Com filhos, sem creches

Com filhos, sem creches

No mundo corporativo, trabalhadoras com filhos pequenos são as mais prejudicas na ausência dessa estrutura. Estima-se que apenas 26% das crianças são atendidas nos três primeiros anos de vida

Ana Paula Lisboa
postado em 09/09/2018 00:00
 (foto: Marília Lima/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Marília Lima/Esp. CB/D.A Press)

A oferta de creches gratuitas e de qualidade tem tudo a ver com o desenvolvimento profissional, social e econômico do país. A falta de local para deixar as crianças atrapalha, ou até impede, que trabalhadores com filhos pequenos ; majoritariamente mulheres, pois são elas as que mais se responsabilizam pela prole ; se insiram, se mantenham e avancem no mercado. ;É preciso ter creche pública de qualidade para todos. Assim, as crianças se desenvolvem melhor e as mães continuam suas trajetórias profissionais. Todo mundo sai ganhando: com mais mulheres trabalhando, a economia cresce;, calcula Bia Nóbrega, psicóloga pela Universidade de São Paulo (USP) com mais de 19 de anos de experiência em recursos humanos. ;Existe uma relação direta entre creche e carreira e, claramente, as mães são as que mais sofrem com a falta disso;, afirma Angélica Guidoni, sócia da consultoria Trajeto RH. O problema atinge todas as camadas sociais, mas é mais cruel com as mais pobres.

;As que têm melhores condições financeiras ainda podem pensar e avaliar onde deixar os filhos, com uma babá ou numa creche particular, por exemplo. Têm mais possibilidades de se colocarem à disposição para uma promoção;, pondera a coach e psicóloga. ;Já as que não podem arcar com os custos desse tipo de serviço ficam numa situação muito limitada;, compara. As opções que sobram não são as melhores, mas é preciso arranjar caminhos. ;Nos bairros mais humildes, existem mulheres que cuidam de quatro a cinco crianças. Outra possibilidade é uma rede de vizinhos: um fica com as crianças hoje, outro depois;, exemplifica Bia Nóbrega. No entanto, dificilmente, a mãe conseguirá sair para trabalhar totalmente tranquila com o bem-estar da criança nesses casos.

Deficit de vagas
Escritora, palestrante e pesquisadora do universo feminino, Alice Schuch afirma que ;a oferta de creches é um dos maiores ganhos que o governo pode proporcionar às mulheres, já que a ausência dessa estrutura, agrava muitíssimo o problema do feminino;. A melhor maneira de criar um filho saudável, explica Alice, doutora em educação e gêneros pela Universidad de Desarrollo Sustentable, do Paraguai, é a realização da mãe. ;Se ela for frustrada por causa das dificuldades de ter uma carreira, muito provavelmente passará isso para a criança.;

E se o país quiser investir nas próximas gerações, precisa fazer isso desde cedo, nas creches, que devem ser desenvolvidas em termos de qualidade e quantidade, algo que ainda está longe de sair do papel. Uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) é colocar, pelo menos, 50% das crianças de até 3 anos em creches. O primeiro prazo estabelecido para cumprir o objetivo não foi cumprido e, então, adiado para 2024.

Existem mais de 11,8 milhões de crianças de 0 a 3 anos no país segundo dados de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, há apenas 3,1 milhões de matrículas em creches nessa faixa etária, de acordo com as Sinopses Estatísticas da Educação Básica de 2017, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O Inep não coleta dados de deficit de vagas, mas fazendo a correlação com os números populacionais, apenas 26% das crianças frequentam creches nos três primeiros anos de vida. ;No ritmo atual, não alcançaremos a meta nem com investimentos. Num momento de contenção de despesas, isso se agrava ainda mais;, lamenta Heloisa Oliveira, administradora executiva da Fundação Abrinq.

Famílias de três regiões do DF comentam o impacto da falta de creches
Aecione vive com seis filhos, o mais novo com 2 anos. Sem vaga em uma unidade pública,
ela não consegue trabalhar

Aecione Pinto de Lira, 45 anos, teve 12 filhos, dos quais seis vivem com ela e o marido, carroceiro, em Planaltina. A família nunca conseguiu apoio de creches. Sem outros parentes no Distrito Federal, a pernambucana que cresceu em São Paulo não trabalha e fica em casa para cuidar, especialmente, do caçula, de 2 anos, mas também dos demais, que têm 7, 9, 11, 12 e 16 anos e frequentam a escola. O primogênito, que não mora mais com ela, tem 31 anos. ;Com o fato de não ter creche, você não consegue nem correr atrás de arrumar serviço. É muita falta de responsabilidade do governo;, queixa-se. Nas ocasiões em que procurou trabalho, sentiu o preconceito dos empregadores. ;Dizem que criança atrapalha, têm medo de que a gente fique saindo para ir à reunião de escola;; Aecione é beneficiária do Bolsa Família e complementa a renda como revendedora de produtos de venda direta. ;Eu sempre fiz faxina também, mas, depois que o menino mais novo nasceu, parei. Após o parto dele, minha saúde não ficou bem;, conta ela, que tem nível fundamental incompleto.
Silvana está satisfeita por ter encontrado alguém de confiança para cuidar da filha
A enfermeira Silvana Alves dos Santos, 32 anos, terminou o curso na Universidade Católica de Brasília (UCB) em junho e, desde então, procura emprego. Ela também faz pós-graduação em urgência e emergência. Nunca conseguiu creche pública e, há algum tempo, deixa a filha, de 1 ano e seis meses, na casa de uma mulher que é paga para cuidar de três crianças nos Jardins Mangueiral. ;Ela já ficava lá para eu poder estudar e continuou. São R$ 400 por mês, e ela fica das 7h às 15h;, revela. No começo, Silvana e o marido, que é mecânico numa empresa de veículos a diesel, contrataram uma pessoa para ficar na casa deles. ;Era uma conhecida, mas ela teve de sair para fazer tratamentos de saúde;, diz. Foi então que ela começou a procurar creches. ;Foi muito difícil, as que eu achava eram muito caras. Até que recebi a recomendação de uma mais em conta, onde coloquei minha filha.;

A experiência durou pouco, porque o estabelecimento mudou para São Sebastião, então, se tornou contramão para a família. ;A gente sonha em conseguir uma boa creche pública. Isso fica na cabeça da mãe. Quando você não consegue, isso gera preocupação e frustração. A creche dá mais confiança do que deixar com uma pessoa estranha seu bem mais precioso;, diz ela, que já trabalhou como operadora de caixa.

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