Darwin em tubos de ensaio

Darwin em tubos de ensaio

Academia Real das Ciências da Suécia confere o prêmio de química a três pesquisadores que aplicaram princípios da evolução para o desenvolvimento, em laboratório, de proteínas melhoradas, usadas para produzir desde biocombustíveis até medicamentos

postado em 04/10/2018 00:00
 (foto: Miguel Riopa/AFP



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(foto: Miguel Riopa/AFP )


;O poder da evolução é revelado pela diversidade da vida. E os laureados com o Nobel 2018 de Química tomaram controle da evolução e a usaram para trazer os maiores benefícios para a humanidade.; Foi assim que a Academia Real das Ciências da Suécia anunciou ontem os americanos Frances H. Arnold e George P. Smith e o britânico Gregory P. Winter como os vencedores na categoria. Em seus trabalhos, os cientistas aplicaram princípios básicos da evolução biológica por seleção natural, consagrados por Charles Darwin no século 19, para desenvolver novas moléculas e produtos in vitro no laboratório.

;Eles aplicaram os princípios de Darwin em tubos de ensaio. Usaram a compreensão molecular que temos do processo evolutivo e recriaram o processo em seus laboratórios;, resumiu Claes Gustafsson, presidente do Comitê do Nobel.

Aos 62 anos, pesquisadora do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), Frances Arnold é a quinta mulher a vencer na categoria ; a última foi a israelense Ada Yonath, ao lado de Venkatraman Ramakrishnan e Thomas Steitz, em 2009, pelo estudo da estrutura e função dos ribossomos, a fábrica de proteína das células. Arnold ficará com metade do prêmio de 9 milhões de coroas suecas, cerca de R$ 3,85 milhões na cotação de ontem. George Smith, 77, e Gregory Winter, 10 anos mais novo, dividirão a outra parte.

No anúncio, a academia enfatizou que os pesquisadores ;domesticaram os princípios da evolução;, abrindo caminho para a produção de novos materiais, ou de biocombustíveis mais limpos, além de terapias inovadoras. ;Já podemos explorar os mecanismos da evolução para produzir coisas que o homem não sabe conceber;, afirmou Frances Arnold, em 2016, ao receber o prêmio Millenium Technology na Finlândia.

Eficiência
A evolução dirigida é um conjunto de tecnologias que permite melhorar uma proteína, ou um ácido nucleico, ao reproduzir artificialmente o processo natural, embora buscando orientá-lo em uma direção escolhida. Essas técnicas têm duas vantagens principais: gerar diversidade, agindo sobre o DNA e direcionar o caráter das proteínas modificadas, um coquetel revolucionário para constituir bancos de anticorpos mais eficientes, produzir biomateriais mais resistentes e detergentes mais limpos.

;Fui apenas a pessoa certa na hora certa;, reagiu George Smith, professor da Universidade do Missouri, nos Estados Unidos, ao ser informado sobre a decisão da Real Academia. O americano criou, em 1985, a técnica conhecida pelo nome em inglês ;phage display;, que utiliza bacteriófagos (vírus que infectam bactérias) para induzir a geração de novas proteínas, com características específicas, para serem usadas em uma série de aplicações. As proteínas são geradas dentro das bactérias em cultura (in vitro), e depois, purificadas.

;Estou chocado e feliz, mas mais chocado;, disse, por sua vez, Gregory Winter. Atualmente aposentado, ele utilizou a técnica de Smith para direcionar a evolução de anticorpos de interesse farmacêutico, utilizados desde então no desenvolvimento de novas drogas contra uma série de doenças. ;Espero que eles tenham feito a escolha certa;, brincou o cientista britânico.

;O uso de anticorpos levou a uma mudança de paradigma na forma como tratamos várias doenças e trouxe benefícios significativos para pacientes em todo mundo;, comemorou Alan Boyd, da Universidade de Medicina Farmacêutica em Londres.

Últimas conquistas
Confira os cinco últimos premiados com o Nobel de Química

2018
Frances H. Arnold e George P. Smith (Estados Unidos) e Gregory P. Winter (Reino Unido), por seus trabalhos que aplicam os mecanismos da evolução para criar novas e melhores proteínas em laboratório.

2017
Jacques Dubochet (Suíça), Joachim Frank (Estados Unidos) e Richard Henderson (Reino Unido), por terem desenvolvido a microscopia crio-eletrônica, um método revolucionário de observação das moléculas em 3D.

2016
Jean-Pierre Sauvage (França), Fraser Stoddart (Reino Unido) e Bernard Feringa (Holanda), pais das minúsculas ;máquinas moleculares; que prefiguram os nanorrobôs do futuro.

2015

Tomas Lindahl (Suécia), Paul Modrich (EUA) e Aziz Sancar (EUA/Turquia), por pesquisas sobre o mecanismo de reparação do DNA, que pode conduzir a novos tratamentos contra o câncer.

2014
Eric Betzig, William Moerner (Estados Unidos) e Stefan Hell (Alemanha), pelo desenvolvimento da microscopia fluorescente de alta resolução.

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