-los. O mesmo ocorre, de certa forma, no compliance. Alguns enxergam as demandas da sociedade civil em geral e do governo, no que diz respeito à criação de programas de integridade, como tentativas de desenvolvimento de uma cultura de integridade e de boa governança. Outros discordam totalmente dessas práticas e preferem se prender aos seus antigos hábitos. Alguns querem sair da caverna, outros querem afrontar aqueles que tentam tirá-los.

Todavia, em face do paradigma de combate à corrupção, negligenciar instrumentos que possam ter resultados efetivos nesse embate pode ser uma armadilha. A pergunta não pode ser: ;Vamos ou não sair da caverna?;. Passa a ser: ;O que podemos fazer para sair mais rápido dela?;. A corrupção no país desestrutura todo o sistema político, colocando em xeque, inclusive, a democracia representativa. Hoje, temos uma cultura influenciando também os eleitores. Eles estão contaminados por atos de corrupção que consideram totalmente comuns e, em efeito dominó, elegem seus representantes, os quais apenas são reflexo do povo que os escolheu.

Além disso, na prática, a corrupção não se resume apenas aos representantes e, sim, a todos que desempenham funções públicas. Assim, a ação virtuosa da República de servir ao público passa a ser uma ação egoísta de servir a interesses específicos. Devemos ter consciência, de todo modo, que a ferramenta de governança compliance não será a bala de prata que colocará fim na endemia da corrupção vigente. Porém, ela será capaz de criar hábitos e bons costumes, além de mecanismos de monitoramento e controle, possibilitando ações mais assertivas e o desenvolvimento de uma cultura de prevenção robusta.

Por fim, a boa governança deve ser capaz de agregar interesses dos mais diversos atores sociais e articulá-los, pensando tanto em questões econômicas quanto no bem-estar da maioria da sociedade. O público e o privado precisam buscar, entre outras coisas, o aprimoramento do Estado de direito, a transparência, a responsabilidade, a orientação por consenso, a igualdade, a inclusividade, a efetividade, a eficiência, a prestação de contas e, claro, a integridade. O compliance pode ser o início do caminho para fora da caverna em busca da luz e seus benefícios.

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