Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 10/10/2018 00:00
Mundo de incertezas

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman é um dos mais importantes pensadores dos fenômenos da globalização. Em mais de 30 livros, ela analisa múltiplos aspectos do que chamou de modernidade líquida em contraposição à modernidade sólida. A flexibilização e a desregulação das leis afetaram profundamente as relações de trabalho.

Segundo Baumam, talvez o termo ;remendar; expresse melhor a nova natureza do trabalho separado do grande projeto de missão universalmente partilhada e do não menos grandioso projeto de uma vocação para toda a vida. ;Despido de seus adereços escatológicos e arrancando de suas raízes metafísicas, o trabalho perdeu a centralidade que se lhe atribuía na galáxia dos valores dominantes na era da modernidade sólida e do capitalismo pesado;.

O trabalho não pode mais oferecer o eixo seguro em torno do qual envolver e fixar autodefinições, identidades e projetos de vida, enfatiza Bauman. Nem pode ser concebido com facilidade como fundamento ético da sociedade, ou como eixo ético da vida individual.

;O que chamamos de classe média, que era a parte da sociedade mais bem-sucedida e confiante, está se transformando muito rapidamente no precariado, que é uma espécie de equivalente ao antigo proletariado: pessoas que estão inseguras em relação à sua posição.;

De acordo com as últimas teses dos economistas, comenta Bauman, é mais uma questão dos 25% mais ricos da população e dos 25% mais pobres, mas do conflito entre o 1% que está no topo e os 99% do resto da sociedade. ;Não sei se você notou que a riqueza dos Estados Unidos após a crise de crédito. Houve alguma recuperação e o valor agregado da riqueza dos EUA aumentou depois da crise, mas 94% desse valor agregado ficou com 1% da população. Todo o resto teve que dividir os outros 6%.;

Ele considera uma catástrofe a precarização da classe média: ;O conflito não é mais entre classes, é de cada um com a sociedade;.

Ao descobrir que o trabalho era fonte de riqueza, a razão tinha que buscar, utilizar e explorar essa fonte de modo mais eficiente do que nunca: ;Essa situação mudou, e o ingrediente crucial da mudança múltipla é a nova mentalidade de ;curto prazo;, que substituiu a de ;longo prazo;. Casamentos ;até que a morte nos separe; estão decididamente fora de moda e se tornaram uma raridade: os parceiros não esperam mais viver muito tempo juntos;.

Bauman é cético em relação às mudanças do mundo do trabalho. ;Flexibilidade; é a palavra de ordem, e quando aplicado ao mercado de trabalho significa um fim de emprego como o conhecemos, anunciando em seu lugar o advento do trabalho por contratos de curto prazo, ou sem contratos, posições sem cobertura previdenciária, mas com cláusulas ;até nova ordem;. ;A vida de trabalho está saturada de incertezas;, vaticina Bauman.




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