Áudio expõe tortura e esquartejamento

Áudio expõe tortura e esquartejamento

Gravações em posse da inteligência da Turquia revelam que o jornalista Jamal Khashoggi foi espancado, decapitado e teve corpo cortado em pedaços pouco depois de chegar ao consulado em Istambul. Trump nega acobertamento e diz esperar a verdade até o fim da semana

Rodrigo Craveiro
postado em 18/10/2018 00:00
 (foto: Kenneth Roth, diretor executivo da Human Rights Watch (HRW)

Ozan Kose/AFP







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(foto: Kenneth Roth, diretor executivo da Human Rights Watch (HRW) Ozan Kose/AFP )


O que ocorreu no consulado da Arábia Saudita, em Istambul, no último dia 2, caberia em qualquer roteiro de Quentin Tarantino e dos mais macabros filmes de terror. De acordo com o jornal turco Yeni Safak, gravações de áudio obtidas pela inteligência da Turquia revelam que o jornalista Jamal Khashoggi, colunista do The Washington Post, foi arrastado, torturado e teve os dedos arrancados, antes de ser decapitado e esquartejado (veja a arte). Segundo os registros, Khashoggi demorou sete minutos para morrer, e os executores abandonaram o prédio em duas horas.

Os assassinos estavam à sua espera, quando ele chegou à representação diplomática com a intenção de buscar um documento para se casar com a noiva, Hatice Cengiz, que o aguardava do lado de fora. De acordo com o Yeni Safak, os carrascos seriam agentes ligados ao príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman (MBS), figura central na aproximação entre Riad e Washington.

As suspeitas de que a execução de Khashoggi foi ordenada pelas instâncias mais altas do reino ficaram evidentes no diálogo entre o cônsul saudita em Istambul, Mohammad Al-Otaibi, e um dos assassinos. No momento em que o jornalista era torturado, o diplomata externou preocupação. ;Faça isso lá fora. Vocês me colocarão em apuros;, pediu ao esquadrão da morte que, segundo o governo turco, era composto de 15 membros, incluindo oficiais de inteligência, guardas da monarquia e o médico legista Salah Muhammad Al-Tubaigy. ;Se você quer viver quando retornar à Arábia Saudita, cale a boca;, retrucou um assassino. O cônsul deixou a Turquia anteontem. Enquanto usava uma serra para cortar o corpo de Khashoggi, Al-Tubaigy ouvia música. As autoridades turcas se recusaram a informar como os áudios foram obtidos.


Pedido
O presidente americano, Donald Trump, pediu ao colega turco Recep Tayip Erdogan vídeos e áudios relacionados ao desaparecimento de Khashoggi. ;Nós pedimos por isso, caso existam. (;) Eu quero descobrir o que houve, onde está a culpa. Provavelmente, saberemos disso até o fim da semana.; Trump se defendeu de acusações de que estaria tentando ;encobrir; a Arábia Saudita, aliada estratégica e comercial dos EUA no Oriente Médio. ;Não, (não estou encobrindo) nada, eu só quero averiguar o que está acontecendo. Não estou encobrindo.;

Mais cedo, o republicano havia feito uma declaração polêmica à Associated Press. ;Aqui vamos de novo com o ;você é culpado até que provem ser inocente;;. Ontem, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, se reuniu com Erdogan, e se recusou a dizer se Khashoggi está vivo ou morto. ;Não quero falar de nenhum dado;, desconversou.

Para Jamal Elshayyal, jornalista da TV Al-Jazeera que falou por várias vezes com Khashoggi, as evidências apontam na direção da família real saudita. ;O fato de quatro dos suspeitos serem membros da equipe de MBS sugere que ele deu a ordem. A Arábia Saudita é uma monarquia absolutista. Todas as decisões são tomadas pela Corte real, controlada por MBS. O envio do perito forense a Riad é mais uma prova de que se tratava de uma operação estatal;, disse ao Correio. O jornal The New York Times divulgou que ;ao menos nove dos 15 suspeitos trabalharam para os serviços sauditas de segurança, o exército ou outros ministérios;. Um deles, Maher Abdulaziz Mutreb, acompanhou MBS em compromissos nos EUA, em Madri e em Paris.

Elshayyal lembrou que Trump investiu capital político na relação com o rei Salman e com MBS. ;Ele afirmou gostar dos sauditas, porque eles lhe dão dinheiro e gastam bilhões na economia, o que ajuda Trump a parecer que faz um bom trabalho. O presidente lida com essa situação não de uma perspectiva de direitos humanos, mas de uma análise econômica de custo e benefício.;

Diretor executivo da Human Rights Watch (HRW), Kenneth Roth afirmou à reportagem que Trump ;é uma das poucas pessoas no mundo que deseja crer nas negações sumárias de Riad sobre as evidências em Istambul;. ;Há razões para isso. O presidente quer a continuação das lucrativas vendas de armas e a ajuda saudita no controle do mercado do petróleo, enquanto economicamente sufoca o Irã. Isso não deveria significar fechar os olhos ao que todos os relatos indicam tratar-se de um assassinato brutal;, declarou. ;É lamentável que tenha sido o assassinato aparente de um jornalista renomado o que despertou o mundo para a depravação saudita.;

A execução de Khashoggi intensifica as pressões sobre Washington por uma revisão de seus laços com um país importante na contenção regional do Irã. ;Precisamos da Arábia Saudita para a luta contra o terror, para tudo que acontece no Irã e outros lugares;, admitiu Trump, ontem.

;Faça isso lá fora. Vocês me colocarão em apuros;
Mohammad Al-Otaibi, cônsul da Arábia Saudita em Istambul, ao se dirigir aos executores de Jamal Khashoggi, segundo gravação em posse das autoridades turcas

;Se você quer viver quando retornar à Arábia Saudita, cale a boca;

Agente de inteligência saudita não identificado, ao responder a Al-Otaibi

Eu acho...


;O príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman é notório por querer tomar todas as decisões de importância por conta própria. É difícil conceber que uma operação tão sensível como o ;sumiço; de um jornalista tão conhecido e respeitado como Jamal Khamoggi tenha sido aprovada por qualquer pessoa abaixo do príncipe herdeiro.;

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