Olhai pelos pobres...

Olhai pelos pobres...

» ALESSANDRA AZEVEDO » MARÍLIA SENA*
postado em 14/09/2018 00:00
 (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)


A campanha eleitoral na televisão e no rádio começou oficialmente há duas semanas, mas, até agora, nenhum candidato à Presidência da República conseguiu convencer os eleitores mais pobres de que é o nome mais qualificado para resolver os problemas que eles enfrentam. Nas famílias de menor renda, a batalha está praticamente empatada entre cinco candidatos, de espectros bastante variados: Ciro Gomes (PDT), Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (Rede).

Com intenção de voto entre 10% e 14%, segundo a última pesquisa do Ibope, os cinco brigam para se consolidar como a melhor alternativa para pelo menos 16,8 milhões de eleitores brasileiros. Esse é o número de pessoas entre 18 e 69 anos ; faixa que é obrigada a votar ; que ganham até um salário mínimo por mês (R$ 954, atualmente), de acordo com o levantamento mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Nesse grupo, o índice de indecisos subiu de 10% para 12%, entre 20 de agosto e 11 de setembro, enquanto, no geral, caiu de 9% para 7%, pela pesquisa do Ibope. Embora a demora maior para que eles se informem e escolham um nome seja um movimento natural, que costuma se repetir em todas as eleições, desta vez há um fator novo: o surgimento de Haddad, que substituiu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última terça-feira, como candidato do PT.

Nesse grupo, Haddad conta com 10% das intenções de voto. Em agosto, tinha 4%. Nessa escalada, ganhou alguns dos votos de quem havia optado por outro candidato de esquerda ou de centro, enquanto o PT insistia no ex-presidente.

É o caso de Ciro que, depois de ter subido de 9% para 14%, entre 20 de agosto e 4 de setembro, oscilou para 13% na pesquisa de 11 de setembro. Já Marina, que liderava o eleitorado de menor renda em agosto, com 16% dos votos, recuou cou para o terceiro lugar, com 12%. Perde para os 14% de Bolsonaro e os 13% de Ciro, embora os três estejam tecnicamente empatados. ;O problema é que ela perde em todas as faixas de renda, o que já era esperado devido à falta de estrutura e recursos;, explicou o cientista político Geraldo Tadeu, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Sem agradar

Os 14% que Bolsonaro consegue no grupo é uma porcentagem bem inferior aos 26% do eleitorado geral. Ele conquistou só 1% dos mais pobres desde 4 de setembro. A título de comparação, entre quem ganha mais de cinco salários mínimos ; portanto, acima de R$ 4.770 ;, 35% disseram, na pesquisa mais recente do Ibope, que pretendem votar em Bolsonaro. Ele tinha 30% desse eleitorado uma semana antes.

;Embora tenha batido na tecla da segurança pública, que é um tema importante para quem vive com menor renda, ele é praticamente o único candidato que não toca no assunto distribuição de renda, essencial para essas pessoas;, afirmou o cientista político Sérgio Praça, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ele ressaltou que Alckmin, que foi de 8% para 11% desse eleitorado desde 20 de agosto, tem um discurso menos radical, o que agrada mais. A explicação mais contundente para o crescimento do tucano nessa faixa de renda, porém, é a exposição maior desde que a campanha começou oficialmente, em 31 de agosto. Alckmin é o que mais tem tempo de televisão e rádio e o maior número de alianças entre os candidatos.

Para Caroline Pereira, 21 anos, o presidente ideal é o que prioriza a saúde pública e os mecanismos para gerar mais empregos. O voto dela será no candidato que considerar ;mais sensato; e apresentar propostas para reverter o quadro econômico do país. Autônoma há dois anos, Caroline se diz temerosa devido à falta de oportunidades de emprego. ;Trabalho como vendedora de títulos de capitalização, só recebo quando vendo algum. O meu salário não chega a um salário mínimo;, contou.

* Estagiária sob a supervisão de Leonardo Meireles

Desiludidos

Além de não saber em quem votar, a parcela que ganha até um salário mínimo é a mais desiludida com o futuro do país e menos satisfeita com o momento atual, de acordo com o levantamento do Ibope. Perguntados como se sentem em relação à vida que levam hoje, 38% se disseram insatisfeitos ou muito insatisfeitos. Quando são levados em conta os eleitores de todas as faixas de renda, esse índice cai para 32%. Além disso, em relação ao futuro do país, 53% do grupo de menor renda estão pessimistas ou muito pessimistas, enquanto, no eleitorado em geral, a fatia é de 50%.

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