Um novo olhar sobre o diabético

Um novo olhar sobre o diabético

Conviver com a doença que afeta mais de 14 milhões de brasileiros não é fácil. Por meio de uma rede de ajuda, pacientes tentam tornam a vida mais fácil

Por André Baioff*
postado em 09/09/2018 00:00
 (foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

Picadinha nos dedos para o teste da glicemia, aplicação de insulina algumas vezes por dia, procura por um estilo de vida mais saudável. Essa é a rotina de uma pessoa diabética que, diariamente, busca a melhor maneira de lidar naturalmente com sua condição. Influenciadores, ativistas e especialistas têm usado as redes sociais como ferramenta para falar sobre o diabetes de forma franca e direta.

O início, porém, nem sempre é fácil. O diagnóstico assusta e, geralmente, faz as pessoas negarem a doença, dificultando o tratamento. É preciso, então, empoderar o paciente, ou seja, capacitá-lo para que tenha o direito de fazer as próprias escolhas sobre sua saúde.

E a família tem um papel importante nesse processo. ;Ela deve adquirir hábitos saudáveis para promover uma melhor qualidade de vida a todos, além de ser solidária com as pessoas com diabetes;, diz Vanessa Pirolo, coordenadora de advocacy da ADJ Diabetes Brasil, associação formada por pais de crianças e adolescentes com a doença.

Após o diagnóstico, a procura por informação é sempre o melhor caminho. A endocrinologista Denise Franco acredita que, para ter sucesso, o tratamento precisa seguir várias frentes, o que nem sempre ocorre. Ela exemplifica que, geralmente, o primeiro medicamento receitado após a descoberta da doença é o metmorfina. Mas, por falta de um diálogo mais aberto entre médico e paciente, muito deixam de tomá-lo no primeiro mês. ;Na faculdade, não somos ensinados a ter um contato mais humano, e isso dificulta o entendimento do paciente;, explica.

E, como o automonitoramento fará parte da rotina do diabético, o melhor remédio é ensiná-lo adequadamente. ;O profissional de saúde precisa explicar, de forma didática, a doença, a medicação e a sua aplicação;, detalha a médica.

Ativismo

A notícia do diagnóstico é um impacto na vida de qualquer pessoa. Alguns, porém, buscam dar um sentido ao problema, como foi o caso da jornalista Vanessa Pirolo, 37 anos, ativista da ADJ Diabetes Brasil. Na época da graduação, ao participar de uma campanha de verificação de glicemia feita por estudantes de nutrição, descobriu que o seu índice estava em 432mg/dL, muito acima do considerado normal.

Após procurar um médico e com a confirmação do diabetes em mãos, a reação inicial de Vanessa foi de negação, seguida de pena, raiva e ódio. Ela achava que a julgariam como doente e, durante meses, não contou nem aos mais próximos. Foi um longo processo até entender que, se quisesse viver bem e com qualidade, precisaria se cuidar.

Nesse período, começou a frequentar a ADJ Diabetes Brasil e tornou-se voluntária. Depois, virou conselheira, assessora de imprensa e hoje é consultora de projetos da instituição. ;Então, aceitei o diagnóstico. Comecei a me tratar, falei com minha médica, pesquisei e estudei muito sobre o assunto.;

No caso de Vanessa, ela tem o tipo 1 (leia quadro), ou seja, por ser uma condição autoimune, a alimentação e o estilo de vida não interferem no diagnóstico. ;Sempre tive uma dieta balanceada. Mas comecei a prestar ainda mais atenção aos rótulos;, relembra. Além disso, atividades físicas se tornaram usuais na vida dela.

*Estagiário sob supervisão de Sibele Negromonte

Curiosidade
Existe registro da doença datado de 1500 anos antes de Cristo. O nome diabetes vem desde o século 2 e significa sifão, pelo fato de o paciente ingerir muita água e urinar sem parar. Muito tempo depois, por causa do gosto doce da urina, acrescentou-se mellitus, que significa mel. Daí, o nome diabetes mellitus. Hoje, em vez de tipicar como diabetes tipo 1 ou tipo 2, é comum dizer DM1 ou DM2.



Doce desafio

Diabetes é uma condição que exige atendimento multiprofissional. Na Universidade de Brasília (UnB), desde de 2007, o Instituto Doce Desafio atende a diversos diabéticos do Distrito Federal a fim de informá-los sobre a doença.

O educador físico Rafael França de Medeiros Dantas, 35 anos, diretor administrativo do instituto, explica que o Doce Desafio propõe uma educação em diabetes diferenciada, por meio de dinâmicas como debates, vídeos e outros meios para prender o interesse dos frequentadores.

Lá, o diabético obtém informações valiosas para o bom desempenho do tratamento, como calcular a resistência à insulina, conhecer o fator de correção (para saber ao certo a quantidade de insulina que deve injetar) e aprender a contagem de carboidratos. ;Depois de passar pelo treinamento, o paciente começa a fazer todo o processo sozinho em casa;, garante.

Rafael defende o empoderamento do diabético como peça-chave do tratamento. Ele garante que, como conversa abertamente sobre a doença com os frequentadores do instituto, constrói um forte elo de confiança. ;A capacitação dos profissionais de todas as áreas que atuam especificamente com diabetes deveria ser obrigatória, principalmente a médica;, acredita.

Para ele, muitas vezes, o problema é que o médico não tem tempo suficiente com o paciente para ensiná-lo a conviver com a doença. No Doce Desafio, na lida diária com os diabéticos, Rafael ouve muitas reclamações da dificuldade em receber essa orientação. ;Um dos grandes desafios é adaptar as informações técnicas de forma que o atendido seja compreendido.; Qualquer pessoa com a doença pode participar gratuitamente das atividades do programa.

A doença em números
  • O Brasil ocupa o 3; lugar em números de crianças e adolescentes com diabetes tipo 1.
  • No mundo, 16,2% é a proporção de nascidos vivos afetados pela hiperglicemia.
  • O Brasil é o 5; país em número de indivíduos acima de 65 anos com diabetes.


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