Caipiras de raiz

Caipiras de raiz

Eles são expressões de um Brasil interiorano cuja música narra causos e casos com simplicidade e sofisticação

Nahima Maciel
postado em 02/09/2018 00:00
 (foto: Arquivo VBS/Divulgação)
(foto: Arquivo VBS/Divulgação)



Autenticidade é uma ideia importante para todo violeiro. Lealdade, também. Combinadas, as duas fornecem um norte do que é a música caipira de raiz, coisa que muito violeiro se apressa em explicar ser diferente do sertanejo. A viola caipira é coisa séria no Centro-Oeste. Segundo o produtor Volmi Batista, um dos fundadores do Clube da Viola de Brasília, o Distrito Federal está em terceiro lugar quando se trata de atuação de músicos caipiras ; vem atrás de São Paulo e Minas Gerais.

;Brasília contempla todas as tendências que hoje são características da música caipira;, avisa. Se há nomes como Roberto Corrêa, Badia Medeiros e Zé Mulato & Cassiano, conhecidos nacionalmente e embaixadores da música caipira produzida na região, há também uma enorme quantidade de músicos menos conhecidos que tocam pra frente a história da viola contemporânea;, afirma Volmi.



De acordo com os registros do Clube da Viola, fundado há 25 anos para reunir artistas e promover apresentações, o DF tem hoje cerca de 20 duplas caipiras, uma orquestra de violas e, pelo menos, 20 ;violeiros solteiros;, que não atuam em dupla. Essa última, aliás, é tema polêmico. Há quem não veja na dupla uma necessidade, mas há quem não enxergue a autenticidade da produção caipira de outra forma. ;Dupla é pior do que casamento, porque uma distorção no casamento, uma pequena desavença, com um carinho você resolve. E o parceiro, você tem que dar as voltas nos problemas com mais sabedoria e jeito;, explica Zé Mulato, há 40 anos e 18 discos na estrada da viola caipira ao lado do irmão, Cassiano.

Idelbrando Calazancio, violeiro desde menino, até nem acha assim tão necessário um parceiro, embora tenha formado com o primo, Denilson Barcellus, a dupla Idelbrando & Barcellus. ;Não precisa, necessariamente, ter a dupla. Existem uns tabus de que música caipira tem que ser a dois, alguns conservadores defendem isso, mas não tem;, avisa o músico e compositor.


Pé no sertão

Definir a música caipira de raiz é algo que os violeiros levam muito a sério. ;Desvirtuaram o nome sertanejo para um tipo de música que não define a cultura sertaneja. O que hoje está massificado como sertanejo é, na verdade, um resgate da música romântica dos anos 1960 e de maneira nenhuma representa o sertanejo. Deveria ser um crime essa comparação, sertanejo é quem tem um pé no sertão;, lamenta Volmi.

Luiz Rocha, matemático que, há 35 anos, criou o programa Brasil caipira, é categórico: ;Não deixo sertanejo aqui não, só música caipira de raiz, com viola e voz. Tenho nojo dessas músicas que falam em bebida, caminhonete e motel. A música caipira é história cantada, tem começo, meio e fim;. Ao longo das três últimas décadas, o Brasil caipira já passou por várias emissoras. Está, atualmente e de maneira provisória, na CNT e deve estrear, ainda este mês, na TV Brasil.

Segundo Rocha, já passaram por lá mais de 12 mil duplas de todo o país. Ele gosta de explicar que o gênero não tem ;religião e não faz distinção, é uma história voltada para a família;. Compositor, Rocha tem mais de 40 músicas gravadas por duplas de todo o país, mas nunca as deixa cantar essas composições no programa para não parecer que quer tirar vantagem.




Idelbrando Calazancio já foi empresário e dono de fábrica de laje, mas hoje só toca mesmo a viola. Começou tocando violão, aos 11 anos, e, graças à participação nas folias, acabou por descobrir a viola. É uma história comum no meio: boa parte dos violeiros passou a infância perambulando pelas folias de reis, festas do divino e celebrações de catira, ambientes nos quais o instrumento costuma ser um dos protagonistas.

Presidente do Clube da Viola desde o ano passado, Idelbrando acredita que o dinheiro ofusca o vasto mundo da viola caipira. ;Nós, violeiros, temos poder aquisitivo mais limitado que esses meninos do sertanejo universitário;, diz. ;E outra coisa que estragou bastante foi o Mazzaropi, que colocou o caipira como um bobão, o Jeca Tatu tirou dos violeiros o brilho que tinham;, garante. Mesmo assim, é um mundo que persiste e resiste.

Mariano, da dupla Macedo & Mariano, é mais flexível quando se trata da discussão em torno da autenticidade. Se muitos músicos defendem que, para ser caipira, só pode entrar voz e viola, ele lembra que há outras raízes e possibilidades. Formado em cinema, o violeiro escreveu dois roteiros de documentários sobre a história do gênero. Os filmes nunca foram produzidos, mas Mariano tirou algumas conclusões das pesquisas realizadas para produzir o material. ;É um pouco complicado rotular o que é e o que não é música caipira;, diz. ;Muitos violeiros dizem que é só a música tocada com viola mas, nas minhas pesquisas, vi que não, que tem sanfona, rabeca, violão, cavaquinho.;

Mariano conheceu Macedo em rodas de viola e cantoria. Os dois formaram a dupla há 13 anos e, desde então, gravaram o disco Conversando com a viola. Este mês, eles iniciam um projeto de seis shows em estações de metrô do DF. Nascido no Plano Piloto, há 37 anos, Mariano não cresceu no meio rural nem entre as festas de folia e do divino, embora sempre tenha passado férias na roça, na casa da tia, em Niquelândia. Ele faz parte de uma leva de violeiros de vivência mais urbana, como o próprio Roberto Corrêa, Renato Teixeira e Almir Sater. ;É um estilo que chamamos de regional, que fala do sertão e com uma pegada mais urbana, são caipiras com conhecimento mais amplo de música;, explica Volmi Batista.



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