Em defesa do amor-próprio

Em defesa do amor-próprio

O movimento não é exatamente novo, mas tem ganhado adeptos em todo o mundo. O body positive busca quebrar essa ideia de que existe um corpo perfeito

Por Fernanda Bueno*
postado em 02/09/2018 00:00
 (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press
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(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press )
Sacrificar-se em busca de um objetivo estético pode ser perda de tempo. Não existe corpo errado, todos podem ser incríveis. É isso que o body positive defende. Pelas lentes desse movimento, o corpo vai para além do físico, é mais do que uma abordagem pautada no peso, na medida, na dobra cutânea, na cor ou no percentual de gordura. É a ideia de que a saúde vai além da forma física.

Apesar de ter sido criado em 1996, pela escritora e educadora norte-americana Connie Sobczak, o movimento nunca esteve tão popular. Famosas como Alicia Keys, Cameron Diaz e Gwyneth Paltrow já se manifestaram contra a necessidade imposta às mulheres de estarem sempre maquiadas e perfeitas.

A modelo plus size norte-americana Ashley Graham, em texto publicado em 2016, afirrmou: ;Eu aceito meu corpo como ele é hoje. Eu me exercito, não para perder peso, mas para manter a minha saúde. O ciclo de body-shaming (vergonha do corpo, em livre tradução) precisa acabar;.

Nas redes sociais, também pipocam perfis de gente que milita por essa ideia. São pessoas magras e gordas que já viveram em guerra contra o próprio corpo, mas que passaram por uma longa jornada até a aceitação. Livraram-se de estereótipos, conquistaram o amor-próprio e encorajam os seguidores a seguirem a mesma jornada.

Estereótipos

Para o psicólogo Paulo Lira, a imagem corporal está ligada a dois aspectos: à figura que temos em mente quando pensamos no tamanho e na forma do nosso corpo e ao sentimento em relação a nossas características físicas. O profissional ressalta que temos alimentado culturalmente essa associação de felicidade com o corpo magro.

;As pessoas têm sido ensinadas a construir os relacionamentos a partir dessa imagem corporal. Provavelmente, isso ocorre porque nossa cultura tem produzido estereótipos de felicidade relacionados a corpos magros, planificados e bronzeados;, declara.

A aparência é vista, na sociedade, como um atributo de poder. Os padrões de beleza inalcançáveis são reforçados todos os dias, e a onda fitness reafirma os modelos já estabelecidos. ;As redes sociais talvez sejam a maneira mais caricaturada que temos de ver o quanto a imagem tende a ser mais valorizada do que as pessoas em si;, explica Paulo.

Pessoas de diversas nacionalidades, idades, gênero e aparência física têm lutado para quebrar esse padrão. Para tanto, vêm usando as próprias redes sociais para propagar as ideias. Conheça algumas delas.

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

Apoio na amizade

No processo de autoaceitação, estar em contato com outras vivências pode ser um aliado. A empatia e o olhar positivo sobre o outro são exercícios para alcançar a liberdade. As universitárias Yasmim Ibrahim, Nadja Caldeira e Mariana Araújo, todas com 19 anos, que o digam. Elas descobriram na amizade a força que precisavam para superar a falta de aceitação do corpo.

Para Mariana, a positividade e o amor-próprio não são alcançados da noite para o dia, mas o apoio dos amigos faz a busca ser mais leve. ;É um processo, uma construção. Ter o apoio das pessoas que convivem comigo, só me motiva a cada vez mais parar de pensar coisas tão negativas sobre meu corpo. Vê-las sendo tão empoderadas com elas mesmas me dá muito mais força para continuar me amando;, constata.

Yasmim conta como a convivência com mulheres ;reais; mudou sua perspectiva a respeito do seu corpo e de quem ela é. O foco não está mais nas modelos e musas da televisão. Sua inspiração está em ser alguém como pessoas que estão à sua volta. ;Antes, eu não tinha pessoas que me representavam. Eu tinha um modelo e o seguia. Tê-las ao meu redor, maravilhosas do jeito que são, me inspira. Elas são minha representatividade;, diz.

A aceitação é uma parte importantíssima na busca de uma identidade positiva. Nadja conta como a reflexão a respeito dos sentimentos, quando o assunto é o corpo, se mostra indispensável no processo. ;As mulheres sofrem pressão estética a todo momento. Por todos os lados, você está cercada por isso. A questão na aceitação é você entender os processos que te levaram a odiar seu corpo. Quando você os entende e vê que não vem de você, fica muito mais fácil romper com isso;, explica.

Para o psicólogo Paulo Lira, a insatisfação com o corpo costuma ser algo projetado desde a infância. O ideal de beleza exerce uma pressão estética, e a indústria se aproveita disso para vender produtos que só reafirmam os padrões. Ele acredita que a resposta para esse problema está na educação. ;A construção de uma identidade positiva pode ser obtida por meio de uma educação mais efetiva em oferecer aceitação, aprendizado em lidar com diferenças e desenvolvimento emocional;, afirma.

Quem ama cuida

A nutricionista Paola Altheia, 31 anos, foi bailarina e, por um bom tempo, dedicou-se exclusivamente à dança. Como tinha uma rotina de ensaios puxada, convivia muito com professores, coreógrafos e outros bailarinos. ;E não é segredo para ninguém que a magreza é uma obsessão para eles.;

Até então, ela acreditava que a preocupação demasiada com o corpo era exclusividade do balé, já que eram importantes para o desempenho do bailarino e o julgamento dos juízes em competições. Quando começou a cursar nutrição, porém, percebeu que todo mundo sofria essa pressão. ;Foi quando eu descobri que a insatisfação corporal e a prática crônica de dietas fazem parte da vida das pessoas de modo geral, que é cultural.;

Com essa nova compreensão, Paola buscou mais informações, se aprofundou em estudos sobre transtornos da oralidade e insatisfação corporal. As descobertas se uniram às reflexões e às experiências pessoais e deram origem a um blog: Não sou exposição. ;O nome surgiu dessa sensação de que meu corpo não me pertencia, por causa da cobrança dos outros. Quis levar essa mensagem a outras mulheres para mostrar que elas não estavam sozinhas;, explica.

Formada, Paola passou a trabalhar com transtornos alimentares e, hoje, se considera uma apoiadora do movimento body positive. Grande parte dos pacientes são pessoas que têm problemas de relação com a comida.

A nutricionista explica que a abordagem positiva é o contrário do que é tão promovid

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