Os 90 anos do Opus Dei

Os 90 anos do Opus Dei

» IVES GANDRA MARTINS FILHO Ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST)
postado em 02/10/2018 00:00


Há 90 anos, um sacerdote espanhol de 26 anos, fazendo seu retiro em Madri, recebia uma iluminação de Deus, que respondia a uma inquietação que lhe vinha no coração desde os 16 anos, quando vira umas pegadas de pés descalços na neve, de um carmelita, e que o movera a entrar no seminário, tocado pelo que via pessoas serem capazes de fazer de sacrifício por amor de Deus. Em 2 de outubro de 1928, S. Josemaria Escrivá dizia que ;viu; o Opus Dei: homens e mulheres buscando a perfeição cristã no meio do mundo, pela santificação do trabalho e da família, numa época em que o ideal de santidade era visto como exclusivo de padres, monges e freiras.

Naquele dia, quando ordenava os papéis de suas anotações de retiro, e ouvia os sinos da Igreja de Nossa Senhora dos Anjos tocando perto dali, percebeu que o que Deus lhe pedia era dedicar-se a difundir uma mensagem ; da santificação do trabalho ; e de fundar uma instituição ; a que chamou depois ;Opus Dei;, Obra de Deus ;, que organizasse os mais diversos meios de formação, no que chamava ;Uma Grande Catequese;, para vencer a ignorância reinante sobre a própria mensagem cristã: recolhimentos, retiros, palestras, aulas, conversas... organizadas em centros de formação, colégios, universidades, hospitais, escolas agrícolas... para universitários, operários, camponeses... de todas as profissões, cores, credos e línguas... Em suma, sem distinções sociais, políticas, econômicas, de gênero ou de raça, pois como dizia, ;só há uma língua e raça no mundo, a dos filhos de Deus;.

A mensagem central do Opus Dei foi acolhida pela Igreja Católica no Concílio Vaticano II a ponto do papa Paulo VI dizer que Mons. Escrivá foi precursor do concílio naquilo que este teve de mais revolucionário: o reconhecimento da ;chamada universal à santidade;, conforme consta da Constituição Dogmática ;Lumen Gentium;. Ou seja, todos os batizados estão chamados a buscarem esse ideal de excelência ética combinado com a excelência técnica: bons cristãos, bons profissionais, bons pais e mães de família.

Essa mensagem se faz mais premente em tempos nos quais os valores morais, cristãos e familiares são colocados em xeque. Não é por menos que o fundador do Opus Dei começava seu livro ;Caminho; com um ponto de reflexão que marca o ideal de todo cristão, a imitação de Cristo: ;Que a tua vida não seja uma vida estéril. ;Sê útil. ; Deixa rasto. ; Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor. Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. ; E incendeia todos os caminhos da terra com o fogo de Cristo que levas no coração;.

Como dizia Arnold Toynbee, no seu Um Estudo da História, quando a realidade macro nos parece esmagar, pelas suas perspectivas assustadoras de uma civilização em degradação, o olhar para o micro, de que o mal está em nós mesmos, pelas nossas faltas e pecados, torna a solução mais acessível. Assim, podemos lutar contra os nossos defeitos e ajudar os que fazem parte do meio ambiente laboral, familiar e social a que pertencemos a serem melhores, graças ao nosso otimismo, trabalho e oração, apoiados na Misericórdia Divina.

Dos 90 anos do Opus Dei, participei dos últimos 42, dedicando-me inteiramente a tornar realidade esse ideal de santificação própria e alheia, especialmente no trabalho profissional. No que a mensagem de S. Josemaria Escrivá sempre me ajudou foi em ensinar o know-how dessa santificação do trabalho: ter, todos os dias, uns momentos de meditação, para conversar com Deus sobre os problemas da vida, ajudando a enfrentá-los com a visão que Deus tem deles; frequentar mais assiduamente os sacramentos da eucaristia e penitência; procurar aproximar meus amigos de Deus; encarar o trabalho como aquilo que posso oferecer a Deus e aos demais de melhor, pela competência no que faço.

Ao evocar esses anos de Opus Dei, não posso deixar de registrar que conheci a Obra por intermédio de meus pais, Ives e Ruth ; que, para mim, são exemplo de vivência do ideal de santificação da vida profissional e matrimonial ;, quando a Obra começava no Brasil nos anos 1960. E ; coincidências da vida ; hoje lembro de dois diletos amigos da cúpula do Judiciário, que guardam relação com essa data comemorativa: o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), cujos pai e tio se empenharam em conseguir o imóvel para o primeiro centro da Obra no Brasil, na cidade de Marília; e a ministra Rosa Weber, presidente do TSE, que nasceu justamente num 2 de outubro, aniversariando junto com a Obra, como sempre lhe recordo, ao cumprimenta-la neste dia. Parabéns!

Assim, ao celebrar os 90 anos da Obra, justamente no ;Ano do Laicato;, juntamente com milhões de cristãos e não cristãos no mundo inteiro, já que também no ecumenismo S. Josemaria foi precursor na Igreja, como lembrava a S. João XXIII, concluo essas reflexões com o ponto 815 de ;Caminho;, que atualmente mais me tem estimulado na luta interior por ser melhor cristão e profissional: ;Queres de verdade ser santo? ; Cumpre o pequeno dever de cada momento; faz o que deves e está no que fazes;.

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