A voz da Justiça

A voz da Justiça

Cid Magalhães foi personagem conhecido na vida musical da cidade, criador de Brasília, Capital da Esperança

Por Paulo Pestana Especial para o Correio
postado em 09/09/2018 00:00
Juiz é autoridade em qualquer lugar. Até no samba. Há mais de 20 anos Gláucia vem julgando casos, alguns cabeludos ; hoje é titular do Juizado Especial Criminal de Taguatinga ; mas quem a conhece longe do malhete (aquele martelinho que serve para o juiz pedir silêncio na corte e chamar o meirinho) e sem a toga, sabe que dentro dela vive uma sambista.

Na verdade, a cantora nasceu bem antes da magistrada. Ainda menina, na Passa Quatro natal, essa mineira invade rodas de músicos para cantar, o que pode explicar seu amplo repertório. Quando o pai decidiu abrir um boteco, tratou de reservar um lugarzinho em que a menina pudesse soltar a voz.

Mesmo depois de assumir a vetusta posição de juíza ; foi ela quem instituiu a Justiça itinerante no DF ; continuou espantando seus males. Participava das rodas da Peixaria do Deraldo, costuma dar uma canja no Grao e onde mais tiver um violão e um povo batucando; e chegou a lançar um disco produzido pelo falecido Evandro Barcellos, com músicos da cidade.

Fez uma música em homenagem aos brasilienses pioneiros da Vila Planalto e outra sobre os primórdios do samba no Rio de Janeiro, criando uma ponte, sedimentada agora com seu segundo disco, Essa Moça, que está sendo lançado. No Rio ela já cantou, em Brasília vai cantar em novembro, no Clube do Choro; e vai reafirmando seu compromisso com o samba.

No disco ela ainda tem as participações de Nelson Sargento e de Toninho Nascimento, além de músicos da categoria de Carlinhos 7 Cordas (o do samba, não o do choro) e Rildo Hora, entre outros bambas. Com arranjos caprichados e um repertório impecável, é uma bela rendição ao que o samba tem de melhor.

E Glaucia não está sozinha. O prédio do fórum de Brasília foi batizado com o nome do desembargador Milton Sebastião Barbosa, mas bem que poderia se chamar Cid Magalhães, codinome que ele escolheu para esconder a identidade do compositor de versos chorosos.

As personalidades do Dr. Milton e Cid conviviam com harmonia, segundo as pessoas próximas. O zelo que cuidava dos processos era o mesmo dedicado às canções, que seguiam as tendências da era pré-bossa nova. Eram boleros, sambas-canção e até tangos, quase sempre canções de desilusão.

Cid Magalhães foi personagem conhecido na vida musical da cidade, criador de Brasília, Capital da Esperança, samba-exaltação gravado por Jorge Goulart, em 1960, com versos mais que ufanistas. Mas ficou mais conhecido pelas palavras derramadas de Por Uma Noite Ainda, bolero gravado pelo exagerado Orlando Dias, que terminava todas as canções aos prantos, sacudindo um lenço, com lágrimas dedicadas à finada esposa.

A música de Cid Magalhães extrapolou as fronteiras brasileiras quando o consagrado Bienvenido Granda, cubano conhecido pela alcunha de ;o bigode que canta;, gravou Secreto, canção também registrada por Francisco Petrônio e Miltinho. Ele teve dezenas de canções registradas por diversos cantores, de Wilson Miranda a Waldick Soriano.

Uma coisa é certa: a Justiça em Brasília pode ser cega, mas com certeza não é surda.

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