Brasil S/A

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Não há como revolucionar o país sem o poder da tecnologia e seus desdobramentos na gestão pública

por Antonio Machado machado@cidadebiz.com.br
postado em 09/09/2018 00:00

Nossa única certeza

Na mais imprevisível corrida eleitoral desde 2002, entre as poucas convicções, como a de que a renovação no Congresso será baixa e que o futuro presidente dificilmente terá um parlamento submisso, a única certeza necessária não está na agenda dos candidatos: o emprego da tecnologia da informação como veículo de transformações ; da gestão do setor público à renovação da economia e da promoção social.

Sem um programa transformador da administração do Estado nacional, hoje o maior obstáculo à retomada do desenvolvimento em seu sentido mais amplo, nem o novo governo nem a futura legislatura conseguirão viabilizar as mudanças de fato necessárias. E os programas fiscais propostos pelos candidatos, a rigor, enraizarão a crise fiscal, ao ignorar como levar o país ao encontro do que move hoje no mundo as economias bem-sucedidas. O petróleo dos tempos atuais atende pelos nomes de tecnologia da informação e inteligência artificial. Ponto.

Já não basta cortar gastos públicos dispensáveis nem cogitar outra rodada de aumento de impostos sem, previamente, faxinar tudo o que permitiu tantas e tamanhas lambanças. Em regra, vai ao ralo o gasto meritório sem padrinhos influentes e torra-se o dinheiro a mais de carga tributária com planos e funções sem valor econômico e social.

Fazer o certo implica afrontar o establishment que manda no país ; da elite das corporações de servidores, sobretudo no Judiciário, a setores econômicos arcaicos e agarrados às tetas do Tesouro. Não se muda nada disso com a conversa fiada de certo tipo de candidato nem falando grosso para impressionar, como quem bate boca num bar.

Muda-se o status quo do que não serve ou ficou obsoleto com visão de futuro e programa alicerçado num fluxo de processos inovadores, propostos por uma curadoria de inovação dedicada a selecionar o que para de pé, eleger prioridades, testar hipóteses, desenhar o modelo de missão (o modelo de negócios, se fosse numa empresa) e indicar o caminho das pedras para refazer a governança dos serviços públicos.

E tudo com prazo exíguo, metas a atingir e orçamento definido, que se limitam, em resumo, à responsabilidade do presidente. Mas também dos líderes do Congresso, conforme a característica do nosso modelo de presidencialismo parlamentar (o contrário do presidencialismo de cooptação, em que o governo corrompe e suborna os parlamentares).

O discurso que já cansou

A verdade é que o discurso dos políticos já cansou, o crescimento nos próximos anos será pífio se nada mudar, e o Estado, sobre o qual sempre se pôs a esperança de puxar a roda da civilização, tornou-se caquético, disfuncional, refém de interesses nefastos. A destruição do Museu Nacional foi mais um sinal de nossa profunda regressão.

O crescimento se exauriu, ceifando a expectativa de saída rápida da recessão forjada pelos governos passados, devido à governança do Estado voltada a atender, preferencialmente, maganos da burocracia e falsos progressistas, além de gestão da economia para sugar renda de atividades produtivas (pegando leve com os amigos do poder), não para incitá-las a produzir de acordo com os padrões internacionais.

Qual é o imperativo moral

O país carecia já na gênese da Constituição, 30 anos atrás, de um plano com foco na educação básica, sem a qual nada se constrói, no ensino técnico profissionalizante e em ações estratégicas visando ao desenvolvimento tecnológico inovador e permanente e a encorajar um fluxo perene de empreendedores estabelecidos e emergentes.

Fomos na direção contrária. Como a história é feita de implicações não intencionais, a Constituição favoreceu a burocracia, sedimentou o controle da livre iniciativa e semeou a cultura do desperdício em nome do ;tudo pelo social;. Um programa de longo prazo que resgate o país da miséria intelectual que nos consome é hoje um imperativo moral, e não só (por mais que seja indispensável) o ajuste fiscal.

A transformação é digital

Não há outro jeito de revolucionar o país sem envolver o poder da tecnologia e seus desdobramentos na gestão pública e sua interação com o cotidiano da sociedade. Com elas, a economia se transforma, o atraso político se despede e a dignidade social se reergue.

Por onde começar? Um dos melhores intelectuais de minha geração, André Lara Resende diz que ;o avanço da tecnologia digital tornou viável; criar uma ;plataforma digital nacional;. É uma iniciativa, diz ele, ;relativamente simples, que pode reduzir custos, eliminar a burocracia, facilitar o acesso aos serviços públicos e ainda aumentar a produtividade e a inclusão social;. E depende do quê?

Bombeiros e embusteiros

Lato sensu, de convencimento político, já que há gente muito boa em nichos técnicos do governo que sabem o que fazer e, sobretudo, como se faz. Um par de ordens executivas pode viabilizar um sistema de arrecadação de impostos em bases reais e um modelo de pagamentos que, no limite, dispensa a mediação de cartões de crédito e débito e até de bancos. Parte disso está implantado na China, em curso na Índia e em países nórdicos e em discussão na Europa e nos EUA.

É como se diz: os cães ladram e a caravana passa. Gastamos tempo com falsos líderes políticos, fingimos atenção com a educação. Vai ver a culpa é dos bombeiros, como disse o reitor da UFRJ, ao ver em chamas o museu de que deveria cuidar. Não nos faltam embusteiros.

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