Charles Aznavour, cantor e compositor, 94 anos

Charles Aznavour, cantor e compositor, 94 anos

Autor de clássicos como She, o Frank Sinatra da França, como era conhecido, vendeu mais de 200 milhões de discos

postado em 02/10/2018 00:00
 (foto: Joel Saget/AFP - 16/11/17)
(foto: Joel Saget/AFP - 16/11/17)



Se Edith Piaf cantava a França dos desvalidos e esquecidos, e Charles Trenet voltava os olhos uma certa doçura provinciana, era o romantismo versado em linguagem internacional que interessava a Charles Aznavour. No total, foram mais de 1.400 músicas, gravadas em mais de 100 álbuns, em seis línguas diferentes e com um conjunto de 200 milhões de discos vendidos. Fora os 60 filmes e dezenas de peças de teatro, sobretudo na infância e na juventude. Aznavour começou a subir ao palco para atuar aos 9 anos. As mais de oito décadas de carreira se encerraram ontem, com a morte do cantor e compositor francês anunciada por seus assessores de imprensa.

;Príncipe Charles;, ;Frank Sinatra da França;, ;a voz da França;, não foram poucas nem modestas as expressões usadas pela imprensa francesa para anunciar a morte do artista ontem. O pai, Mischa, nascido na Geórgia, era filho do ex-cozinheiro do czar Nicolau 2;, e a mãe, Knar, escapou do genocídio dos armenos praticado pelos turcos. Em Paris de passagem, enquanto aguardavam um visto para viver como refugiados nos Estados Unidos, Mischa e Knar se encantaram pela capital francesa e decidiram ficar.

Shanour Vaginagh Aznavourian nasceu numa família de artistas, em 22 de maio de 1924. Com a irmã A;da, cujo talento para o piano e para o canto eram notáveis, ele frequentou os cabarets e inferninhos nos quais a música era feita ao vivo, antes da Segunda Guerra, mas foi nos palcos dos teatros que, aos 9 anos, deu início à carreira. Cantou no coro de Muito barulho por nada (Shakespeare), viveu Henri de Navarre em A rainha Margot, de Alexandre Dumas e, mais tarde, foi o protagonista de Atirem no pianista, longa de François Truffaut.

Charles Aznavour, nome artístico que adotou desde muito cedo, tinha uma bela voz, mas talvez não se tivesse tornado mito sem a ajuda de uma madrinha. A lendária Edith Piaf ouviu-o cantar, sentiu-se arrebatada por sua virilidade e o integrou ao seu show, levando-o em turnê pela França e pelos Estados Unidos. Com a môme, com quem chegou a morar, ele dizia ter tido uma relação de amor sem nunca dividir a cama.

De Piaf, além de companheiro, confidente e amigo, o cantor foi motorista, secretário e ;faz-tudo. ;Dividi com ela, até o fim de seus dias, uma espécie de amizade amorosa, de fraternidade cúmplice, sem nunca dividir a cama. Eu entrei em seu estranho universo numa noite de 1946 e toda minha existência mudou a partir dali;, dizia. Para o cantor, Piaf costumava dizer: ;Suas músicas são cheias de coisas que não podemos dizer em cena.;

Aznavour, tornou-se o cantor e compositor do amor. Poliglota, cantou ; e compôs ; os próprios sucessos em várias línguas. Que c;est triste Venise, ou Com;e triste Venezia, How sad Venice can be. Elle/She. E muitas outras.

Sua amizade com outros artistas rendeu parcerias. Elvis Costello fez uma versão de She para a comédia romântica Um lugar chamado nothing hill. Plácido Domingo gravou a versão de Aznavour para Ave Maria. E cantaram com ele Fred Astaire, Bing Crosby, Ray Charles e Liza Minnelli.

Apesar da pequena estatura, 1,60m, era um gigante no palco. O mito ultrapassou-o e, no Japão, como Char Aznable, virou personagem de uma famosa animé de ficção científica, Mobile suit guindam. No cinema, fez um pequeno papel em O testamento de Orfeu, de Jean Cocteau.

No cinema, além do trabalho com Truffaut, lançado em 1960, fez A passagem do Reno, de André Cayatte, que venceu o Leão de Ouro em Veneza, derrotando Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti. Entre os filmes importantes estão ainda Thomas l;Imposteur, de Georges Franju; Vidas em jogo/Folies Bourgeoises, de Claude Chabrol; O tambor, de Volker Schlondoreff; e Ararat, de Atom Egoyan.

Aznavour foi sempre ligado ao Canadá e à causa de Quebec Livre. Tem a ver com sua origem armênia. Em 1988, quando um grande terremoto destruiu Erevan, criou a Fundação Aznavour para a Armênia. Tornou-se embaixador honorário do país. Recebeu a Legion d;Honneur na França, o título de Herói Honorário da Armênia e o MIDEM Lifetime Achievement Award.

Recebeu também o Leão de Ouro honorário em Veneza pela trilha de Morrer de amor (André Cayatte), um César (Oscar francês) honorário e o prêmio de carreira do Festival do Cairo. Do presidente Jacques Chirac, recebeu a medalha de oficial da Légion d;honneur. Nos anos 1990, sua carreira se concentrou em apresentações como parte de eventos oficiais. Fez um recital em homenagem ao aniversário da República da Armênia, um concerto com Pláecido Domingo e outro com o maestro Mstislav Rostropovitch.

No palco, ele se manteve até recentemente. Fez concertos em 2015 e 2016 e, em 2017, cantou para 20 mil pessoas em um estádio lotado. Chegou, inclusive, a iniciar uma turnê em 2017 cujo fim estava previsto para 2018. No entanto, os últimos concertos do ano passado acabaram cancelados em consequência de uma fratura no úmero. O cantor caiu em sua própria casa. No Brasil, Aznavour se apresentou diversas vezes. A última foi em setembro do ano passado, pouco antes do acidente que suspenderia a turnê.


1.400
Número de músicas gravadas pelo artista em mais de 100 álbuns



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