Quando o palco chama

Quando o palco chama

Entraram no teatro quase sem querer, mas se tornaram grandes nomes da arte brasiliense e nacional. Os Irmãos Guimarães são um orgulho para o DF

Marina Adorno Especial para o Correio
postado em 09/09/2018 00:00


Adriano e Fernando Guimarães têm mais de 25 anos de carreira. Apresentaram mais de 50 peças profissionais, fizeram mais de 40 exposições individuais e coletivas ; nacionais e internacionais. Conhecidos no universo das artes cênicas como os Irmãos Guimarães, a dupla é parte incontestável da produção artística local e faz história no teatro brasiliense.

Os dois nasceram em Anápolis, mas vieram para Brasília ainda crianças para acompanhar a família que acreditava que morar em uma cidade maior traria melhores opções de trabalho e estudo para os filhos. ;Apesar de não termos nascido aqui, toda a nossa memória composta da cultura é de Brasília;, ressalta Fernando.

Ironicamente, o teatro nunca esteve nos planos de Fernando Guimarães, 55 anos, que entrou na UnB para estudar engenharia civil e, quando faltavam oito matérias, migrou para o curso de relações internacionais ; no qual se formou. O seu encontro com os palcos aconteceu ao acaso. Fernando foi à Faculdade Dulcina de Moraes para acompanhar uma amiga que fazia dança e encontrou com Dulcina casualmente no elevador.

;Dulcina estava na minha frente. Ao me ver, disse: ;O ensaio de Bodas de Sangue vai começar dia tal;. Um pouco perdido, perguntei: ;Que ensaio?;. E expliquei a ela que não tinha qualquer relação com o lugar e que não era ator;. A reação dela intrigou Fernando. ;Ela me olhou de uma forma como se eu fosse um extraterrestre. Como quem perguntasse: ;Como não é ator?;;. A atriz o convidou para fazer a prova específica, e no auge de seus ;20 e poucos anos;, ele obedeceu.

Fernando afirma que não sabe explicar o porquê, mas não conseguiu dizer não para aquele convite. ;Veio uma sensação de que eu tinha que dar aquele passo.; Na prova de habilidades específicas, um novo encontro com a professora, consagrada como uma das maiores atrizes do país. ;Ela me aprovou. E ali mesmo me deu papel para aquela montagem.;

Bastou o primeiro contato com o palco para se apaixonar. Estreou como ator, em 1983, fazendo uma figuração com apenas uma fala na peça Bodas de Sangue, sob o comando de Dulcina Moraes. ;Assim que eu entrei no palco, percebi que era aquilo que eu queria pra mim. Não tinha outra opção.;

Arte na veia
A história de Adriano, 45 anos, com as artes cênicas acontece paralelamente a do irmão mais velho. Ele frequentava a Faculdade Dulcina para acompanhar o irmão durante os ensaios e ficava assistindo atentamente às aulas do mezanino, sempre observando ela dirigir os atores. Aos poucos, foi sendo contaminado pelo amor ao teatro.

Apesar da diferença de idade, que muitos consideram grande, os dois sempre partilharam do interesse pelas artes visuais e pela literatura, as artes cênicas se tornaram mais um ponto em comum entre Fernando e Adriano. Talvez o que faltava. A primeira peça montada por eles foi Provisoriamente paixões, e veio de um conto de Marguerite Yourcenar. De onde veio a ideia? ;Não tem racionalidade em nenhuma dessas ações, começamos a ler e achamos interessante;, explica Fernando.

A estreia aconteceu no Teatro Nacional, em uma pequena sala para 100 pessoas chamada Alberto Nepomuceno. Segundo os artistas, era uma peça fora do tradicional e tinha um toque de artes plásticas muito forte. ;A repercussão foi boa, mas hoje eu acho que deve ter sido estranho para as pessoas acostumadas com o teatro tradicional;, reconhece Fernando. Levaram o espetáculo para São Paulo, onde receberam uma crítica que avaliam como muito boa.

A segunda peça foi baseada em Macbeth e Mauser rendeu à dupla um convite para participar da Bienal Internacional de São Paulo ; eles foram os primeiros representantes da capital a participar. ;Éramos muito novos, as coisas aconteceram muito depressa para a gente;, afirma Adriano.

Adriano e Fernando acumulam prêmios e reconhecimentos internacionais. Grandes nomes da dramaturgia nacional foram dirigidos por eles, a exemplo de Nathalia Timberg. Nos palcos, eles respondem por boa parte dos espetáculos que marcaram gerações na cidade, a exemplo de Felizes para sempre.

Um trabalho em particular, no entanto, elevou Brasília ao patamar máximo do teatro nacional. Em 1996, ganharam o prêmio Shell de melhor direção, ao lado de Hugo Rodas, por Dorotéia. Esse foi o primeiro e único Shell da capital federal. ;Demoramos dois minutos para acreditar e levantar da cadeira. Estávamos concorrendo com profissionais muito conceituados;, relembra Fernando. Já concorreram outras vezes, mas não trouxeram outro prêmio para Brasília. Este ano, O imortal concorre pelo prêmio na categoria melhor atriz.

Atualmente, os irmãos Guimarães estão divididos. Fernando continua morando em Brasília e dando aulas na Faculdade Dulcina. Adriano vive parcialmente na capital e parcialmente no Rio de Janeiro. O irmão mais novo conta que, depois que foram convidados a levar o espetáculo Nada para as terras cariocas, novas portas se abriram, por isso ele fica indo e voltando.

Reconhecem que, hoje, os tempos são outros. ;Começamos em uma época muito diferente do teatro que está sendo feito hoje em dia. Era mais pioneiro. Hoje está muito ligado aos meios de produção e as leis de incentivo;, acrescenta Adriano. Para ele, a cena teatral brasiliense é interessante, mas ainda é pequena. É preciso que mais pessoas se arrisquem, mesmo sem o FAC ; que ele julga fundamental para o avanço da cidade.











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