Se não for para provocar, nem vai

Se não for para provocar, nem vai

Ada Luana descobriu-se atriz aos 15 anos. Para ela, teatro bom é o que transforma. Não basta ser bonito

Marina Adorno Especial para o Correio
postado em 09/09/2018 00:00
 (foto: Arthur Menescal/CB/D.A Press)
(foto: Arthur Menescal/CB/D.A Press)


Aos 15 anos, Ada Luana tinha uma única convicção: a profissão. Decidida a cursar arqueologia, planejava mudar-se para o Rio de Janeiro para iniciar os estudos. ;Até que fui fazer uma aula experimental de teatro, por influência da minha mãe. Foi aí que tudo mudou;, diz.

Ada se lembra perfeitamente do momento em que se apaixonou pelo teatro, na Oficina dos Menestreis. ;Era um exercício básico, em que você coloca duas pessoas de frente uma para a outra e elas vão se imitando, como um espelho. A luz tava linda, a música também, foi especial. Eu amei.;

Segundo Ada, sua mãe sempre achou que ela era uma adolescente cheia de energia e encontrou no teatro uma maneira da filha, que era um pouco tímida, se expressar e socializar. Ela só não imaginava o quão importante aquele curso seria na vida da filha adolescente.

A primeira montagem da qual participou foi dentro desse curso. Noturno estreou no teatro Dulcina ; um fato que marcou a atriz pela importância histórica do local. ;A primeira estreia é muito transformadora. Quando acabou, eu senti um vazio e veio o desejo de continuar;, confessa.

Já totalmente apaixonada pelo universo do teatro, Ada deixou para trás o sonho da carreira como arqueóloga e fez o vestibular para o curso de artes cênicas da UnB. ;Mesmo morrendo de medo do (Hugo) Rodas;, brinca a atriz .

A fama do diretor era de um professor tirano e Ada acredita que ele é um grande farejador de medo em atores, porém sempre o admirou e era uma das poucas pessoas que tinha coragem de contestá-lo durante as aulas. ;Aos poucos, fomos construímos uma relação muito amorosa. Ele foi meu padrinho de casamento com o Diego (Bresani);, comenta.

Para a brasiliense Ada Luana, 35 anos, a maior dificuldade de ser atriz em Brasília é lidar com a falta de respaldo que os atores têm com seu trabalho para conseguirem serem reconhecidos nacionalmente e se solidificarem como uma companhia atuante ; Ada também faz parte da S.A.I, Companhia de Teatro Setor de Áreas Isoladas.

;É preciso mais apoio, não só do nosso governo, mas da nossa cidade. Que valorizem mais seus artistas e a produção local, para que a gente não fique para sempre em uma posição inferior em relação a cidades como Rio e São Paulo;, defende.

Por essa razão, entre outras, a atriz já pensou em deixar a cidade. Quando foi para Paris, em 2014, para fazer o mestrado na Universidade Sorbonne Nouvelle pensou em ficar na França. Porém, ao final do curso, ela percebeu que não queria ficar no exterior. ;Tenho uma relação com Brasília que é muito forte, me dói pensar em sair daqui;, reconhece Ada. Pensa em expandir sua carreira para o Brasil e mesmo para o exterior, porém sem abandonar a cidade-natal que tanto ama.

Ada acaba de viver a personagem mais marcante de sua carreira, segundo ela própria, na peça O encerramento do amor, durante a 19; edição do Cena Contemporânea. ;É o maior exercício que eu já passei como intérprete de linguagem. É um texto de dramaturgia contemporânea que não tem pontuação. São 19 páginas para mim e 25 para o João (Campos). O desgaste maior foi colocar esse texto em mim e trazer toda uma partitura corporal para isso e, ao mesmo tempo, seguir as orientações de direção.;

A peça trata do fim de um casamento de uma maneira profunda. Ada acredita que causa, ao público, dor e questionamento. ;Eu acredito que o teatro é isso, é bom quando provoca transformação. Quando é só bonito, para mim, não vejo muita razão de ser.; Em outubro, a peça estará em cartaz no Teatro Garagem.


;É preciso mais apoio, não só do nosso governo, mas da nossa cidade. Que valorizem mais seus artistas e a produção local, para que a gente não fique para sempre em uma posição inferior em relação a cidades como Rio e São Paulo;
Ada Luana











Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação