Por uma postura positiva

Por uma postura positiva

postado em 02/09/2018 00:00
 (foto: Milena Paulina/Divulgação)
(foto: Milena Paulina/Divulgação)

A fotógrafa Milena Paulina, 23 anos, é autora do Eu, gorda, um projeto que nasceu há dois anos do desejo de ajudar mulheres pela representatividade. ;É um grito que sai do fundo da minha alma e clama por mudança, arte, beleza, que grita pela humanização do corpo gordo.;

A jovem decidiu se tornar fotógrafa ; e fazer as pazes com o próprio corpo ; depois que viu fotos de uma modelo plus size. Ver um corpo parecido com o seu representado de forma artística fez com que Milena se sentisse completa. ;Sentir-se representada, de uma forma humana e com muito amor, faz você se sentir ;normal;, mesmo que o resto das pessoas tentem provar o contrário;, comemora.

Os ensaios do projeto são feitos em grupo, com até seis mulheres como modelo. Antes das fotos, Milena faz uma roda de conversa, em que todas as pessoas têm voz. É uma forma de quebrar o gelo. Nesse ambiente de empatia e compartilhamento de vivências, elas se sentem seguras e à vontade. ;No final, viramos uma família, conhecemos os sentimentos umas das outras;, afirma Milena.

Aceitação

Ana Caroline Lima, 24, participou do projeto. Ela conta que as cobranças com o corpo começaram na infância e percorreram toda a adolescência. Só na vida adulta ela percebeu que, mesmo com o corpo magro, ela ainda não se sentia bem, isso porque sua saúde emocional estava aos pedaços.

A jovem conta que o corpo nunca foi, de fato, um problema para ela, o que a incomodava era a pressão estética que sofria. ;Era muito mais sobre o que os outros esperam de mim do que o que eu mesma esperava;, conta.

A beleza e a autoestima são conceitos que quase sempre vêm atrelados ao padrão de beleza. Ana Caroline relata que, por muito tempo, acreditou que a mudança na autoestima estava ligada à transformação do seu corpo. ;As pessoas têm muito essa ideia de que a autoestima vai ser conquistada se você se encaixar no padrão, mas, na verdade, ela está ligada a você se enxergar de forma positiva. Não é porque você não se encaixa, é porque as pessoas não querem te enxergar bonita por você não se encaixar; afirma.

Gordofobia
O termo define a aversão a pessoas gordas e é mais real do que se imagina. A gordofobia é o preconceito contra o corpo gordo e quase sempre vem disfarçado de piada ou de alerta para o cuidado com a saúde. Diferentemente da pressão estética, exercida sobre todas as pessoas, a gordofobia se restringe apenas a um grupo específico e está ligada à restrição de direitos.

Os homens no movimento

Criar representações reais para pessoas que têm um tipo de corpo que foge do padrão é uma forma de fazer com que elas se sintam valorizadas. É isso que o stylist e produtor de moda Caio Cal, 29 anos, um dos poucos homens militantes do body positive no Brasil procura fazer. Ele compartilha no YouTube e Instagram suas vivências, promovendo o amor-próprio e a aceitação corporal.

Caio lembra que a pressão estética é uma realidade para os homens também, apesar de ocorrer em menor proporção do que com as mulheres. Ser um meio de representação para esses homens é, para o rapaz, uma forma de evitar que outras pessoas tenham as mesmas experiências com distúrbios alimentares e baixa autoestima que ele teve.

;É muito bom o feedback que recebo dos meus seguidores. Boa parte deles são homens e se identificam com as coisas que eu falo. É muito bom você, como gordo, ver outro cara gordo falando sobre as vivências dele, que são suas também. A gente acaba criando uma rede de apoio;, conta.

Formado em moda, Caio usava todas as dicas aprendidas no curso para esconder o próprio corpo. Cresceu ouvindo que não podia usar listras horizontais, porque engordava; de que tinha que vestir preto, porque emagrecia. A partir do momento em que aceitou o corpo, desconstruiu tudo isso, experimentou novas coisas e não se preocupa mais em ;parecer gordo;.

Distúrbio alimentar

Na infindável busca por um shape perfeito, Caio Cal já sofreu tanto com anorexia, na adolescência, quanto com ortorexia (obsessão em comer de forma saudável e só alimentos considerados limpos), durante quatro anos. Para ele, todo o empenho em prol do corpo perfeito era parte da busca pela saúde, mas a realidade foi bem mais complicada.

Com os pensamentos focados na alimentação, ele conta como desenvolveu o hábito de ler rótulos de produtos no mercado durante horas e horas e só consumir informações sobre dietas, exercícios e alimentos ;milagrosos;. Hoje, ele se questiona: o que é um corpo perfeito?

;Esse momento (quando teve ortorexia) representou, na minha vida, a fase que eu me senti mais sozinho. Eu me tornei uma pessoa monotemática, só falava sobre isso e ficava tentando converter meus amigos para o lado fitness da força. Foi uma fase em que eu parei minha vida e não desenvolvi mais nada. Eu só vivia para manter a dieta perfeita, foi o momento em que estive mais solitário e que menos me desenvolvi como pessoa e profissionalmente também;, afirma.

Distante dos amigos e cansado da rotina extenuante de exercícios e de alimentação perfeita, Caio percebeu que precisava de ajuda. Adepto de dietas desde os 13 anos, Caio explica como o body positive transformou de forma significativa sua vida. Para ele, foi uma mudança de olhar sobre si mesmo. Percebeu que alimentava um sistema que só ganhava com a infelicidade dele.

Sobre a diferença entre aceitação e conformismo, Caio afirma que seu engajamento no movimento não tem relação com o fato de ter ganhado peso, e explica que a aceitação corporal não exclui os questionamentos. Pelo contrário, ela o faz se questionar ainda mais. ;Aceitar-se não é tão simples, requer muito esforço para desconstruir ideias e se redescobrir.;


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