Seis meses de impunidade

Seis meses de impunidade

Assassinatos da vereadora do Rio e do motorista dela, Anderson Gomes, ocorridos em março, seguem sem solução. Autoridades públicas se limitam a dizer que investigação está "sob sigilo". Crime será tema de debate na ONU

OTÁVIO AUGUSTO
postado em 14/09/2018 00:00
 (foto: Mário Vasconcellos/AFP - 28/11/17
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(foto: Mário Vasconcellos/AFP - 28/11/17 )




;O caso segue sob sigilo.; Nos últimos seis meses, as autoridades públicas fluminenses repetiram essa frase um sem-número de vezes para justificar a ausência de informações na investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista dela Anderson Gomes, no centro do Rio de Janeiro. Hoje, a execução completa seis meses e, até agora, ninguém foi responsabilizado pelos 13 tiros.

Na próxima semana, o caso será tema de debate no Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça. A viúva de Marielle, a arquiteta Mônica Benício, participará de uma comitiva formada por integrantes de ONGs para denunciar a demora nas investigações.

;A dor é, de certa forma, um combustível para poder se manter na luta. É motivador ver pessoas que falam que nossa luta está inspirando, que Marielle continua sendo um símbolo de esperança. É sempre ;estamos trabalhando;, ;estamos andando;, mas não tem consistência (a investigação);, lamenta Mônica.

Aterrorizante e inaceitável é como o advogado João Tancredo, que representa as famílias de Marielle e Anderson, classifica a apuração. ;É preciso que se jogue luz sobre a investigação. Sem transparência, não temos a mínima ideia dos caminhos dos investigadores. Até o momento, só se sabe qual foi o armamento utilizado para matá-los: uma submetralhadora HK MP5, da qual existem poucos exemplares no Brasil e cujo uso é exclusivo das mais altas forças de segurança;, critica.

Apesar de cinco suspeitos terem sido presos, João defende apurações mais amplas. ;As suspeitas divulgadas sobre a autoria de milicianos me parecem infundadas ; Marielle não tinha confronto com eles ; e podem ter levado a investigação para um labirinto sem saída. É preciso ampliar o leque das investigações. Assim, ao menos, se eliminariam possibilidades;, emenda.

Uma petição que cobra celeridade na apuração conta com 165 mil assinaturas, sendo 97 mil, de brasileiros. Ao todo, pessoas de quatro países manifestaram apoio ao documento. Hoje, a Anistia Internacional vai levar um telão de LED 360;, de 5 metros, com o questionamento: ;Quem matou Marielle Franco?; A mensagem passará em frente a algumas instituições estatais e do sistema de Justiça criminal no Rio de Janeiro.

Ontem, o Correio enviou perguntas para a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, para as polícias Civil e Militar do estado e para o Ministério da Segurança Pública, mas nenhum dos órgãos respondeu. Todos informaram que o crime continua em investigação pela Divisão de Homicídios, ;sob sigilo;.

O Gabinete de Intervenção Federal garante que as apurações continuam sendo conduzidas pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio, sob controle do Ministério Público Estadual. ;As investigações prosseguem sob sigilo, a fim de que possam ser obtidas as provas necessárias à elucidação do crime;, destaca o órgão, em nota.

Monitoramento
Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional, acredita que é preciso acompanhar de perto o andamento do caso. ;É fundamental a constituição de um mecanismo independente para monitorar as investigações e prestar esclarecimentos à sociedade. As autoridades públicas responsáveis pelo caso têm o dever de resolver esse crime. Cada passo que se teve até agora só aconteceu por causa da pressão;, afirma.

Para ela, as autoridades responsáveis tiveram tempo para dar respostas contundentes. ;Passou-se muito tempo, e é inadmissível que não tenhamos resposta neste momento. Impunidade não é resposta. As autoridades devem respostas a essas duas famílias;, critica.

A ativista ainda levanta uma suspeita. ;Estamos diante de um cenário muito preocupante. O assassinato, muito provavelmente, contou com a participação de agentes do Estado;, afirma.



165 mil

Total de assinaturas numa petição que cobra informações sobre o caso


Os suspeitos

Alan de Moraes Nogueira
; O ex-policial militar, conhecido como ;Cachorro Louco;, foi preso em julho. Ele é acusado de ser um dos ocupantes do veículo onde estavam os assassinos de Marielle e de Anderson.

Orlando Curucica
; O ex-policial militar Orlando Oliveira de Araújo, conhecido como Orlando Curucica, é investigado como suspeito de participação na execução. Ele comandava uma milícia em Jacarepaguá.

Marcello Siciliano

; O vereador do PHS é apontado como o mandante do crime. Testemunha afirma que ele desejava a morte de vereadora por sua crescente influência na Zona Oeste do Rio.

Luís Cláudio Ferreira Barbosa

; O ex-bombeiro foi preso por crimes relacionados à milícia comandada por Orlando Curicica. A polícia investiga a atuação dele na execução de Marielle.

Thiago Bruno Mendonça
; Conhecido como Thiago Macaco, foi citado por um delator como o responsável pela clonagem do carro usado pelos assassinos. Thiago está preso desde maio.

Todos os citados negam participação no crime



Entenda o caso


Perseguição e morte


Por volta das 19h de 14 de março, Marielle participou de um debate com jovens negras, na Lapa, no Rio de Janeiro. Às 21h, ela deixou o local. No trajeto, um veículo emparelhou com o de Marielle e dele foram disparados 13 tiros. A vereadora foi atingida por quatro balas na cabeça, e o motorista Anderson Gomes, por três nas costas. A munição pertencia a um lote vendido para a Polícia Federal de Brasília em 2006. A polícia recuperou nove cápsulas no local do crime. Parte das balas do lote tinha sido utilizada numa chacina em São Paulo, em 2015. O Ministério da Segurança afirmou que a carga foi roubada de uma agência dos Correios na Paraíba. Para a polícia, os assassinos observaram Marielle antes do crime, porque sabiam a posição dela no carro. Cinco das 11 câmeras de trânsito posicionadas no trajeto de Marielle estavam desligadas.


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