Problemas no futuro

Problemas no futuro

Relatório Global do Fundo de População da Organização das Nações Unidas aponta queda na taxa de fecundidade no Brasil, mas as diferenças socioeconômicas permanecem. Levantamento prevê redução do número de habitantes em 2047, e estagnação em 2060

Camilla Venosa Especial para o Correio
postado em 18/10/2018 00:00
 (foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)



Seguindo a tendência mundial, brasileiras têm cada vez menos filhos e viram mães cada vez mais tarde. Isso é o que aponta o relatório global do Fundo de População da ONU. Divulgado ontem, o estudo faz um panorama da situação das famílias em todo o mundo. Dados do levantamento mostram uma redução na taxa de fecundidade no Brasil, mas o país ainda apresenta uma grande disparidade no cenário econômico.

Pela pesquisa, o número considerado ideal para manter a população de um país é de 2,1 filhos por mulher. O Brasil está abaixo desse nível, com uma média de 1,7 ; em 1960, a média era de 6,28. Esse valor é inferior à média dos países da América Latina (dois filhos) e do restante do mundo (2,5). Assim como em outros países, o Brasil passou por uma redução da taxa de fecundidade em pouquíssimo tempo.

Para o especialista do Fundo de População da ONU no Brasil (Unfpa-ONU), Vinícius Monteiro, essa queda brusca do níveis de fecundidade ocorreram pelo acesso maior a informações. ;Isso é um fator observado no mundo inteiro. Nas últimas décadas, houve uma melhoria muito significativa no acesso a serviços de saúde, mudanças socioeconômicas e informação sobre direitos sexuais reprodutivos. E isso aproximou as mulheres da quantidade de filhos que elas gostariam de ter;, pontua Monteiro.

Especialistas acreditam que, apesar de ainda ter uma população em crescimento, o caminho para a inversão da pirâmide demográfica brasileira aparece em um futuro próximo. Segundo o IBGE, a partir de 2047, a população cairá gradualmente, atingindo a estagnação em 2060, com pouco mais de 228 milhões de pessoas. Nesse mesmo ano, um quarto da população deverá ter mais de 65 anos, apontando um envelhecimento da sociedade brasileira.

Isso acontece em alguns países da Europa. Em 2016, 20,7% da população de Portugal e 18,7% dos espanhóis tinham 65 anos ou mais. O relatório explica que esses países terão cada vez mais problemas para custear os serviços de previdência e também menos pessoas no mercado de trabalho.

Segundo Monteiro, oficial de Programas para População em Desenvolvimento da Unfpa-ONU, a redução da taxa de fecundidade não preocupa por enquanto. ;Estar nessa faixa de fecundidade e continuar caindo significa que o país está passando por um processo acelerado de envelhecimento. Ainda não é uma preocupação, como em alguns países da Europa, nos quais a taxa de fecundidade permanece baixa por muito tempo, mas tudo depende dos próximos anos;, pondera o especialista.

Por região
As taxas de fecundidade têm caído no mundo todo, porém, esses níveis não registram um parâmetro homogêneo no território nacional. Cada região exibe realidade diferente. No Sul e no Sudeste, onde as mulheres apresentam nível maior de escolaridade e carreira, a média é menor do que a nacional, chegando ao patamar de 1,67 filhos por mulher. No Nordeste, é de 1,92. No Norte, onde há menos acesso a saúde e informação, chega a 2,34.

A diarista Maria de Lurdes da Conceição, 43, tem seis filhos e ficou grávida pela primeira vez aos 16 anos. ;Eu vim de uma família grande, minha mãe teve 18 filhos. Mas, aos 16 anos, eu não sabia como prevenir a gravidez, não foi algo planejado. Os meus outros filhos eu também não planejei, mas não evitei;, diz.

Ela relata que não se arrepende de ter engravidado muitas vezes, mas não aconselha os filhos a fazerem o mesmo. ;Eu não recomendaria aos meus filhos terem crianças porque, hoje em dia, é muito difícil dar educação e o mundo está muito violento;, justifica Conceição.

Por idade

O levantamento da ONU destaca também que as mulheres estão engravidando cada vez mais tarde, principalmente, porque quererem crescer na carreira e, assim, adquirir uma garantia financeira maior antes de engravidar. No Brasil, a mulher se torna mãe, em média, aos 26,4 anos. Porém,caso siga a tendência dos países mais desenvolvidos, essa idade deve aumentar.

A empresária e publicitária Thaís Amorim, 25, queria ter filhos cedo, mas a rotina do trabalho adiou os planos. ;Eu sempre sonhei em ter filhos cedo. Queria acompanhar as atividades e a mentalidade deles. Mas, em 2016, quando abri minha própria agência, percebi que o trabalho começou a sugar muito o meu tempo. Então, resolvi dar uma pausa nos planos de ser mãe;, conta a jovem.



;Eu não recomendaria aos meus filhos terem crianças porque, hoje em dia, é muito difícil dar educação,
e o mundo está muito violento;

Maria de Lurdes da Conceição, diarista




Palavra de especialista

;É preciso trabalhar a questão de gênero, como paternidade responsável e divisão do trabalho doméstico, e também garantir o acesso a serviços de creche e outras políticas públicas que permitam que elas tenham filhos quando desejarem. Em um nível mais elevado do problema, as mulheres postergam demais o momento de ter filhos. E, com mais idade, elas têm mais dificuldade de engravidar e acabam tendo menos filhos;.

Vinicius Monteiro, oficial de Programas para População em Desenvolvimento do Fundo de População da ONU no Brasil


;Um grande fator que contribuiu (para a redução da quantidade de filhos das brasileiras) é a escolarização. Essas mulheres com um nível educacional mais elevado começam o período reprodutivo mais tarde. Um exemplo disso é o centro do Distrito Federal, onde o pico de fecundidade é aos 35 anos. Agora, em locais com baixa escolaridade, as mulheres começam o período reprodutivo mais cedo, tendo filhos quando ainda são muito jovens e ficando grávidas mais vezes. Se mantivermos a tendência de redução de filhos, a perspectiva é de um envelhecimento muito rápido e não vamos repor os jovens. Por isso, precisamos pensar nos impactos na economia;.

Ana Maria Nogales Vasconcelos, professora do departamento de Estatística da Universidade de Brasília (UnB)

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