A tragédia do desalento

A tragédia do desalento

postado em 09/09/2018 00:00
 (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
A situação do mercado de trabalho brasileiro chama atenção não só pela falta de oportunidades para quem procura emprego, mas também por ressaltar a desesperança crescente entre os brasileiros. Embora a taxa de desocupação tenha caído levemente na última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) trimestral do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ; de 12,4% para 12,3% na comparação entre o segundo trimestre do ano, terminado em junho, e os três meses anteriores ; isso não aconteceu pela retomada da economia e pela abertura de vagas, como seria desejável. Os motivos são muito menos animadores. Um deles é que mais pessoas desistiram de procurar emprego e passaram para a lista dos chamados desalentados.
No cenário de incerteza e economia estagnada, não surpreende que a quantidade de brasileiros nessa situação tenha batido recorde no último levantamento do IBGE. 728 mil pessoas mudaram o status de ;procurando vagas; para de ;sem esperanças de conseguir; em apenas um ano. Ao anunciar os dados, em agosto, o coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo, ressaltou o problema, ao dizer que o desalento ;contribui expressivamente com a queda do desemprego;.
Com o incremento do último ano, o Brasil passou a ter 4,8 milhões de desalentados. ;As pessoas percebem que continuar procurando não vai surtir o efeito desejado, e procurar gera gastos que são significativos para quem está desempregado. O desalento acaba sendo uma espécie de segundo nível do desemprego;, explica o professor de ciências econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mário Rodarte.
Recuperar a esperança dessas pessoas é um desafio tão urgente quanto dar oportunidade para os que ainda procuram uma vaga. A perspectiva, entretanto, não é das melhores para os próximos meses: queda ou, na melhor das hipóteses, estabilidade no nível de emprego, prevê a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em junho, o Índice de Medo do Desemprego, calculado pela CNI, cresceu 4,2 pontos em relação ao verificado em março. O índice de 67,9 pontos é o maior da série histórica, iniciada em maio de 1996, e está 18,3 pontos acima da média histórica, de 49,6 pontos.
A notícia é ruim para os desempregados e, também, para o resto dos brasileiros, que dependem dessa recuperação para garantia de uma economia mais estável. O desalento limita o crescimento do consumo das famílias, responsável por 67% do Produto Interno Bruto (PIB), e, consequentemente, o ritmo de recuperação da atividade econômica, além da oportunidade de oferta de novos postos de trabalho. ;Essa situação dificulta até mesmo que o consumo seja usado como mola propulsora para gerar empregos;, lamenta Bruno Ottoni, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) e do IDados.

Qualificação

O gerente executivo de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, lista dois motivos principais para o nível alarmante de desalento: a questão conjuntural, da recessão, e a falta de qualificação das pessoas, muitas das quais desistem porque nunca estão no nível exigido para as vagas. O primeiro é resolvido a médio e longo prazos, caso as políticas adequadas sejam priorizadas pelos próximos governantes. O segundo fator, para ser equacionado, precisa de investimento específico na formação e geração de competência adequada às pessoas para que possam aproveitar as oportunidades que surgirem.
;As profissões estão desaparecendo. Não dá para voltar o relógio para trás e perder competitividade. As pessoas precisam de aprendizagem contínua, porque ninguém sai da escola técnica ou da faculdade pronto para a vida. Isso exige políticas públicas mais voltadas para o resultado;, pontua Castelo Branco. ;Às vezes não é nem questão de colocar mais recursos nisso, porque há muito desperdício;, acredita.
Outro passo que pode ser dado nesse sentido é investimento em agências de emprego, acrescenta Ottoni. ;Essas agências servem para melhorar o pareamento entre empregador e desempregado, uma forma de facilitar e permitir o acesso da pessoa ao emprego de forma mais rápida e mais precisa;, explica. Embora haja iniciativas parecidas do governo, ele defende que, pelo menos a princípio, esse investimento seja feito por empresas privadas. ;O governo poderia dar algum tipo de incentivo para quem criasse as agências. Dessa forma, não geraria novos gastos em momento de crise;, explica.

; Subocupação é outro entrave

Além dos 13 milhões que têm procurado, mas não conseguem uma vaga, há outros 9,8 milhões de brasileiros que trabalham menos horas do que gostariam ou que poderiam trabalhar, mas não têm disponibilidade por algum motivo, como ter que cuidar dos filhos. ;A redução da desocupação foi acarretada pelo aumento do desalento e o número de pessoas subocupadas; ou seja, de pessoas que trabalham menos que 40 horas e desejam trabalhar mais;, constatou Azeredo, do IBGE. Em outras palavras, o Brasil sofre com o desperdício de mão de obra. Sem oportunidades melhores, essas pessoas acabam se contentando com o que aparece, e a informalidade acaba sendo um caminho escolhido por algumas delas. Não é por acaso que o número de trabalhadores por conta própria e os que não têm contratos formais aumentou tanto nos últimos meses. Além da desistência, a entrada de trabalhadores no mercado informal foi um dos fatores negativos que ajudaram a reduzir o nível de desemprego. Aos 24 anos, Gabriela da Silva, moradora de Taguatinga, cansou de entregar currículos e recorreu à informalidade para tentar realizar o sonho de cursar odontologia. Depois de anos procurando uma empresa que a contratasse, agora ela trabalha como vendedora ambulante nas ruas do Distrito Federal.

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