Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 02/09/2018 00:00
Acidentes da beleza
Eu li a matéria de Cidades com um roteiro dos melhores postos de observação das alvoradas e poentes. De fato, eles são pontos privilegiados, mas é possível apreciar as mutações da luz brasiliana de qualquer lugar. Costumo acordar cedo para fazer tai-chi e aproveito para assistir ao surgimento das alvoradas épicas que inauguram o dia.

É um espetáculo magnífico o ritual das preparações e das explosões da luz brasiliana. Até seis horas, ela se dissimula, mas, às 6h20, um incêndio de cores irrompe do chão e sob o recorte das árvores retorcidas do cerrado. Logo, os sabiás, os bentevis, os tzius a denunciam.

Como dizia a arquiteta Gisela Magalhães, amiga de Clarice Lispector: ;Aquela paisagem, aquele horizonte de 360 graus de algum modo nos transforma: você fica só, mas, ao mesmo tempo, se sente menos só porque a gente vê mais, isto é, aprende a olhar;.

A alvorada brasiliana se insinua em silêncio, mas com pompa, grandeza e amplidão. Ela pode vir macia em ondas de algodão, em gradações de azul celestial, em incêndios na vegetação retorcida ou em rios de fogo no céu.

Glauber Rocha abriu o filme A idade da terra com uma tomada de oito minutos do amanhecer sob a imagem do Palácio da Alvorada e a música Amazonas, do pernambucano Naná Vasconcelos, numa sinfonia de sons da floresta. Os radares do cineasta baiano estavam acesos. Ele percebeu que a alvorada brasiliana é épica.

Se não fosse a ação permanente da luz, Brasília poderia ser uma cidade monótona e repetitiva. No entanto, isso não acontece, pois ela interfere na relação com a cidade a cada segundo. De modo que Brasília é sempre a mesma, mas infinita. A luz transfigura, reverbera e esculpe. E, principalmente, no alvorecer e no poente.

A estátua de JK com uma foice no Memorial do ex-presidente parece segurar o sol com a mão, as árvores desgrenhadas do cerrado se revestem de um halo, a ponte JK se incendeia nas águas do Lago Paranoá, as silhuetas dos passageiros nas paradas de ônibus se tornam translúcidas, as nuvens se deslocam em ondas de fogo em cima da Esplanada dos Ministérios numa cena apocalíptica.

Exagero? Eu apenas tentei descrever algumas imagens registradas em um concurso de fotos sobre o amanhecer na capital. Brasília tem graves problemas, mas é uma cidade onde sempre acontece algum acidente da beleza.

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