Perigoso para os estrangeiros

Perigoso para os estrangeiros

postado em 02/10/2018 00:00
 (foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)


O tradutor brasileiro Augusto Rosário, 50 anos, nascido em Salvador (BA), vive em Berlim há 28 anos. Ele acompanhou de perto os reflexos da crise econômica de 2008 e o surgimento das insatisfações que culminaram na ascensão da extrema direita, na divisão do país e no aumento da insegurança.

;Hoje, na Alemanha, o perigo maior não é o de um alemão ser agredido por estrangeiros. Em determinados lugares, principalmente no leste, como na Saxônia, o maior perigo é o de um estrangeiro ser atacado por neonazistas;, disse Rosário, em entrevista ao Correio.

;É preocupante o que se viu ultimamente em Chemnitz ou K;then, onde neonazistas andaram instrumentalizando a situação e aprontando;, acrescentou, ao se referir aos violentos protestos anti-imigração ocorridos recentemente. ;Mas que fique claro: trata-se de uma minoria barulhenta, mas que não deixa de ser uma minoria. A maioria da população continua aberta, continua tolerante e continua sensata;, assegurou.

Segundo o brasileiro, inicialmente, durante a crise, a população aprovava as medidas de austeridade, mas passou a se opor depois da revelação, pela imprensa, de que grandes somas de dinheiro público foram aplicadas para acudir instituições financeiras. ;O apoio acabou quando o governo alemão, como outros governos europeus, ajudou grandes bancos com bilhões de euros, enquanto pregava a necessidade de economizar, deixando até mesmo escolas sem papel higiênico, como chegou a ocorrer em Berlim;, relatou. ;De repente, escutávamos e líamos notícias sobre a injeção de somas inimagináveis para salvar bancos, ao mesmo tempo em que empresários e banqueiros saíram cheios de dinheiro.;

Para Rosário, a insatisfação popular gerou uma forte quebra de confiança nas instituições, ao mesmo tempo em que a extrema direita lançava campanhas de desinformação, o que fez com que ;mentiras espalhadas na internet não pudessem mais ser diferenciadas das notícias; publicadas pela imprensa. ;Foi nesse clima de insegurança e desconfiança que, em 2015, o governo alemão não fechou as fronteiras para centenas de milhares de refugiados que estavam na Hungria;, relatou.

A primeira reação da população foi positiva, lembra o brasileiro, e muitos voluntários ajudaram a receber os estramgeiros. ;Infelizmente, o que ocorreu depois não foi bom, pois o governo parecia não ter um plano para a integração dos imigrantes. A coisa foi mal-organizada, os problemas foram surgindo e aumentando e, com eles, a insegurança da população;, concluiu Rosário. (JV)




;Trata-se de uma minoria barulhenta, mas que não deixa de ser uma minoria. A maioria da população continua aberta, continua tolerante e continua sensata;

Augusto Rosário, brasileiro residente em Berlim


Quatro perguntas para


Kai Lehmann, professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP

Um dos efeitos da crise migratória foi o fortalecimento do populismo de extrema direita na Alemanha. Curiosamente, esse fenômeno é bem mais expressivo na região leste do país, que era, antes da reunificação, a comunista Alemanha Oriental. Como o senhor explicaria essa mudança de perfil da região?
Há uma grande variedade de fatores que podem explicar esse fenômeno complexo. O que é inegável é que a região leste do país ainda é, de longe, a parte mais pobre. O desemprego na Alemanha Oriental é de 6,8%, em comparação com 5,2% do país inteiro e 4,8% da Alemanha Ocidental. Ao mesmo tempo, houve uma reação específica contra a crise econômica de 2008 e contra a política de refugiados. É difícil dizer que houve uma ;mudança de perfil; na Alemanha Oriental. Até a reunificação, o país era governado por uma ditadura que não permitia qualquer outra opinião política. Então, não sabemos até que ponto já existiam tendências de uma opinião pública receptiva a ideias da extrema direita. Certamente, não corresponde à distribuição de refugiados dentro do país. Algumas das regiões onde a extrema direita ficou mais forte têm o menor número de imigrantes.

O leste da Alemanha tem um histórico de emigração ; foram 3,5 milhões de pessoas que fugiram para o ocidente, antes do Muro de Berlim. Hoje, essa região se opõe a receber imigrantes. Qual sua opinião sobre isso?
Isso parece uma contradição. Porém, vale a pena lembrarmos duas coisas. Primeiro, houve a fuga de alemães para outra parte da Alemanha. Não eram, nesse sentido, ;estrangeiros;. Segundo, isso já faz tempo, e hoje há uma geração que não tem lembranças da Alemanha dividia. Há um surgimento de nacionalismo, pessoas que consideram a Alemanha um país poderoso e não sentem o peso da história.

Quais dificuldades e problemas o senhor vislumbra para a chanceler Angela Merkel e para a Alemanha, como um todo, com a divisão do país e o crescimento das forças ultranacionalistas?
Nós podemos observar tendências assim em vários países.. Nos Estados Unidos, no Brasil, no Reino Unido e outros. Merkel está no último mandato, o capital político que tinha está quase esgotado, até porque muitas pessoas a culpam pela situação de hoje. O governo atual está muito fraco. Então, a tendência é de que a situação piore. Pesquisas de opinião recentes mostram que, de modo geral, o país está aberto a aceitar refugiados. A questão é se uma força política pode traduzir esse sentimento em uma mensagem política coerente e popular que possa motivar um número suficiente de eleitores. Por enquanto, isso não aconteceu. Sendo assim, é bem possível que, nas próximas eleições regionais, haja continuação do processo de polarização.

O senhor considera que há um risco considerável de a Alemanha voltar a ser governada por forças ultranacionalistas, revivendo um passado que o país luta para esquecer?
Sim, esse risco existe, certamente, no nível regional. Os dois partidos grandes estão ambos em péssimas condições, e isso pode beneficiar a AfD. Uma situação política como a da Áustria, onde a extrema direita faz parte do governo liderado pelo Partido Conservador, com um chanceler que está bem à direita dos antecessores, mesmo sendo de um dos partidos tradicionais, é bem possível, embora não garantida. (JV)





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