Polícia nas casas de Cristina

Polícia nas casas de Cristina

Com autorização do Senado e mandado da Justiça, policiais vão a duas residências da ex-presidente e senadora em busca de indícios sobre o escândalo de pagamento de propinas em troca de contratos públicos

postado em 24/08/2018 00:00
 (foto: Juan Mabromata/AFP)
(foto: Juan Mabromata/AFP)

Policiais federais argentinos passaram a manhã e a tarde de ontem em duas residências da ex-presidente Cristina Kirchner, cumprindo mandados de busca e apreensão emitidos pelo juiz Claudio Bonadio, com autorização do Senado. Atualmente senadora, ela é acusada de chefiar uma organização criminosa investigada no escândalo das ;cadernetas da propina;, que envolve pagamentos de grandes empresários em troca de favorecimento em contratos públicos. O esquema, que se estendeu por ao menos 10 anos e movimentou um total de US$ 160 milhões, levou à prisão vários empresários e ex-funcionários dos governos de Cristina (2007-2015) e do falecido marido, Néstor Kirchner (2003-2007).
As buscas foram autorizadas nas residências de Buenos Aires, Río Gallegos e Calafate. O primeiro endereço visitado pelos policiais foi um prédio situado no elegante bairro da Recoleta, na capital. Bonadio, que ordenou a operação, esteve presente para acompanhar o trabalho dos agentes. O edifício foi cercado por policiais, que montaram um cordão de isolamento. Duas horas depois, foram realizadas buscas na casa da ex-mandatária em Río Gallegos, na Patagônia. Não havia informação sobre a ida de policiais à residência em Calafate.

A autorização do Senado para as buscas foi dada na noite anterior, pelo voto unânime dos 67 senadores presentes na sessão, inclusive a própria Cristina Kirchner. Não houve abstenções. Em carta às diferentes bancadas, divulgada horas antes da votação, ela se declarou disposta a permitir a revista às suas residências, embora tenha pedido que proibissem a presença de câmeras durante o procedimento. Também solicitou que estivessem presentes seus advogados e um senador. Esses pedidos, especialmente o de impedir a divulgação de imagens, foram acolhidos por vários congressistas, com o argumento de resguardo da intimidade.

No entanto, Carlos Beraldi, advogado da ex-presidente, acusou os agentes de filmarem as buscas e desqualificou a operação. ;Estamos diante de uma farsa. Vamos propor a nulidade de todo o procedimento e vamos solicitar o julgamento político do juiz;, ameaçou. ;Bonadio não cumpre o que o Senado disse: eles começaram a filmar e se comportam ilegalmente;, denunciou.

A ex-mandatária, da corrente de centro-esquerda do Partido Justicialista (peronista), é a política de mais alto escalão envolvida no escândalo das propinas, comparado pela imprensa argentina à Operação Lava-Jato, no Brasil. A investigação começou há um mês, com base em anotações do ex-motorista do Ministério de Planejamento Oscar Centeno, que está preso sob a acusação de ter feito percursos por Buenos Aires durante 10 anos para transportar sacolas carregadas de dólares. O apartamento de Kirchner em Buenos Aires, assim como a residência presidencial de Olivos e a Casa Rosada, sede do governo, aparecem nos registros de Centeno como pontos de entrega de propina.

As anotações do motorista se somaram às confissões de vários empresários detidos que decidiram ir à Justiça na condição de arrependidos. Recentemente, tomaram a mesma atitude ex-funcionários dos governos de Néstor e Cristina Kirchner. O juiz Bonadio busca pistas sobre onde poderia ter ficado o dinheiro, aparentemente sempre recebido em espécie.

Além desse caso, Cristina Kirchner enfrenta mais cinco processos ; três por enriquecimento ilícito, um por manipulação do câmbio e outro por acobertamento de agentes iranianos acusados de envolvimento no atentado de 1994 a uma associação judaica de Buenos Aires, com saldo de 85 mortos e 300 feridos.

A ex-presidente, eleita senadora em 2017, não pode ser detida por ter foro privilegiado, embora possa ser acusada e condenada. O Senado já recusou um pedido de Bonadio para que seja suspensa a imunidade de Cristina, mas o magistrado articula uma nova tentativa.

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