Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 24/08/2018 00:00
O voo do carcará

Enquanto o mundo explode, aproveitei o fim de semana para dar uma volta pelas ruas do condomínio horizontal em que moro. Ele é fronteiriço a uma mata e, por isso, reserva, quase sempre, surpresas no convívio com os animais silvestres.

Já relatei, neste mesmo alto de página, o êxtase com a coreografia, a concatenação, a sincronia, a elegância e o ritmo das evoluções das andorinhas no céu em um dia que se armava uma chuva. Elas botavam no chinelo a Esquadrilha da Fumaça, com voos rasantes, acrobacias e deslocamentos rápidos no espaço.

Riscavam o azul, se reduziam a pontos negros minúsculos e, em seguida, retornavam com a mesma euforia. O condomínio é íngreme, quase tropecei e levei um tombo ao me concentrar na apreciação das nuvens de andorinhas, pois não queria perder nenhum lance. Felizmente, me reequilibrei e saí da experiência sem nenhuma avaria.

Durante o fim de semana, dei uma volta pelas cercanias para desenferrujar os ossos, tomar um pouco de sol e espairecer. Estava entretido na marcha quando, de repente, ouvi um grasnido metálico, um grito de bicho em guerra. Olhei para os lados, mas logo constatei que o drama se passava no espaço, era preciso olhar para o alto.

Mirei e avistei um grupo de carcarás assanhados. A princípio, pensei que esquadrinhavam o espaço em busca de alguma presa. Mas, ao observar mais atentamente, percebi que o embate era entre eles. De repente, divisei duas aves de porte médio grasnando e despencando. Ambos eram carcarás.

Parecia aquelas cenas de filmes de guerra em que o avião abatido por uma rajada rola no espaço aéreo, vertiginosamente, para se espatifar no chão. No entanto, em uma manobra espetacular, o carcará atacado se recuperou e retomou o voo para o alto com um arranque vigoroso.

Talvez tenha sido alguma intriga amorosa, pois, passado o arranca-rabo, o grupo voltou a planar no alto, no teto do céu, em voo imponente, de olho em alguma presa. De lá, perto das nuvens, eles monitoram tudo o que acontece aqui embaixo.

Já cogitei dar uma bronca em um carcará que destrinchava uma ave menor no quintal. Mas lembrei do personagem de Monteiro Lobato que queria inverter a posição das frutas: botar as melancias no alto e as jabuticabas em ramas pelo chão. Certo dia, ele dorme e lhe cai uma jabuticaba na cabeça. Também desisti de reformar a natureza. O cerrado é um teatro da vida e da morte.

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