Um pomar urbano

Um pomar urbano

Árvores frutíferas espalhadas entre prédios da cidade começam a entrar na época de colheita. Moradores aproveitam

postado em 18/10/2018 00:00
 (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)




Um homem engravatado andando solenemente sob o sol para ante uma pequena árvore. A copa da planta é um pouco mais alta que ele. O sujeito procura algo entre os galhos. Com uma goiaba em mãos, volta à sua rotina saboreando a saudável fruta adquirida a custo zero.

Depois dele, é a vez de os funcionários da limpeza de um dos prédios das quadras 3 e 5 do Setor de Autarquias Sul sentarem ali para jogarem conversa fora e comerem as goiabas. Edmilson da Silva, dono da banca de jornais que fica do outro lado da rua assiste todo dia a alguém pegar frutos ali. ;O pessoal traz sacola para pegar goiaba, leva na camisa para comer depois;, o comerciante conta da fartura propiciada por aquela pequena árvore. Ao lado da banca, um pé de caju resplandece. ;Esse aí eu vi quando plantaram. Foi um cara que trabalhava aqui no banco ao lado e que já morreu;, conta ele apontando para a sede da Caixa.

As frutíferas fazem parte da arborização da capital desde o início da construção. ;As pessoas aproveitam os frutos dessas árvores, bem como as aves também;, destaca Raimundo Cordeiro, chefe da Divisão de Implantação de Áreas Verdes da Companhia de Urbanização da Nova Capital (Novacap). Segundo ele, periquitos, tucanos e outras espécies estão entre as comensais dos pomares plantados nas quadras do Plano Piloto.

Parque

O ponto de Brasília com maior variedade de frutas e número de pés plantados é o Parque da Cidade. ;A gente sempre plantou naquela área. Não deixamos de colocar mudas de frutíferas por lá;, complementa Raimundo Cordeiro. Graças ao espaço aberto do parque, as árvores frutíferas são bem-vindas. A orla do Lago Paranoá é outro espaço que vem ganhando árvores frutíferas.

Entre as quadras SQN 311 e 312, uma fileira de amoreiras ladeia a calçada. A pequena alameda é recente, segundo a moradora Dália Moreira, que aponta os pés de amora dentro da quadra SQN 112, uma das mais antigas da Asa Norte. Quando recebe visita de seus sobrinhos e sobrinhos-netos, a pedagoga tem nas pequenas árvores um playground frutífero para as crianças que sobem nos galhos e colhem as frutas. ;Eles trazem até vasilha para levarem;, ela conta. ;Às vezes, tem tanta amora que dá até para fazer geleia;, comemora.

Desde que mudou para a SCLRN 710, o motorista Adelson Silva acompanhou o pé de abacate em frente ao seu bloco crescer. ;Ele era bem pequenininho. Lembro-me quando ele começou a dar fruto;, conta Adelson. A árvore produz a variedade de abacate manteiga. ;É o melhor. É uma delícia;, ele conta. Apesar de não estar com seus frutos maduros, o pé está carregado. Adelson só espera o momento de os frutos amadurecerem. ;Eu amasso o abacate, jogo um sal e um azeite e como com arroz. Fica uma beleza;, o motorista dá a dica.





Cerrado

O condomínio do Bloco B9, na SQRW 8, contava com um pátio com cadeiras e mesas para os moradores passarem o tempo ao ar livre quando um bem-vindo invasor apareceu ali. O pé de pitanga brotou do nada há 10 anos e foi cuidado pelo zelador do prédio, Jean Rodrigues. Na função há 18 anos, Jean acredita que a planta veio de alguma forma da faixa de cerrado que fica entre o Sudoeste Econômico e o Eixo Monumental. De lá, arranjou outras duas mudas de pitanga. ;Essas mais novas são mais docinhas. Faz uns sete anos que plantei;, conta Jean, que sempre tem polpas das frutas colhidas no congelador de casa.

Ali perto, no Bloco B7 da mesma quadra, outro zelador, José Alves, também cuida de frutíferas dali. Nascido no Maranhão e criado no Pará, cresceu num sítio com um pomar riquíssimo. Há 19 anos trabalhando como zelador no prédio, plantou diversas espécies na área: goiabas, laranjas, mexerica, algodão e um pé de acerola, que já está em sua segunda leva. ;Ele fica carregado. O pessoal desce e fica aqui comendo direto do pé;, destaca.

Uma das moradoras do bloco, a psicóloga Helena Maêdo deu sua contribuição ao pomar do prédio: uma muda de romã que ganhou de uma amiga. A planta, ainda pequena, dá frutos. Helena conheceu as propriedades anti-inflamatórias da fruta quando um outro amigo a instruiu a fazer gargarejos com o chá da casca. ;Foi um alívio. Eu tinha a voz sempre rouca e tinha inflamação direto;, comenta Helena. Hoje, seus netos se divertem comendo romã. ;Eles adoram aquelas bolinhas vermelhas;, conta a avó.



Mobilização

Os moradores do Bloco I da SQN 407 têm uma relação de amor e ódio com os pés de jamelão em frente ao prédio. A servidora pública aposentada Normélia Nogueira reside ali há 36 anos e, quando chegou, o pé da fruta já existia. Vinda do Ceará, não conhecia essas frutinhas pretas, deixou seu carro à sombra da árvore. ;Eu achei que era jabuticaba;, diz ela. Depois de ver o veículo todo pintado de preto e roxo foi obrigada a correr atrás de uma lavagem.

Segundo ela, outros moradores se mobilizaram para que as árvores fossem tiradas dali. Além da sujeira, os restos de frutos tornam a calçada mais escorregadia, um perigo na época de chuva. Normélia foi uma das defensoras dos pés de jamelão. ;O pessoal que tem apartamento virado para o poente precisa da sombra da árvore. Senão você chega em casa de tarde e está um forno;, ela argumenta.

Apesar de servir como um pomar para a população brasiliense, o intuito da Novacap, com a introdução de várias espécies frutíferas, não é de alimentar as pessoas. Mas, sim, de se valer da beleza ornamental das flores que essas plantas têm. Outras, por conta, da rapidez com que elas crescem e ficam vistosas. É o caso das amoreiras e dos pés de siriguela, esses não são mais plantados pela Novacap. ;A qualidade das frutas não era muito boa;, explica Janaína Gonzalez, técnica agrônoma na Novacap.

Registro

Alguns tipos não são plantados pela Novacap em razão da segurança biológica envolvida no plantio destas. É o caso dos cítricos, por exemplo, que podem propagar pragas. ;Além disso, é necessário registro junto ao Ministério da Agricultura para produzir mudas dessas frutas;, aponta Janaína.

Mas há árvores frutíferas que acabam gerando incômodo na população. Seja por sujeira ou por eventualidades decorrentes da queda delas dos pés. Raimundo lembra que a Novacap realiza análises antes de realizar plantios em áre

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