Feridas reabertas na festa da unidade

Feridas reabertas na festa da unidade

O país comemora amanhã 28 anos da reunificação e assiste a uma escalada da extrema direita ultranacionalista e anti-imigrantes. Conflitos se sucedem no leste, região que viveu sob o regime comunista

JORGE VASCONCELLOS ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 02/10/2018 00:00
 (foto: John Macdougall/AFP
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(foto: John Macdougall/AFP )



Na véspera de comemorar 28 anos de reunificação, amanhã, a Alemanha enfrenta um processo de polarização crescente, que reabriu feridas do passado e trouxe incertezas sobre o futuro. Os mesmos ideais que separaram os alemães durante décadas voltam a ganhar força na política e nas ruas, na esteira de insatisfações acumuladas desde a crise global de 2008. O discurso contrário à política imigratória da chanceler (chefe de governo) Angela Merkel, que resultou no acolhimento de mais de 1 milhão de refugiados, foi o argumento decisivo para a extrema direita consolidar um avanço que dividiu a nação e reacendeu o ultranacionalismo, a rejeição aos estrangeiros e as manifestações neonazistas.

Esse crescimento foi impulsionado pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que se tornou a maior legenda de oposição no Bundestag (parlamento federal), com 92 deputados, e a terceira força política do país. Estão a sua frente apenas o bloco formado pela União Democrata Cristã (CDU) e pela União Social Cristã (CSU) ; lideradas, respectivamente, por Merkel e pelo ministro do Interior, Horst Seehofer ; e o Partido Social Democrata (SPD), que integra o governo de coalizão com a CDU/CSU. Uma pesquisa de opinião divulgada no último dia 21 mostrou o AfD em segundo lugar, com 19% dos votos, atrás da CDU/CSU e à frente do SPD.

A legenda anti-imigração debutou no Bundestag após a eleição de um ano atrás, na qual o bloco de Merkel teve o pior desempenho desde a fundação, em 1949, enfraquecido pela divisão em torno da questão imigratória. O AfD, com a maioria dos apoiadores concentrada na região leste da Alemanha, mudou radicalmente a vida política no país, transformando os debates parlamentares em verdadeiros embates, com direito a gritos e insultos. Uma das expressões preferidas da bancada grupo é ;a imigração da faca;, em alusão a uma série de crimes atribuídos a estrangeiros.

Violência

O incidente mais recente foi o assassinato à faca, em agosto, de um alemão de origem cubana de 35 anos, durante uma briga em Chemnitz. Quando integrou a Alemanha Oriental, extinta na reunificação, essa cidade industrial tinha o nome de Karl Marx ; pensador que lançou o movimento comunista, em meados do século 19. Um iraquiano e um sírio foram presos para interrogatório, enquanto explodiam violentas distúrbios na cidade, definidos pelo governo alemão como uma ;caçada coletiva; a qualquer um que parecesse estrangeiro. Em vídeos postados no Twitter, manifestantes gritavam slogans como ;Fora, estrangeiros;, ;Esta é a nossa cidade; e ;Nós somos o povo; ; este último um lema que embalou a reunificação, em 1989-1990.

;Não há desculpa ou razão para o fato de pessoas perseguirem outras nas ruas, usando violência e lemas nazistas, sendo hostis a pessoas que parecem estrangeiras ou são donas de um restaurante judaico;, criticou Merkel, na ocasião, em discurso ao parlamento. ;Não vamos permitir que grupos inteiros sejam excluídos silenciosamente da nossa sociedade;, acrescentou, antes de afirmar que judeus, muçulmanos, cristãos e ateus pertencem igualmente à sociedade alemã.

A divisão em torno do tema da imigração está presente no próprio governo. No último dia 18, a chanceler demitiu o chefe da Inteligência, Hans-Georg Maassen, por suposto conluio com a extrema direita. Ele foi afastado depois de questionar a autenticidade de um vídeo que mostrava as perseguições e agressões contra imigrantes em Chemnitz.

;Os problemas que emergem na Alemanha nada mais são do que a repercussão local de problemas globais;, disse ao Correio Juliano da Silva Cortinhas, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). ;O fato de que Merkel vem buscando uma resposta diferente na questão migratória, mais cooperativa e humana do que ocorreu em outros países, é muito louvável, mas pode lhe trazer problemas políticos domésticos com os grupos de extrema direita, que vêm minando sua capacidade de governar o país.;



Palavra de especialista




Na origem, a crise econômica

Os problemas relacionados com a emergência do conservadorismo na Alemanha não podem ser dissociados de processos que vêm acontecendo no mundo todo. Há, visivelmente, uma crise de origem econômica que foi, ao longo dos anos, gerando uma sobreposição de crises e conflitos étnicos, trabalhistas, ambientais e, concomitantemente, políticos.

Em toda a Europa, os reflexos vêm sendo sentidos. Desde 2008, há um crescimento de movimentos conservadores e de pressões sobre as democracias. Nos EUA, movimentos como o Occupy Wall Street acabaram levando a uma reação conservadora, que desencadeou na eleição de Donald Trump, um populista de direita com discursos altamente xenófobos. O exemplo mais grave disso veio no Reino Unido, onde o Brexit começa a trazer graves repercussões para o continente e, em especial, para o próprio país.

Esse fenômeno mundial tem grande relação com a economia e com os reflexos dela no Oriente Médio, onde os problemas já citados se somam a dinâmicas de conflitos étnicos para gerar uma das maiores crises migratórias da história da humanidade. No caso da Alemanha, não vejo que os rescaldos da Guerra Fria e dos processos de separação e reunificação sejam as principais explicações para os fenômenos e as crises que estão emergindo no país.


Juliano da Silva Cortinhas,
professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB)


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