Tiro no bom senso

Tiro no bom senso

rodrigo craveiro rodrigocraveiro.df@dabr.com.br
postado em 10/10/2018 00:00
;Armas não matam pessoas. Pessoas matam pessoas.; A frase, repetida quase como um mantra nos Estados Unidos, foi dita a mim por uma mãe cujo filho foi assassinado na semana em que completaria 27 anos, em outubro de 2017. Ambos participavam de um festival de música em Las Vegas, quando um atirador disparou do alto de um hotel, matando mais de 50 pessoas. Para tirar a vida de alguém, é preciso que um dedo mova o gatilho. Se o acesso a armas fosse vetado nos Estados Unidos, muito sofrimento e dor seriam poupados. No entanto, a Segunda Emenda da Constituição considera o porte de arma direito inalienável. O lobby da Associação Nacional do Rifle (NRA), que injeta milhões de dólares na campanha do Partido Republicano, garante que a Carta Magna seja inviolável. A NRA e o Partido Republicano têm as mãos cobertas de sangue inocente.

No Brasil, o candidato que lidera as pesquisas na corrida ao Planalto defendeu o fim do Estatuto do Desarmamento e adotou um tosco gesto de disparo quase que como símbolo de campanha. Chegou a reproduzi-lo em crianças. O candidato foi explícito ao defender que a polícia suba o morro para executar, e não prender, bandidos. O Trump tupiniquim, talvez, não tenha calculado que a mentalidade beligerante é passaporte para mais tragédias. Imagine um cenário hipotético de uma briga em um bar, com o porte de armas legalizado. Um dos envolvidos, a qualquer momento, encerraria a discussão à bala.

Em pequena cidade do interior de Minas Gerais, meu filho de 7 anos estava brincando com outras crianças. De repente, os meninos sacaram ;revólveres; e começaram a gritar ;Eu vou te matar;. Meu filho chorou por não ter uma arma de brinquedo para que se juntasse aos coleguinhas. Sou da cultura da paz e não compactuo com tais brincadeiras. Crianças que crescem em meio à beligerância correm o risco de se tornar adultos violentos.

Armas matam pessoas. Mas também o que as mata são o radicalismo, a corrupção, a intolerância, o ódio, a homofobia, a misoginia, o racismo. Assim como o messianismo tantas vezes mata a razão, ao depositar fé e esperança em figuras que, muitas vezes, merecem descrença e desconfiança. A maior arma que o cidadão de bem tem para a garantia da paz não é revólver, pistola, fuzil, metralhadora ou escopeta. A maior arma é o voto. Com ele, podemos determinar o futuro de nossa nação. Ainda que tantas vezes as escolhas sejam intragáveis e nos façam ficar entre a cruz e a espada.

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