Trabalho na indústria 4.0

Trabalho na indústria 4.0

Com o desenvolvimento da tecnologia, novas profissões surgirão e ganharão espaço nos próximos cinco a 10 anos. Enquanto isso, outras perderão mercado. Saída para se manter necessário e relevante é buscar atualização constante. Além da capacidade técnica, ganham cada vez mais importância as habilidades socioemocionais

Darcianne Diogo
postado em 09/09/2018 00:00
 (foto: Marília Lima/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Marília Lima/Esp. CB/D.A Press)
Pesquisa do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) concluiu que 50% das atividades de trabalho poderão ser automatizadas até 2065. Determinadas profissões podem desaparecer, mas outras surgirão e crescerão. O relatório aponta carreiras de níveis médio e superior que devem ganhar relevância entre os próximos cinco a 10 anos. A previsão é de que 30 profissões (confira todas no quadro) ganhem espaço em oito setores: automotivo, alimentos e bebidas, construção civil, têxtil e vestuário, tecnologias da informação e comunicação, máquinas e ferramentas, química, petroquímica, petróleo e gás. Essas áreas devem sofrer mais impacto da chamada indústria 4.0, conceito definido pela integração dos mundos físico e virtual.

O levantamento foi feito a partir de um modelo de prospecção, que permite prever quais tecnologias passarão a ser utilizadas no trabalho. O diretor-geral do Senai e diretor-superintendente do Serviço Social da Indústria (Sesi), Rafael Lucchesi, explica que, além das oito áreas principais, outras 20 fazem parte do relatório. ;Nós pegamos os setores que mais empregam e mais impulsionam o progresso técnico;, diz. O diretor do Senai explica que os profissionais que se especializarem nessas áreas trabalharão para deixar o dia a dia das pessoas mais fácil. ;As novas tecnologias sempre estabelecem meios de eficiência, melhorias de bem-estar, meios de produtividade e maior geração de riqueza. Então, a inteligência artificial vai assegurar ganho efetivo de bem-estar e qualidade de vida;, destaca.

Para ter cidades e casas inteligentes, maior fluxo de informação e mobilidade, é preciso pensar em escolas do futuro, ou seja, instituições de ensino que dialoguem com essas tecnologias que alterarão a vida humana, defende Lucchesi. Bruno Goytisolo, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) e administrador de empresas, explica que existe um grande desafio para a difusão da inovação tecnológica: a resistência das empresas. ;As instituições devem estar abertas à inovação e receptivas às novas tecnologias. As pessoas ainda estão muito atreladas à chefia e precisam saber que têm autonomia para resolver problemas;, defende. O profissional do futuro também deverá estar apto a processar grande volume de informações. ;Vai se dar bem no mercado quem souber lidar com dados, para trazer inteligência ao negócio;, argumenta.
Confira, por setor, profissionais que devem ganhar espaço com o avanço da indústria 4.0, de acordo com levantamento do Senai:

; Automotivo: mecânico (de veículos híbridos, e especialista em telemetria); programador de unidades de controles eletrônicos; e técnico em informática veicular.
; Alimentos e bebidas: técnico em impressão de alimentos; especialista em aplicações de TIC para rastreabilidade de alimentos; e em aplicações de embalagens para alimentos.
; Construção civil: integrador de sistema de automação predial; técnico (em construção seca e em automação predial); gestor de logística de canteiro de obras; e instalador de sistema de automação predial.
; Têxtil e vestuário: técnico de projetos de produtos de moda; engenheiro em fibras têxteis; e designer em tecidos avançados.
; Tecnologias da informação e comunicação: analista de IoT (internet das coisas); engenheiro de cibersegurança; analista de segurança e defesa digital; especialista em big data; e engenheiro de softwares.
; Máquinas e ferramentas: projetista para tecnologias 3D; operador de High Speed Machine; programador de ferramentas CAD/CAM/CAE/ CAI; e técnico de manutenção em automação.
; Química e petroquímica: técnico (em análises químicas com especialização em análises instrumentais automatizadas; e especialista no desenvolvimento e reciclagem de produtos polimétricos).
; Petróleo e gás: especialista (em técnicas de perfuração; em sismologia e geofísica de poços; e para recuperação avançada de petróleo).
Estamos prontos?
Antônio Isidro, psicólogo, professor de administração da UnB e doutor em administração com ênfase em inovação, avalia que, em termos de potencial de consumo, o Brasil está preparado para a indústria 4.0, mas em questões de infraestrutura e qualificação profissional, não. ;Nós temos uma carência muito grande de mão de obra. Isto é muito claro;, aponta. O professor destaca que o fator mais importante para a evolução tecnológica é o investimento na educação. Segundo ele, é preciso aproximar o setor produtivo das instituições de ensino. ;Necessitamos de política pública e atividades que vão ao encontro dessas tecnologias, por meio de palestras ou eventos. Tem de se fazer o caminho da educação, para termos um mercado com mais oportunidades e mais inclusivo;, diz.

O professor destaca pontos essenciais para o profissional de hoje se adaptar ao mercado futuro. O principal não está em saber programar ou entender de tecnologia. Na avaliação dele, o mais importante serão as competências comportamentais, aquelas que inteligência artificial e robôs não conseguem ter. ;O funcionário tem de ter habilidades socioemocionais: inovação, criatividade, capacidade de superação e de trabalhar em equipe;, pondera. E é justamente esse tipo de competência que está cada vez mais difícil de encontrar, já que as pessoas ficam muito tempo na internet, segundo ele. ;Isso cria um distanciamento social. Fica mais difícil ter foco e atenção. Também se perde o sentimento de pertencimento social, o que prejudica as relações interpessoais, algo que tem contribuído para o aumento de casos de depressão.;

Para tirar um projeto do papel, a técnica em equipamentos biomédicos pelo Instituto Federal de Brasília (IFB), Lorraine Costa Silva, 33, precisou usar não só a tecnologia, mas a criatividade e a capacidade de resolver problemas. Ela estuda letras na Universidade de Brasília (UnB) e percebeu a importância da ligação com o mundo digital durante um projeto do IFB, criando uma mão biônica a partir de materiais recicláveis. ;Foi um desafio para mim, pois era algo a que eu não estava acostumada;, diz. Depois de superar a dificuldade, Lorraine percebe que conseguiu evoluir. ;O bom é que saímos da zona de conforto e, em vez de só consertar e fazer manuten

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação