O velho e o novo nas eleições

O velho e o novo nas eleições

RICARDO PINHEIRO PENNA Ex-diretor de Pesquisa da Soma Opinião & Mercado
postado em 04/10/2018 00:00
O Distrito Federal é uma unidade com características idênticas às demais da Federação. Aqui abundam graves problemas de pobreza, habitação, saneamento, transporte, saúde e desigualdades sociais.

Brasília é também muito peculiar quando comparada com aos estados. A renda per capita é 2,5 vezes maior que a média brasileira e 50% maior que a de São Paulo. Os níveis de escolaridade são mais elevados e o percentual de moradores com nível superior é de 17%, mais que o dobro da média nacional. O setor público é hegemônico e representa 55% do total da massa salarial empregando 30% do total da população economicamente ativa.

Essas especificidades têm enorme impacto no processo de formação do voto e na escolha dos candidatos. Na capital federal, grande parcela do eleitorado de renda elevada concentra suas preferências em candidatos que prometem benefícios às corporações públicas. Outra parcela, de baixa renda, é sensível às promessas de benefícios diretos e pessoais.

Assim, o eleitor candango dividiu-se em dois grupos distintos: (1) aqueles que acreditam que o Estado deve ser o principal responsável pelo crescimento econômico e redução das desigualdades sociais e (2) aqueles que esperam soluções rápidas e fáceis para os mais difíceis de seus problemas. Essas características abriram uma avenida dividida e transformaram as disputas políticas em polarizações intensas entre setores da corporação pública e o restante da sociedade civil.

A história das eleições presidenciais em Brasília confirma a tese. Na primeira eleição, em 1989, Lula derrotou Collor no DF com 67% a 37%. Em 1994, Lula bateu em Fernando H. Cardoso com 45% a 39%. Em 2002, Lula derrotou José Serra com 62% e, em 2006, derrotou Alckmin com 57%. Em 2010, Dilma ganhou de José Serra com 53% contra 48%.

As exceções ficaram por conta da reeleição de FHC, em 1998, na esteira do Plano Real, quando Lula perdeu de 40% a 30% e, em 2014, quando Dilma perdeu no segundo turno no DF. Mesmo assim, no primeiro turno, Marina Silva empatou com Aécio dividindo 36% dos votos.

Nas eleições para governador, a polarização não foi diferente. O maniqueísmo transformou os candidatos em grupos do ;bem e do mal;, dos ;preparados e dos despreparados; e dos ;honestos e dos venais;. De um lado, os rorizistas; do outro, os petistas.

As trincheiras eram profundas e perfeitas. No Plano Piloto, Cruzeiro, Guará e outras regiões de renda média elevada concentraram-se os votos da esquerda. Nas áreas com eleitores de baixa renda (Ceilândia, Paranoá, Gama, Santa Maria etc.) eram majoritários os eleitores de candidatos conservadores.

As diversas crises éticas nos últimos anos, que envolveram o governo federal e local, somadas às crises econômicas e a incapacidade de investimento do Estado, parecem ter mudado a cabeça dos eleitores. As diversas crises da política e do Estado criaram um pelotão de cidadãos descontentes em busca de ordem e segurança.

Após décadas de voto em candidatos de esquerda, com um discurso moral e politicamente progressista, os brasilienses de classe média, moradores de regiões de alta renda e escolaridade, estão conferindo a Jair Bolsonaro, de discurso ultraconservador, intenção de voto próxima a 40%, acima da maioria dos estados, como mostra a pesquisa do Instituto Opinião Pública publicado pelo Correio Braziliense.

Uma parte significativa da população brasiliense parece buscar, em primeiro lugar, a defesa da família, da segurança e da ordem na hora de escolher um candidato a presidente da República. É uma reviravolta surpreendente, principalmente entre os eleitores de renda e escolaridade elevada.

Nas eleições locais, as mudanças também são importantes. Existem três grupos com chances reais de chegar ao segundo turno. O atual governador, com votos concentrados nas regiões de renda elevada que parecem ter aprovado as intervenções na ordem urbana com a regularização de condomínios, derrubada de invasões e desobstrução da orla. Esses eleitores, menos dependentes dos serviços públicos de saúde e educação, são os responsáveis pela presença de Rollemberg no pelotão de frente na corrida para governador de Brasília.

Ainda correm no bloco da frente o grupo de ;candidatos rorizistas; que dividem entre si a preferência de eleitores com o mesmo perfil socioeconômico e usam a estratégia de extensas promessas aos servidores públicos e projetos de investimentos, muitas vezes inexequíveis, para o restante da população. O último grupo é formado pelo novato Ibaneis, que, na onda do novo, da limpeza moral e do conservadorismo, oferece seus préstimos para organizar os cacos da economia e da administração pública no Distrito Federal.

Para onde caminha o primeiro turno? Rollemberg perdeu fôlego. Terá muitas dificuldades devido à elevada rejeição amealhada nos últimos quatro anos, com a escassez de recursos para investimento e manutenção do custeio da máquina pública. O grupo rorizista está competindo pelo mesmo perfil de eleitores e, para manter competitividade, precisará fazer alianças internas. Ibaneis ganhou energia e dificilmente será contido na passagem para o segundo turno. O doutor tem dupla vantagem, é o ;novo; e carrega a tradição emedebista que tem capilaridade em todas as regiões da capital.

O radicalismo e a polarização prematura das eleições presidenciais podem contaminar a corrida local. A migração de votos úteis pode ser antecipada na corrida para governador e fazer com que, em vez do primeiro e segundo turno, a disputa esquente demasiadamente e se transforme em uma eleição com dois segundos turnos.






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