Condenando ao atraso nossas futuras gerações

Condenando ao atraso nossas futuras gerações

ÉDISON CARLOS Presidente executivo do Instituto Trata Brasil
postado em 21/09/2018 00:00



Em poucos dias, comemoraremos mais um Dia das Crianças e seremos inundados com campanhas publicitárias voltadas ao convencimento de pais e filhos por mais roupas, brinquedos, games, celulares e tantos outros presentes para ;alegrar; a vida dos pequenos. Difícil, no entanto, é comemorar o fato de no Brasil ainda termos milhares de crianças à margem das comemorações e que ainda buscam ter acesso ao mais básico do básico ; saneamento. Em pleno século 21, são milhares sem um simples banheiro, além de milhões sem água tratada e convivendo junto aos esgotos.

São vergonhosos os indicadores nacionais de saneamento básico, num país que está entre as 10 maiores economias do mundo. Números oficiais do Ministério das Cidades ; Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2016) ; mostram que ainda temos cerca de 34 milhões de brasileiros sem acesso à água tratada, quase metade da população (49%) sem coleta de esgotos e somente 44% dos esgotos gerados no país são tratados.

Os impactos são visíveis. Milhares de casos de internações por verminoses e diarreias, esquistossomose, leptospirose, hepatite A, dengue... Se não bastasse, dados do Ministério da Saúde, publicados recentemente, indicaram que, em 2016, a taxa de mortalidade na infância, crianças entre menos de um e 5 anos, registrou inédita alta, indo de 14,3 para 14,9 casos por 1.000 nascidos vivos e invertendo uma queda histórica dos últimos 15 anos. Vinte estados brasileiros apontaram alta na mortalidade infantil no ano de 2016, especialmente alguns com grandes desafios em saneamento básico, como Amapá, Amazonas, Bahia, Pará, Piauí e Roraima, onde a taxa de mortalidade média foi de 19,6 ; aumento de 14,6% em comparação a 2015.

Além dos chocantes índices nacionais e o inédito aumento da mortalidade infantil, relatório recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) Brasil confirma que são as crianças brasileiras as mais expostas aos riscos da água não potável e contato com esgotos. No estudo intitulado Pobreza na Infância e na Adolescência, a entidade mostra múltiplos indicadores das maiores carências das crianças e adolescentes brasileiros, sendo a mais gritante a privação ao saneamento básico para 13,3 milhões de crianças e jovens. Quase 22% das meninas e meninos vivem em domicílios com fossas rudimentares ou valas de esgoto a céu aberto. Ter um vaso sanitário em casa também é luxo para 3,1% das crianças e dos adolescentes do Brasil, ainda mais na área rural onde 87,5% das crianças não têm esses direitos mínimos garantidos.

Mesmo no indicador que mais avançou, o acesso à água tratada, o estudo aponta que 14,3% das crianças e jovens não têm o direito garantido, sendo que 6,8% estão na chamada privação extrema, especialmente nas regiões Norte e no Nordeste. Com relação à coleta do esgoto, os números oficiais (SNIS 2016) apontam que somente 10% da população da região Norte e 26% no Nordeste têm acesso.

Em resumo, temos um Brasil que gera trilhões na economia, um dos líderes mundiais na fabricação de aviões executivos e que possui uma das maiores reservas de água doce do mundo (Região Amazônica), mas que ainda convive com indicadores do século 19 naquilo que é mais elementar. O fato é que não conseguimos levar água tratada a todos e tratar os esgotos das residências. No melhor dos cenários, precisaríamos de mais de R$ 350 bilhões e demoraríamos duas décadas; isso se conseguirmos aumentar os investimentos em saneamento do patamar de R$ 12 bilhões (2016) para cerca de R$ 20 bilhões.

O Brasil tem compromissos internacionais de resolver a situação do saneamento até 2030, mas principalmente o dever de buscar ser um país desenvolvido. É fundamental unir esforços em prol do saneamento de forma a garantir que esta infraestrutura esteja nos planos de governo dos novos governadores e do presidente da República; formar bancada atuante no Parlamento em prol da universalização da água e do esgotamento sanitário. É fundamental promover maior integração e parceria entre empresas públicas e privadas, pois somente o investimento público não conseguirá dar conta do desafio e não podemos nos perder em discussões atrasadas, se o saneamento deve ser um ou outro ; o Brasil precisa de ambos! A inteligência está na soma dos esforços e na mobilização da sociedade, senão continuaremos gerando poluição e perdendo turismo, adoecendo nossas crianças e prejudicando a educação, condenando assim ao atraso nossas futuras gerações.



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