Criação em família

Criação em família

Gabriel F. criou, com o irmão, a Companhia Teatro de Açúcar há 10 anos. Hoje, faz parte do conjunto artístico do Saint-Étienne, na França

Gabriela Walker Especial para o Correio
postado em 09/09/2018 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


Gabriel F., 35, queria ser diretor de cinema, mas se encontrou nos palcos de teatro. De Ceilândia à França e à Espanha, onde reside atualmente, ele tem ganhado espaço e reconhecimento com um trabalho intenso e reflexivo, que explora complexidades humanas em produções multilíngues. Em parceria com o irmão, o também ator e diretor Marco Michelângelo, 33, ele criou, em 2007, a Companhia Teatro de Açúcar, com a qual apresentou 12 espetáculos.

Durante a infância em Ceilândia, Gabriel e Marco trabalhavam juntos na concepção de textos, que sonhavam transformar em roteiros. A música também entrou cedo na vida dos dois e, na faculdade, assumiram trabalhos conjuntos de criação musical e composição de trilhas sonoras para diversas montagens.

;Lembro que o curso de cinema da UnB era relativamente acessível. Mas, exatamente no ano que eu fiz vestibular, eles juntaram os cursos em comunicação social e a concorrência ficou muito maior;, conta Gabriel, que mantém viva a vontade de explorar a linguagem cinematográfica.

Sem sucesso na prova, ouviu da mãe a sugestão de investir na faculdade de teatro como alternativa. ;Ela disse: sei que não é a mesma coisa, mas vi que no Dulcina tem curso de direção teatral, talvez seja uma forma de começar.;

A Faculdade Dulcina de Moraes foi a porta de entrada para os dois irmãos nas artes cênicas, mas não foi um começo fácil. Gabriel tinha pânico de estar em cena e queria trabalhar exclusivamente com direção. Forçado pelo currículo acadêmico, ele começou a se envolver e gostar das outras funções, foi vencendo a timidez e ganhando confiança. ;Descobri que o que me assusta mais é a insegurança do processo de criação. Depois que existe um personagem criado, eu me sinto mais à vontade para estar em cena;, explica.

Antes de se dedicar à própria companhia, Gabriel trabalhou em peças com Miriam Virna, Adriana Lodi e com os irmãos Adriano e Fernando Guimarães. A estreia do Teatro de Açúcar, com a montagem Além do que se vê, foi fruto de um processo de criação, que teve parceria com amigos da faculdade, e deu início à Trilogia sobre o tédio e o tempo. A peça recebeu quatro indicações ao Prêmio SESC do Teatro Candango de 2008 e venceu nas categorias melhor atriz, com Eli Moura, e melhor cenografia, com Gabriel e Marco.

Desde então, foram vários os prêmios conquistados pelo grupo que, segundo explica Gabriel, tem ;o trabalho fundamentado principalmente na interpretação e na dramaturgia;.

Mudança
Pouco depois da estreia da cia, ele mudou-se para a Espanha. Apaixonado por um bailarino espanhol, Gabriel trocou de continente, mas manteve o trabalho com montagens brasilienses. De Brasília, o irmão e a família ajudavam com a parte administrativa, mas dificuldades de produção levaram a dupla a repensar a cia.

;Por volta de 2012, o Marco pensou em se dedicar mais à música e eu estava trabalhando com produção de dança na Espanha. A gente desanimou e pensou em parar;, conta. Chegaram a anunciar o fim do grupo, durante a estreia do espetáculo A vida impressa em xérox.

A repercussão da peça e do monólogo Adaptação, apresentado como um ;espetáculo póstumo;, fez com que retomassem o ânimo e resgatassem o Teatro de Açúcar. ;Quando a gente decidiu acabar, foi que percebemos os frutos do que a gente tinha construído. Surgiram propostas de apresentações e pensei: ;Não vamos recusar trabalhos;;.

Em 2014, Gabriel apresentou o Adaptação no festival Cena Contemporânea e conquistou a atenção de Arnaud Meunier, diretor do centro de teatro La Comédie de Saint-Étienne. ;Apesar de não ter entendido muito do texto, ele disse que sentiu a energia, a reação do público, toda a linguagem não necessariamente verbal do espetáculo.; Da apresentação surgiu uma amizade e Arnaud convidou o brasileiro para uma residência em Paris.

Com a oportunidade, Gabriel se forçou a aprender francês e construiu um espetáculo especialmente para o centro. A parceria se solidificou e, neste ano, ele se tornou parte do conjunto artístico oficial do Saint-Étienne. Ainda em parceria com centro, Gabriel trabalha em um projeto de adaptação de oito autores brasileiros e oito franceses, que terão as obras traduzidas e apresentadas ao público em 2019.

Ele também participou da campanha de divulgação do Saint-Étienne, ao lado do amigo e fotógrafo Diego Bresani. Em fevereiro, a dupla volta para a França para produzir a campanha do próximo ano. ;Um trabalho foi puxando o outro;, resume.

Desde 2016, o brasiliense se concentra na concepção de um novo projeto, que explora a ideia de fim do mundo. ;Não sei ainda o que vai ser, se um espetáculo ou talvez até um livro;, diz.

O Teatro de Açúcar retorna aos palcos do Brasil em 2019, para comemorar os 10 anos da estreia. Entram em cartaz os espetáculos Adaptação, Naufragé(s) e La Isla Flotante, que está sendo traduzido para português. Eles também organizam o lançamento de um fotolivro sobre a história do grupo.



;Quando a gente decidiu acabar (o Teatro de Açúcar) foi que percebemos os frutos do que a gente tinha construído. Surgiram propostas de apresentação e eu pensei: ;Não vamos recusar trabalho;;
Gabriel F.










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