"Existe uma outra Brasília que pulsa como uma cidade qualquer"

"Existe uma outra Brasília que pulsa como uma cidade qualquer"

Curador do Cena Contemporânea fala sobre as perspectivas do teatro local e sobre o papel do produtor para formar artistas e conquistar o público

postado em 09/09/2018 00:00
 (foto: Thiago Sabino/Divulgação)
(foto: Thiago Sabino/Divulgação)
Alaôr Rosa, 62 anos, já produziu grandes eventos, como as festas de réveillon na Esplanada dos Ministérios, comemorações do aniversário de Brasília e o Fifa Fan Fest durante a Copa do Mundo de 2014. Entretanto, desde 2015, é o nome responsável pela curadoria do festival brasiliense de teatro, o Cena Contemporânea.

Nascido em Rubiataba, Goiás, se mudou ainda jovem para São Paulo e começou uma carreira como modelo. Fez fotos e participou de alguns desfiles, mas rapidamente sentiu a necessidade de colocar seu corpo a serviço da arte de outra maneira. Durante a adolescência, ele já havia participado de oficinas e workshops de teatro. Decidiu, então, cursar artes cênicas.

Há 34 anos, ele se estabeleceu na capital federal. ;Culpa; do diretor Hugo Rodas, que o convidou para fazer a peça Senhora dos afogados, de Nelson Rodrigues. ;A peça ia durar seis meses, mas acabou ficando em cartaz por cinco anos. Percorremos o Brasil e alguns países da América Latina;, conta. Depois, Alaôr explica que não fazia mais sentido retornar para São Paulo. Abriu uma pequena produtora para continuar atuando e enveredou também para a produção.

;Brasília precisava da figura do produtor, ninguém sabia o que era isso;, diz. Decidido a mudar esse cenário, Alaôr começou a trazer profissionais do Rio de Janeiro e de São Paulo para oferecerem cursos na cidade. Como ator, ele teve a oportunidade de trabalhar com todos os grandes diretores brasilienses, mas acabou se estabelecendo como produtor cultural ; área à qual se dedica desde 1986.

Alaôr trabalhou como produtor do Cena Contemporânea desde sua segunda edição, ao lado do fundador, diretor e curador Guilherme Reis. Pela proximidade com ele e, obviamente, pela experiência foi o indicado para substituí-lo no cargo de curador do festival quando Guilherme assumiu a Secretaria de Cultura.

;Quero mostrar que no Planalto Central também existem pensadores e fazedores de cultura, que tem uma inquietação. Acredito que temos contribuído bastante para as artes cênicas e para a dança;, ressalta o produtor cultural.






;Quero mostrar que no Planalto Central também existem pensadores e fazedores de cultura, que tem uma inquietação;
Alaôr Rosa




Como avalia o teatro em Brasília?
A cena está muito forte. Brasília, por ser nova, passou muitos anos com apenas três ou quatro representantes, mas isso mudou radicalmente nos últimos 10 anos, com o surgimento de vários coletivos de teatro que fazem um trabalho de pesquisa e estão tentando circular com suas produções. A Secretária de Cultura também tem contribuído, criando cada vez mais editais que permitem aos grupos circular e pleitear bolsas de qualificação. Brasília, por ter três faculdades de artes cênicas, coloca no mercado anualmente um número grande de profissionais.

Qual o papel que o Cena Contemporânea tem nesse meio?
A ideia do Cena não é apenas ser um festival de exibição, mas um evento que deixe resíduos. Reciclando o conteúdo acadêmico, por meio de oficinas e workshops, as universidades têm recebido bem a programação. Atualmente, o Cena está entre os principais festivais do país e pertence ao núcleo de festivais de artes cênicas.

O brasiliense tem uma relação forte com o teatro?
Vejo muita gente reclamando que o teatro está em crise, mas, na minha experiência, quando o festival chega, a cidade vira uma festa, uma celebração. O público brasiliense é muito seletivo, precisamos estender para outras regiões que ainda não têm esse olhar. Estamos qualificando o Entorno, fazemos produções nas praças, ruas e galerias de cidades, como São Sebastião, Riacho Fundo e Itapoã. Em São Sebastião, fomos para uma praça onde as pessoas falavam que foi a primeira vez que a praça se calou para ouvir o teatro. Aos poucos, vamos tentando entrar nesses nichos e mostrar que o teatro é sério e é para todo mundo.

Qual a maior dificuldade de ser um curador de teatro?
Não poder colocar em um mesmo evento a quantidade de obras que gostaria. Esse ano talvez tenha sido um dos maiores, foram 30 peças, mas eu teria mais 30, 40. É preciso ter mais recursos. Outro detalhe importante é que o meu gosto pessoal não pode interferir na seleção, por isso tenho que estar muito antenado com as questões contemporâneas.

Quais os critérios aplicou para selecionar as peças deste ano?
Nesta edição, tínhamos duas hashtags para o festival: #DeQueLadoVocêEstá e #PreconceitoZero. Elas foram o meu norte ao longo de todo o processo de curadoria. Busquei espetáculos que falasse de política, democracia e que combatem qualquer forma de preconceito. Entretanto, a poética das obras também era algo muito importante.

Por que o tema democracia?
Nos últimos dois anos, temos vivido um momento de caos político, onde projetos são aprovados na calada da noite e Brasília fica com essa imagem de cidade corrupta. Existe uma outra Brasília que pulsa como uma cidade qualquer e que sua população que trabalha diariamente. A #DeQueLadoVocêEstá não é um convite para irmos para a trincheira ou panfletar. É para discutir a política na vida do cidadão, para que o público possa entender o processo e decidir. A arte é um instrumento que pode ser usado politicamente a favor da população, trouxemos o trabalho dos quatro artistas mais censurados do Brasil. A resposta do público foi a melhor.

O que busca trazer de diferente a cada edição do Cena?
Bons trabalhos, que quebrem barreiras e falem com o público. As peças precisam conversar entre si e contar uma história, para que entendam o que é uma curadoria e que vai além de simplesmente uma estética.















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