Um novo olhar sobre o luxo

Um novo olhar sobre o luxo

Descendente de uma família quatrocentona paulistana, empresária não se deslumbra com grifes e excessos e investe em hotel que ressignifica o conceito de ostentação

Por Rachel Sabino*
postado em 02/09/2018 00:00
 (foto: Elemento Comunicação)
(foto: Elemento Comunicação)
Luxo com razão de ser. Esse é o lema da empresária Fernanda Ralston Semler. Ela foge dos truques, do lucro fácil e das desilusões que a ostentação tradicional proporciona. Dos seus 41 anos, 15 são dedicados a uma curadoria constante no Brasil de um conceito contemporâneo de luxo que vai além do consumo imediato e, em suas palavras, efêmero. ;As aquisições estão fadadas a uma temporada, a uma coleção. É um investimento de desilusão.;

O que Fernanda quer dizer é que o pós-luxo se relaciona mais a uma memória do que a uma compra. É um investimento, antes de ser um deslumbre. O apr;s luxe atrai, em princípio, aqueles que têm condições financeiras para bancá-lo e que gostam de viver experiências além do materialismo. Para se encaixar nessa categoria, produtos passam por filtros de qualidade rigorosos, os quais incluem atemporalidade, inventividade, valor justo, autenticidade e propósito maior.

Inquieta e agitada ; Fernanda confessa ;não parar um minuto; ;, ela construiu o Botanique Hotel & Spa, na Serra da Mantiqueira, em Campos do Jordão (SP), que é exemplo perfeito dos pilares de exigência do pós-luxo. O local é destino insubstituível da geração millennials e anfitrião do silêncio e da natureza.

Mãe de quatro filhos, Fernanda empreende, sonha e expande. Seu estilo de vida vai além da exibição exagerada de logomanias e dialoga precisamente com o seu próprio conceito de ostentação. Ao vestir Dris Van Notten, usar joias Miriam Mamber e apreciar restaurantes como o Agern, em Nova York, e L;Aperge, em Paris, ela se dedica a inspirar novos criadores e empresários a trilharem um caminho mais valoroso. Aqui, Fernanda conta à Revista a resposta de um novo olhar para o luxo.

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

Quem são?
Também conhecidos como geração Y, os millennials representam os nascidos entre o período da década de 1980 até o começo dos anos 2000 ; apesar de haver algumas divergências entre os estudiosos sobre a data. Essa geração desenvolveu-se numa época de grandes avanços tecnológicos e prosperidade econômica, vivendo em ambientes altamente urbanizados. Presenciaram o nascimento de uma das maiores revoluções na história da humanidade: a internet.



Qual é a diferença entre o luxo tradicional e o pós-luxo?
O pós-luxo é o luxo do nosso tempo. É uma evolução contemporânea do luxo tradicional. Eles não se invalidam, mas se diferem pela experiência. O pós-luxo é para aqueles que já tiveram a bolsa Chanel, já tiveram a parede revestida de mármore. O pós-luxo continua sendo luxo e é caríssimo, mas vale o que custa.

O que te inspirou a idealizar e concretizar esse termo no Brasil por meio do Hotel Botanique Hotel & Spa?
Acredito que hoje existem as três coisas mais raras e caras do mundo: a natureza, o silêncio e a água. Esses fatores, para mim, são o auge do luxo. No Botanique, eu dou aos meus clientes os três juntos. Só na região do hotel, temos sete minas de água e usamos quatro delas. Não vendo hospedagem, mas, sim, experiência.

Dizem por aí que o mercado de luxo é à prova de crise. O pós-luxo funciona da mesma forma?
Isso é uma verdade. Nos tempos de crise (no Brasil), tive o maior número de clientes. Como as pessoas começaram a cortar gastos nos últimos anos, elas deixaram de viajar para fora do país e optaram por ter experiências luxuosas no Brasil.

E qual o perfil dos seus clientes?
Pensei que eu atingiria um público mais velho, mas errei. A média de idade dos meus clientes é de 32 anos ; eles variam de 25 a 45 anos. São jovens e assíduos.

Essa assiduidade está ligada a um sentimento de escapismo?
Com certeza. E acredito que é por causa desse olhar contemporâneo presente no perfil dos representantes da geração millennials. Ela já vem com esse novo modo de ver o mundo, de não consumir por consumir, mas de consumir uma experiência. E ter acesso a este tipo de experiência está ficando cada vez mais caro. É aquele negócio: ;Aquilo ninguém te tira;, porque você viveu aquilo, experimentou aquilo.

Para além do Botanique, tem planos de expansão?
Tenho, sim. Há um projeto de construir uma versão praia do hotel Botanique e desenvolver a Vila dos Mellos, um projeto social, urbanístico, com coabitação entre classes sociais. Uma cidade.

Como equilibrar a profissão de empresária com a maternidade?
É um malabarismo (risos). No início do Botanique, quando os meninos eram pequenos, foram anos desafiadores. Tenho a sorte de ter um marido paciente, que estava presente nas refeições com as crianças quando eu estava no hotel. O Botanique me consumiu e me ocupou muito durante um tempo, principalmente por causa do perfil do meu público, que chega com um alto nível de exigência e expectativa. Mas acho que, se for para dar um conselho às mães, o segredo é organização. Não tem outra palavra além dessa. Para dar conta, acabei me tornando uma pessoa com a agenda extremamente organizada, o que antes não era.

Você se considera uma pessoa luxuosa?
Venho de uma família paulista quatrocentona. Morei nove anos fora do país, tive muitos privilégios. Mas acho que pulei rápido para essa questão do pós-luxo. Não me deslumbro com grifes, porque o luxo em si é um chão raso, e isso me incomoda. Eu me afastei desse luxo com que tive contato na minha criação.

"O apr;s luxe é um movimento de conscientização de que o verdadeiro luxo está em locais, momentos e vivências. No silêncio, no tempo que se comanda, mas também em produtos e serviços que passam por alguns filtros. Que seja uma oferta que realmente valha o que custa. Algo dificílimo de oferecer nestes tempos gulosos"
Fernanda Ralston Semler, empresária

Serviço
Conheça o portal do movimento Apr;s Luxe no https:/www.apresluxe.com.br/


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