A carência de creches no país, segundo especialistas

A carência de creches no país, segundo especialistas

postado em 09/09/2018 00:00
 (foto: Reprodução/FMCSV)
(foto: Reprodução/FMCSV)

Vagas só para quem pode pagar

;Nossa maior preocupação em relação ao acesso à creche é que vários estudos mostram que as crianças que pertencem às famílias de mais baixa renda são as que estão fora delas;, alerta Beatriz Abuchaim (foto), gerente de Conhecimento Aplicado da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), que tem como foco a defesa da primeira infância. Ou seja, são as mães desempregadas e em mais complicada situação financeira que não contam com esse apoio. ;Não falta vaga para quem pode pagar. Falta para quem não pode. No DF, onde tem muito servidor público e pessoas com renda mais alta, a maior parte das matrículas é na rede particular. Pouco mais de 1% é de fato da rede pública;, completa Heloisa Oliveira, da Abrinq. A colega dela Denise Cesario, gerente executiva da Fundação Abrinq, observa que a falta de acesso pode gerar muitos riscos. ;Quando se deixa a criança com um amigo, um vizinho, até um parente, além de não receber estímulos adequados, ela pode estar sujeita a outros perigos, como o de não ser bem cuidada, de ser violentada.; O que não quer dizer, necessariamente, que o atendimento seja adequado em todas as creches.

;Um dado preocupante é que as crianças mais vulneráveis, que vêm de um lar estressor, com pais menos educados, estão fora da creche ou, em algumas regiões do país, estão em creches muito ruins;, alerta a psicóloga, mestre e doutora em educação Beatriz Abuchaim. A boa qualidade da educação infantil (que inclui creche e pré-escola) pode trazer um impacto muito positivo, que perdurará por toda a vida. ;Ao mesmo tempo, em ambientes sem interação, que não sejam estimulantes, a gente não vê esse avanço e, às vezes, há até prejuízos;, pondera. ;No caso das mães trabalhadoras, esse atendimento é uma necessidade, então a gente tem de lutar para que ele seja bom.; Arranjar um jeito de medir a qualidade das creches, inclusive, é algo em que a FMCSV tem trabalhado. Atualmente, os indicadores do governo levam em conta basicamente a estrutura física, como a presença de berçário, parquinho, banheiro infantil. Eduardo Marino, diretor de Conhecimento Aplicado da Fundação, observa que o objetivo é tornar possível medir também a qualidade das interações e dos estímulos feitos.

Peso cai sempre nos ombros da mãe

No Brasil e na maior parte dos países, fica com as mães a responsabilidade principal pela criança. ;É muito raro o pai faltar ao trabalho para levar o filho ao médico. Isso é muito ruim, porque a sobrecarga é tremenda. O empregador obviamente sabe disso e entende que a mulher terá mais chance de se ausentar da empresa por causa da criança;, aponta Bia Nóbrega.

;Em muitos casos, a própria mãe não pleiteia uma vaga ou desafio profissional por entender que ficaria difícil por causa dos filhos. Dar um jeito significaria colocar o pai na jogada, o que gera desgaste. Então, ela se barra;, percebe Angélica Guidoni (foto), que tem experiência de consultoria de RH em empresas de médio e grande porte, nacionais e multinacionais. Frente às dificuldades de conciliar filhos pequenos e carreira sem creches para todos, não só as próprias mulheres se privam de oportunidades, como também os chefes têm o costume de escolher por elas. Eles não chegam nem a ofertar chances (de promoção ou viagem, por exemplo) às profissionais. ;Os gestores pensam: ;Fulana tem filho pequeno, portanto, não pode;. Só que, às vezes, esse cenário não é real, a trabalhadora daria um jeito. Falta dar a chance de ela decidir.; Fenômeno análogo se repete nas seleções de emprego.

Para Angélica, a falta de universalização do serviço de creche, aliada à concentração das tarefas domésticas e familiares apenas nas trabalhadoras, está por trás da desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho. ;A profissional tem menos tempo para construir networking. Em vez de sair com os colegas para um happy hour, onde poderia encontrar alguém da direção, volta para casa e para os filhos depois do expediente;, diz. ;Esse empobrecimento das relações é supercrítico para o desenvolvimento da carreira e faz com que elas sejam menos cotadas para cargos de chefia. Um reflexo da falta de creche e também da falta da paternagem ativa;, comenta Angélica.

Dividir responsabilidades

Para pleitearem vagas de emprego com serenidade e confiança, as mulheres precisam entender que não estão sós. E num contexto em que há cada vez menos senso de sociedade e paternidade com relação ao cuidado com as crianças, isso se torna muito difícil sem creches. ;Não foi à toa que a humanidade começou em tribo. Os filhos eram da tribo, não só da mulher. É complexo ter um filho só para você e ser o único responsável num mundo masculinizado, onde a maternidade é o auge do feminino;, afirma Angélica Guidoni, especialista em constelações sistêmicas pela Faybel. A subsecretária de Promoção de Políticas para Crianças e Adolescentes do Distrito Federal, Perla Ribeiro (foto), chama a atenção para a importância de desvincular a imagem do zelo e da criação de filhos como algo exclusivo da mãe, até porque ela não os gera sozinha. ;Cuidar das nossas crianças não é (ou não deve ser) o cuidado de um só. É preciso de uma rede em que cada pessoa tem o seu papel. O pai é muito importante para o desenvolvimento infantil, complementando o trabalho da companheira;, destaca.

Os comportamentos atuais geram, na maior parte das mulheres, a sensação de desamparo, a ideia de que precisam dar conta de tudo sozinhas. Perla salienta o papel social e do Estado para amenizar essas situações. ;A criança tem de ter o cuidado da família ; e pensando de modo extenso, de todos os membros. Mas também é responsabilidade do Estado e da sociedade cuidar da criança, garantindo-lhe direitos básicos e fundamentais, como vida, educação, saúde, alimentação saudável, espaços lúdicos. Precisamos resgatar princípios comunitários de cuidado com o outro;, diz.


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