Trump no olho do furacão

Trump no olho do furacão

Presidente provoca mal-estar ao colocar em dúvida o balanço de mortos pela tempestade Maria, em Porto Rico, há um ano. Republicanos e democratas criticam magnata. Costa Leste se prepara para a chegada de Florence

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 14/09/2018 00:00
 (foto: Nasa/AFP)
(foto: Nasa/AFP)


A poucas horas de Florence tocar o solo de seu país, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se viu no olho de um furacão político provocado por ele mesmo. Em mais uma demonstração de sua impulsividade, o republicano contestou o número de mortos provocados pela passagem do furacão Maria, em 16 de setembro do ano passado, e culpou os democratas pelo suposto exagero. ;3 mil pessoas não morreram nos dois furacões que atingiram Porto Rico. Quando eu deixei a ilha, depois de a tempestade passar, eles tinham algo entre 6 e 18 mortes. À medida que o tempo passou, não subiu tanto. Então, muito tempo depois, eles passaram a reportar números realmente grandes, como 3 mil. Isso foi feito pelos democratas para fazer parecer tão ruim quanto possível;, afirmou Trump, em seu perfil no Twitter. Os comentários do magnata motivaram críticas de congressistas democratas e republicanos, além de autoridades porto-riquenhas.

Nancy Pelosi, líder da minoria democrata na Câmara dos Deputados, disse que Trump prefere ;seus fatos alternativos; à tragédia da perda sofrida pelas famílias em Porto Rico. ;Pior ainda, o Partido Republicano está determinado a livrar o seu comportamento ofensivo (de Trump) da responsabilização. É hora de os republicanos no Congresso voltarem a realizar a nossa função crucial de fiscalização;, declarou. Por sua vez, o republicano Paul Ryan, presidente da Câmara, advertiu que não há motivos para contestar os números. ;Foi devastador. Foi uma tempestade horrível. Eu percorri toda a ilha. É uma ilha isolada, que perdeu sua infraestrutura e a sua eletricidade por um longo tempo. Não se pôde chegar às pessoas por um longo tempo.;

O governador de Porto Rico, Ricardo Rosselló Nevares, sublinhou que as vítimas e o povo do estado ;não merecem que se questione sua dor;. ;Não é hora de negar o que ocorreu: é hora de assegurar que isso não volte a ocorrer;, pediu. ;Meu próprio avô morreu no rescaldo da tempestade. Milhares de porto-riquenhos têm histórias similares. Perderam filhos, amigos e familiares. Em vez apontar o dedo, invista no Plano Marshall para Porto Rico e na transição justa para a energia renovável;, cobrou de Trump a democrata Alexandra Ocasio-Cortez, que disputará uma cadeira na Câmara dos Deputados durante as eleições de 6 de novembro.

Kevin Trenberth ; autor de um dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, pela sigla em inglês) e cientista do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas (NCAR) dos Estados Unidos ; também não poupou o presidente. ;Trump mente o tempo todo. Para mim, é repugnante o fato de os republicanos não o enfrentarem. A eleição de novembro será quando a responsabilização ocorrerá;, previu à reportagem. Ele considerou ;vergonhosa; a resposta da Casa Branca à passagem do furacão Maria, bem como a preparação para o desastre.


Enchentes


Ontem, as bandas externas de Florence começaram a atingir a Carolina do Norte como furacão de categoria 2 na escala de Saffir-Simpson (que vai até 5), com ventos de 136km/h. A previsão é de que o olho toque o solo às 9h de hoje (10h em Brasília). ;Na madrugada passada, a parede do olho de Florence foi substituída. Isso ocorre porque as bandas em espiral circulam ao redor da tempestade, entram e cortam o suprimento da umidade para a parede do olho original, fazendo com que uma nova parede se forme em um raio maior. Apesar de isso enfraquecer a tempesade, a torna maior. O risco de inundanções extensas não diminuiu em nada;, explicou Trenberth, que não descarta a retomada de força de Florence. Até anteontem, Florence avançava como um furacão de categoria máxima. ;O furacão Florence desacelera à medida que se aproxima da costa e avança por terra. Isso vai provocar inundações extremamente perigosas;, advertiu a Agência Federal para o Manejo de Emergências (FEMA).

Mais de 1,3 milhão de pessoas fugiram da rota de Florence, incluindo vários brasileiros. ;Nós deixamos a cidade por ordem do governador. Saímos eu, minha mulher, os três filhos e um casal de amigos;, relatou ao Correio o pedreiro Enermando Fernandes de Carvalho, 37 anos, que em 2016 trocou Ipatinga (MG) por Charleston, na Carolina do Sul. ;Soube que os ventos lá estão muito fortes e chove bastante. Acho que muitas casas inundarão;, disse o mineiro, que está refugiado em Tampa, na Flórida. A carioca Márcia Ferreira, 39, também atendeu às ordens do governo e deixou Goose Creek, na Carolina do Sul, rumo a Orlando, também na Flórida. ;Todos estamos muito apreensivos e ansiosos para que tudo isso passe logo. Mas a quantidade de chuva que deverá cair será muito intensa e certamente causará inundações.;


Vexame na ilha
Donald Trump demorou 17 dias para visitar Porto Rico, após a passagem do furacão Maria, em 2017. Foi um vexame. O presidente deixou-se fotografar lançando um rolo de toalha de papel para desabrigados em Cavalry Chapel, na cidade de Guyanabo. ;Há muito amor nessa sala;, disse o republicano, ao fazer o gesto. Carmen Yulin Cruz, prefeita de San Juan, tachou a cena de ;insultante;. ;Essa visão terrível de Trump jogando toalha de papel e suprimentos para as pessoas não incorpora o espírito da nação americana, sabe?;, desabafou Cruz.


TUITADA

;3 mil pessoas não morreram nos dois furacões que atingiram Porto Rico. Quando eu deixei a ilha, depois de a tempestade passar, eles tinham algo entre 6 e 18 mortes. À medida que o tempo passou, não subiu tanto. Então, muito tempo depois, eles passaram a reportar números realmente grandes, como 3 mil. Isso foi feito pelos democratas para fazer parecer tão ruim quanto possível.;
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos




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