Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 21/09/2018 00:00
Glauber e Vladimir

Estávamos no fim da década de 1970 quando Glauber Rocha apareceu na casa de Vladimir Carvalho e fez pedidos: queria um pouco de maconha e um poema para suplemento especial sobre a Semana Santa, que editava no Correio Braziliense: ;Pega alguma coisa do seu baú de poemas;, ordenou.

Vladimir ficou desconcertado com o primeiro pedido, porque nunca se interessou por aditivos químicos e ganhou inclusive o apelido de ;boêmio Lindoia;, pois em suas errâncias pelos bares só tomava água mineral. Ou seja: era caretíssimo.

Eu também sou do mesmo signo de Vladimir: aquário. Sem querer contar vantagem, nós nascemos lisérgicos, não precisamos usar nenhuma droga. Nós temos energia para enfrentar as barras da vida. Com a tenacidade paraibana, Vladimir dispensa qualquer estímulo artificial. Aliás, mesmo sem usar qualquer substância que altera a consciência, em alguns momentos, tem de desacelerar.

Mas, como desatender à demanda de Glauber? Apesar do espírito de polêmica permanentemente aceso e da turbulência, Glauber quando era amigo, ele tinha muitos cuidados. Vladimir lembra de como chegou ao Rio de Janeiro na segunda metade dos anos 1960 em meio às ameaças do golpe militar. Ainda sob a euforia do sucesso de Deus e o Diabo na Terra do Sol, ao narrar as dificuldades de nordestino sem eira e nem beira, exilado no Rio, Glauber puxou Vladimir para o lado, o enlaçou pelos ombros e no estilo típico de falar diretamente no ouvido, sussurrou: ;Vem para o Rio. Fica aqui na nossa posição que a gente te dá cobertura. E para sua segurança pessoal, não diga que me viu;.

Quando chegou ao Rio, Vladimir se dirigiu à praia de Copacabana e ficou com o único e surrado sapato exposto à maré. Glauber advertiu: ;Tome cuidado, Vladimir, porque você não tem dinheiro para comprar outro;. Ao abrir o livro Revolução do Cinema Novo, de Glauber, Vladimir levou um susto quando leu seu nome: ;Lembro de Vladimir Carvalho, o Rosselini do sertão, Vertov das caatingas, Flaherty de Euclides da Cunha.;

Por todas essas razões, Vladimir não poderia negar um pedido a Glauber. As gestões foram complicadas, enfrentando gozações de todos os lados. No fim das contas, Vladimir conseguiu a ;erva;. E quanto ao segundo pedido, Vladimir não tinha nada no baú, mas escreveu o poema e ficou sem nenhuma dívida com Glauber: ;À frente o caminho,/o horto deserto,/A mesa sem vinho. Percutem o vento e o chicote,/uma sensação de cardos/sobre a fronte./A vida se desprende num filete/Síncope e esfumatura;/Uma grua o sustém no alto./Por fim, o close fatal e o sudário;. O que a gente faz por um amigo!

PS: A história da crônica foi extraída do livro Jornal de Cinema, de Vladimir Carvalho

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