De novo, aquele frio na barriga

De novo, aquele frio na barriga

O maior fotógrafo do teatro brasiliense, Diego Bresani, conta sobre a emoção de voltar aos palcos como diretor no último Cena Contemporânea

Marina Adorno Especial para o Correio
postado em 09/09/2018 00:00
 (foto: Arthur Menescal/CB/D.A Press)
(foto: Arthur Menescal/CB/D.A Press)


O brasiliense Diego Bresani, 35 anos, nasceu e cresceu em meio a uma família de artistas. No apartamento onde cresceu, na 309 Norte, a arte fazia parte do dia a dia e era sempre estimulada. ;Minha mãe é fotógrafa; meu pai é médico, mas tenho um irmão mais velho (por parte de pai) que também é fotógrafo; meu irmão mais novo é do teatro e o caçula é médico e músico também;, enumera. Além disso, Diego ressalta que havia muita liberdade para cada um seguir o caminho que achasse melhor.

Por influência da mãe e do irmão mais velho, sua primeira relação com as artes foi através da fotografia. Quando chegou o momento de escolher um curso superior, pensava fotografia ; mas o curso não existia em Brasília e deixar a cidade não era uma opção. Como já gostava das artes cênicas, optou por estudar a área na Universidade de Brasília (UnB).

;Sempre quis estar na UnB, sempre gostei muito de Brasília e sempre quis trabalhar com o Hugo Rodas, então fiquei;, conta. Na mesma turma de Diego, estavam o ator Juliano Cazarré, a cantora Ellen Oléria e a atriz Ada Luana, com quem se casou.

A História de Jerry e o cachorro foi a primeira peça que dirigiu, quando ainda era estudante, como parte da matéria de introdução à direção. Fez apenas uma cena, mas o resultado despertou a vontade de montar o espetáculo e viajou o Brasil inteiro com a peça. Em São Paulo, foram indicados pela revista Veja entre as cinco melhores peças da capital paulista.

Formou-se em 2006, e foi para Nova York fazer um curso de fotografia, acompanhado da atriz e namorada, na época, Ada. Quando retornou para Brasília, trabalhou ao lado do iluminador Dalton Camargo, e acabou se dedicando um pouco mais ao lado fotógrafo.

Depois, criou o grupo S.A.I (Setor de Áreas Isoladas) e dirigiu mais três peças. Segundo Diego, apenas a última fez sucesso. As outras duas foram um fracasso de público e, por essa razão, ele se afastou do teatro e voltou para a fotografia. ;Estava cansado de lutar com o público de Brasília, que é muito difícil. As pessoas não contemplam os artistas da cidade, só queriam saber de globais e besteirol;, critica.

De volta à direção
Diego ressalta que, curiosamente, eles têm mais público quando desembarcam com uma peça no Rio ou em São Paulo. ;Não é porque conhecem a gente, é porque estão acostumados a ir ao teatro;, observa. A maior lição que o diretor aprendeu com os fracassos foi a força que tem como artista em Brasília e lutar contra um sistema. É estar sempre batalhando para fazer as pessoas irem assistir às suas peças. ;Não existe meio termo no teatro, quem tá em Brasília trabalhando com teatro hoje faz isso porque é apaixonado.;

O encerramento do amor, peça apresentada na última edição do Cena Contemporânea, marcou seu retorno como diretor depois de seis anos. A ideia e o convite partiram de Ada, que sempre gostou desse texto do francês Pascal Rambert. A peça consiste em dois momentos: o ator João Campos fala por 50 minutos e, depois, Ada se apresenta por outros 50. ;É uma peça relativamente fácil de montar, não precisa de cenário, luz, nada. Só dois atores muito competentes.;

Diego confessa que esses dois atores precisaram ser insistentes para convencê-lo a dirigir o espetáculo e conta que, durante os ensaios, tentou desistir, mas Ada e João não deixaram. ;Foi bom voltar para o teatro. O frio na barriga quando as portas se abrem e o público começa a entrar, a reação imediata com aplausos, lágrimas e abraços. Isso é muito bom!”, admite.

Apesar dos momentos de crise que viveu nos últimos anos com a profissão, Diego afirma que apenas no dia da estreia percebeu o quanto o teatro, e essa sensação, estava fazendo falta em sua vida. Agora que o lado diretor de Diego Bresani foi novamente despertado, ele faz planos para executar projetos que já planeja há muito tempo, como a peça Mas não se matam cavalos. Porém, vai elaborar um projeto e inscrevê-la no Fundo de Apoio a Cultura (FAC).

Dentre os grandes sonhos do diretor estão poder viajar o mundo com uma peça e conhecer novos lugares e pessoas, mas principalmente ter um público mais forte na sua cidade natal. ;Quero que as pessoas daqui criem o costume de assistir às peças de Brasília e também que a gente tenha espaços mais ativos;, conclui Diego Bresani.


;...Quando as portas se abrem e o público começa a entrar, a reação imediata com aplausos, lágrimas e abraços. Isso é muito bom!”
Diego Bresani












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