Fujimori sem perdão

Fujimori sem perdão

Justiça peruana revoga indulto humanitário concedido ao ex-presidente direitista que comandou o país na década de 1990 e determina o cumprimento integral da pena de 25 anos por massacres. Vítimas celebram fim da impunidade. Decisão deve enfraquecer o fujimorismo

Rodrigo Craveiro
postado em 04/10/2018 00:00
 (foto: Luka Gonzales/AFP - 26/12/17


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(foto: Luka Gonzales/AFP - 26/12/17 )

Ao fim da resolução de 225 páginas, o juiz Hugo Nuñez Julca, titular do Juizado de Investigação Preparatória da Corte Suprema de Justiça da República do Peru, determina: ;Mando que se continue com a execução da sentença nos termos impostos, em todos os seus extremos; em consequência, cumpra-se as ordens de localização e captura contra o sentenciado Alberto Fujimori, para que seja reinserido no estabelecimento penitenciário designado pela autoridade prisional;. Era a anulação do indulto humanitário concedido pelo então presidente Pedro Pablo Kuczynski, em 24 de dezembro de 2017, ao ex-líder que governou o Peru entre 1990 e 2000.

Fujimori foi condenado a 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade ; os massacres de Barrios Altos e de La Cantuta. A decisão fragiliza ainda mais o fujimorismo, que vive um de seus piores momentos. Acompanhado do filho caçula, Kenji, Fujimori foi internado, às 16h45 (18h45 em Brasília), na Clínica Centenário Peruano-Japonesa, em Lima.

De acordo com o jornal El Comercio (em Lima), Miguel Pérez Arroyo, advogado de Fujimori, apelou à Corte Suprema para que anule a decisão de Hugo Núñez e para pedir que o cliente permaneça em liberdade. Kenji Fujimori lamentou o anúncio da Justiça. ;Hoje, novamente, estou contigo em uma ambulância; te amo e, se tenho que dar minha vida e até minha liberdade por ti, assim o farei. Sinto muita dor;, escreveu no Twitter o deputado suspenso em junho, em meio a acusações de tráfico de influência. Entre lágrimas, Keiko Fujimori, irmã de Kenji e líder do Fuerza Popular, denunciou ;uma perseguição; contra a sua família e contra o partido. ;Sinto que aqui há ódio, crueldade. Da parte de quem, eu não conheço, mas certamente dos nossos inimigos políticos;, disparou.

Aliado de Keiko, o deputado Héctor Becerril diz que anular o indulto a um homem idoso e com ;gravíssimas enfermidades; não é justiça, mas vingança. ;O ódio jamais triunfará! (;) As ruas devem se manifestar e rechaçar essa resolução ;política;, que apenas incentiva a divisão e o ódio e que condena à morte o homem que tornou este país viável;, publicou nas redes sociais.

;Jamais deveriam ter dado esse indulto, pois ele não foi humanitário. Mas, uma vez mais, se fez justiça;, desabafou ao Correio, por telefone, Rosa Rojas, 53 anos. Em 3 de novembro de 1991, o esquadrão da morte conhecido como Grupo Colina, um destacamento das Forças Armadas peruanas, executou 15 pessoas, depois de confundi-las como integrantes da organização terrorista Sendero Luminoso. ;No dia do massacre, eles entraram no beco atirando. Corri até uma casa próxima para buscar ajuda. Quando voltei, todos estavam mortos. Meu marido, Manuel Usáis Ríos, tinha 17 balas no corpo; em meu filho, Javier Manuel Ríos Rojas, havia 8. Não tenho mais vontade de viver. Minha família foi destruída. Meu pequeno Javier... Que culpa teve? Minha perda é irreparável. Aqui não há ódio. Tudo o que existe é dor;, acrescentou, ao citar o nome do filho e ao fazer alusão à declaração de Keiko.

Gisele Ortíz Perea, 46, defende que Fujimori seja capturado o quanto antes, mas não deseja que o ex-presidente definhe na prisão. ;Ninguém deve morrer no cárcere, sozinho e longe dos familiares. Agora, sabemos que se segue fazendo justiça. O principal responsável pela morte de nossos familiares será castigado e cumprirá a pena. De alguma maneira, também recuperamos a credibilidade nas instituições de nosso país;, declarou ao Correio a irmã de Enrique Ortíz Perea, 21, um dos nove estudantes sequestrados e assassinados pelo mesmo grupo (leia o Depoimento), no caso conhecido como Massacre de La Cantuta. Para a ativista, o indulto a Fujimori era um ;escárnio contra a Justiça e contra os direitos dos familiares dos mortos;. Por sua vez, Gloria Cano Legua, 58, advogada de parentes das vítimas do regime de Fujimori, comemorou a revogação do indulto. ;Significa a derrota da impunidade. Agora, Fujimori terá de reingressar ao centro prisional para cumprir o restante da pena. Faltam-lhe 13 anos de reclusão;, observou.

Professor de ciência política da Universidad Católica del Perú, Arturo Maldonado explicou à reportagem que o fim do indulto é claramente um golpe contra Alberto Fujimori e seu filho, Kenji. ;Não está claro o panorama para Keiko, que denunciou tal manobra como parte de uma vingança. No outro extremo, há vozes indicando que ela, como filha, não fez o bastante para libertar o próprio pai;, disse. Em dezembro passado, assim que a Justiça concedeu o indulto, o partido Fuerza Popular apontou falhas no processo. ;O fujimorismo ainda goza de muita força no Congresso, mas perdeu muito do respaldo popular.;


Eu acho...
;O fujimorismo de Keiko Fujimori, filha de Alberto Fujimori, está tratando de se unir em torno dos simpatizantes de seu pai. Se ela conseguir tal façanha, o movimento poderá se fortalecer. Mas, o mais provável, é que Keiko não conseguirá reverter a imagem da ;filha má;. Portanto, isso diminuirá ainda mais sua popularidade e afetará a coesão fictícia de sua bancada no Congresso.;


Arturo Maldonado,
professor de ciência política da Universidad Católica del Perú


;Os familiares estão satisfeitos com a resolução do dia de hoje, por parte do Poder Judiciário. Foi uma luta muito longa desde 1991, com os massacres de Barrios Altos e de La Cantuta. Desde então, empreendemos uma longa batalha por justiça. Nós acreditamos que, nesta quarta-feira, colocou-se um freio na impunidade que seria outorgada com o indulto.;



Gloria Cano Legua,
58, advogada de familiares das vítimas do regime de Alberto Fujimori


Depoimento

;Feliz Natal a todos os familiares;
;Meu irmão Enrique Ortiz Perea, 21 anos, foi um dos estudantes desaparecidos e assassinados durante o Massacre de La Cantuta. Em 18 de julho de 1992, um professor universitário e nove alunos ; sete homens e duas mulheres ; foram sequestrados pelo esquadrão da morte conhecido como Grupo Colina, integrado por agentes de inteligência do Exército e sob ordens de Vladimiro Montesinos, chefe do Serviço de Inteligência Nacional do Peru. Este é um dos casos pelos quais Fujimori foi condenado por homicídio qualificado com agravantes de delitos de lesa-humanidade.

Para nós, receber essa notícia nos devolve a tranquilidade que tinha sido arrebatada, na noite de 24 de dezembro. É uma decisão simbólica, pois não tivemos Natal no ano passado. Os familiares tiveram uma noite triste

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